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Antropología da saúde e dependença

 

Os programas de saúde atuais para os povos indígenas do Brasil sao geradores de condutas de dependença que ja começaram com o primeiro contato com o homem branco.

Os modelos de saúde sao sempre dinámicos e os exemplos podem ser analisados desde o marco teórico da antropología da saúde para demarcar as possibilidades de açao terapéutica, sempre posterior ao diálogo.

Os siguintes exemplos, continuaçao do artigo Saúde Indígena foram tirados do material das consultas feitas por o autor (Dr. Federico Beines).

A) Grupos de dependenca exclusiva


Ororobá
Os controis prenatais das grávidas sao feitos sempre nas aldeias pelas auxiliares de infirmagem até que a mulher tem 4 meses de gravidez. Na primera consulta que eu fiz, uma grávida de 17 anos branca casada com indio reclamava de dor de cabeça. Os controis foram normais. O único antiinflamatorio que tinha no posto de saúde era nimesulida, contraindicado na gravidez –situaçao repetida por as donaçoes dos medicamentos menos utiliçados nos sistemas de saúde. A consulta foi desenvolvida num consultorio com uma janela grande por onde tinha como espetadores quase a dez pessoas. No interior do gabinete estava o marido da moça, de 34 anos. Ele queixava se da atençao recevida pela mulher e pela falta de control profissional, entao eu ofereci encaminha-la para a cidade.


Sempre que existe uma saída para a cidade tem que pensar a decisao se baseando no entendimento da causa da escolha
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Nesse caso nao foi só a desconfiança no sistema de atendimento? O marido nao acompanhou ela, quem ficou mas de duas semanas na cidade, que fica a 5 horas de carro pela estrada de chao. Para responder à pergunta anterior vamos analiçar outra consulta feita de forma “comunitaria”, na presença dos habitantes da aldeia: uma mae com o latante de 4 meses consultando por dor nas costas. Como a nimesulida também está contrindicada na latancia, eu perguntei a forma de amamantamento, que nao precissava muita explicaçao pois ja estava na consulta amamentando em qualquer posiçao, com a criança pindurada do peito sem a possibilidade de mirar na cara da mulher. Quando eu falei para ela dos jeitos mais simples para amamentar sem gerar contratura, ela respondiu que nao ia fazer as coisas como eu dissia. Conversando com ela notei que nao era a dificuldade da técnica o que ela recusava mas da minha técnica para falar com ela.

A técnica conselhera e paternalista da medicina branca fracasa quando é evidente que pretende se funcionar sem conhecer os modos de vida do povo. Nisso basearé os exemplos, sobre tudo nas conseqüencias na relaçao com os proffisionais da saúde. A desconfiança pode ser um obstáculo exprimido tanto por individuos (dos casos clínicos) como por o grupo em geral (a presença dos observadores). O objetivo tem que constitui-se a partir duma desconfiança básica, transforma-la em o primeiro paso à confiança. Longe de ficar como obstáculo que empede a tarefa, essas manifestaçoes tem que ser interpretadas no principio diferencialmente: a desconfiança é para mim, para o modelo de medicina ou para ambos? Isso funcionará no primer momento numa intervençao sanitaria breve.

Na minha estadia eu fichaba muitas noites na casa do indio do polo base, onde morei com os doentes e acompanhantes que estavan na cidade. Entre eles estava o cacique de Canaí, um assentamento onde moravam os primeiros habitantes de Ororobá, antes de eles separar. Fiz amizade com ele e, quando eu visitei a aldeia dele, o cacique me acompanhou no lugar do carro que fichaba disponible, e voltamos no mesmo dia (ele tinha que ficar com a filha, num brote psicótico). Nas primeiras duas horas eu nao tive a ninguem para atender. Foi só após dos comentarios do cacique que o pessoal foi se acercando. Essa situaçao foi oposta à dos Atikum de Ororobá, quem sem saber de minha visita, ao escutar que o médico estava là concorreram todos para consultar. Mas no final, foi tao ao contrario?

Numa aldeia a concorrencia foi imediata mas eles ficaram o tempo tudo olhando os processos (só as avaliaçoes íntimas eu fechei as janelas, ficando o pessoal pendente da porta). Na outra aldeia a confiança chegou pelo lado do cacique, mas nao se tem certeza dessa cegada até olhar os resultados duma indicaçao terapéutica. Isso nao quer dizer que o importante seja a obedienca, mas os resultados da demanda da pessoa e do grupo. 

Os Guajajaras e os Guaraní sao dos etnias que comvivem na aldeia de Guiajanaíra. Os caciques tambem coincidiram no polo base. Ambos apresentavam dor nas costas por esforços reiterados. O cacique Guaraní trábala com uma motoserra. Tivemos um dialogo sobre a imposibilidade de deixar o seu trábalho e combinamos para fazer uma faixa e para mudar os hábitos de trábalo: fazer o mesmo mas corrigindo a postura, interrompendo e fazendo tudo mais devagar. A mudança de hábitos nao é sempre uma causa de desconfiança. O interesse que o proffisional amostra sai da convivencia, que foi o fator mais importante para o dialogo con os caciques. O guajajara me pidiu ajuda para uma cartilha de educaçao para a saúde. Essa demanda fala de um diálogo bem estabelecido com as pessoas: um resultado observável, além da eficacia de um modelo.

Por último é possível detetar algums prejulgamentos dos dois lados que interferem nas conceiçoes da alteridade: se os indios acreditavam que eu recevia paga pelo trabalho, isso acressentava o malestar do mesmo jeito que os profissionais acreditam que todos os indios recebem paga da Vale. Mesmo quando existem subsidios da FUNAI para todas as etnias, nao sao comparavies com o apoio dessa empresa.

 

 

 

B)Grupos de dependeça compartida

Sororó é uma aldeia que esta na gestao do subsidio particular da empresa mineira. Por enquanto tem algumos projeitos de “desenvolvimento solidario”, atividades comunitarias e criaderos de peixe novos que sustentarao as necessidades do pessoal de modo mais duradouro que o pagamento pela utilizacao da area para mineria. Eles conservam a lingua, além de falar portugues fluentemente na maoiria –sobre tudo os mais jovens. A demanda nesta aldeia foi a maior, tendo consultantes a toda hora e sistemáticamente desde as 8 da amanha, hora estipulada para o comeco do atendimento da auxiliar.
Uma ideia geral sobre eles é que querem recever um subsidio cada vez que tem alguem doente que favoreca uma incapacidade. Voltaremos aquí apos de comentar que a nocao de urgencia para as auxiliares influi diretamente sobre a populacao: quando eu ficava na apito, antes de chegar na aldeia, recevemos um carro com uma “urgencia” de uma crianca com um quadro que ja tinha 9 dias de evolucao. A auxiliar foi criticada, mas nenhuma medida foi tomada por essa acao. A crianca foi internada no hospital municipal. Segundo os trabalhadores do polo base, nao era a primeira vez que acontecía com a nova auxiliar d’aldeia.

Os motivos de consulta quando eu esteve foram maiormente respiratorios nas criancas. O pessoal acostuma falar que “Suruí adora tomar remedios”. Isso é verdade: as vezes criancas que nao falam, aos dos anos, com frequencia ja conhecem a tecnica para pegar os comprimidos com um copo de agua. O único pajé ja está velho e vem tudas as manhas tomar medicamentos no posto de saúde para a cardiopatía. Nesse contexto é possivel fazer uma letura dos fatos que será sempre parcial. A demanda excesiva bem poderia provir do exceso de medicacao por parte dos auxiliares (segundo o modelo, que o unico medico deixa a lista de medicamentos “uteis” em poucos quadros). A predisposicao pode provir da falta duma institucao tradicional propria para medicar: o pajé só funciona para previr doencas, segundo a informacao brindada pelos meus pacientes. Mas fica claro que a demanda sempre leva uma preocupacao encuberta, que se faz necessario descobrir. Nao alcanza falar que eles gostam dos remedios. Quando eu voltei, a auxiliar se justificou falando que os pacientes nao estavam chegando a tempo a consultar.

Outra ideia geral é que os indios só consultam quando a urgencia está bem instalada. Falar isso nao é diferente de dizer que o ator blanco nao possui nenhuma influenca onde está trabalhando. Resulta claro que a demanda está relacionada com a nocao dos beneficios possiveis que a populacao construi dos efetores da saúde: neste caso, puramente curativo. Nao ha uma intencao preventiva segundo os nativos no modelo branco. Isso pode explicar as condutas de demanda e também as ideias que os efetores tem sobre a gravedade que os outros sintem.    

Kyikatege  

O cacique tem uma enteriti inespecífica que tem anos de evolucao, sem que ninguem possa ter diagnosticado certo para o tratamento. Agora tem sintomas digestivos altos que ameritam uma endoscopia, que ele ja fez tres. Mas ele nao quer repeter: apos de falar ums momentos, eu noto que ele tem medo da colonoscopia que ele tem feita. Nao é pela dor nem pela vergonha: os motivos mais frequentes de recusa desse tipo de estudos nos pacientes brancos. En realidade o que está acontecendo é que ele nao gostou da anestesia parcial que sofreu pelo estudo, que se faz com midazolam (um medicamento que provoca amnesia retrograda mas no momento a pessoa sinte tudo). O problema para ele consiste em que ninguem tinha explicado que ele ia a sentir a sua cabeca diferente, numa alteracao da conscienca. Agora eu expliquei o procedimento, que se faz com analgesia mas sem anestesia. Ele mostrou que o que ele tinha era medo a morrer. E os adultos que estavam na consulta ficaram desconfiando: "ninguem fala o que ele tem; se ele nao quer mais endoscopias nao tem que fazer; se ninguem quer dizer é porque ele tem cancer". Os comentarios sugerem a protecao da figura do cacique além do medo coletivo á morte. Mas o que é mais importante aquí: o medo a morte pode ser usado num caso em particular pelo médico, por enquanto o funcionamento coletivo tem que ser considerado em todas as consultas.   

Xicrin

Esse povo aquí foi visitado sói no Polo Base da Apito e na Casa do Indio: uma casa grande na beira do río Tocantins. É o lugar que eles preferem para morar quando eles nao estao na aldeia: aquí eles tem um jardim com as condicoes da sua floresta virgem e muitos gostam de dormir a tarde numa rede imbaixo das arvores. Tudo lá parece tirado da cena das aldeias, segundo as enfermeras que as conhecen: um cao come dum prato no chao antes que uma crianca possa comer; as mulheres compartem o tempo enquanto depilam todos os seus cabelos; algums lavam a roupa e os homems descansam. O pessoal da saúde fica indignado: "tudo suxo, sem higiene voces vao ter muitas doencas". O problema nao está en dizer isso mas em pensar com os mesmos códigos: "quando uma mulher barreu a primeira casa d'aldeia eu fiquei emocionada". Mas isso como foi? A enfermera fala a lingua Xicrin, esse é o primer punto importante. Se ela consiguiu fazer entender alguma coisa, é mais parecido a um reflexo condicionado pela recompensa que por a verdadera apropiacao do conhecimento.  

 

Discusao

Duma mesma observacao sempre é possivel encontrar uma explicacao a dificuldade da tarefa que culpe duma mesma coisa aos indios ou aos efetores da saúde. Mas o enfoque procurado neste caso sera um que tenha em consideracao a interacao dos atores, tentando achar causas nesse encontro cultural com o objetivo de amelhiorar o modelo –e nao achar culpaveis, conceicao que se desprende diretamente do modelo unilateral da assistencia.


 A diversidade é uma nocao que tem que ser incorporada se a ideia é pensar uma abordagem cultural: nao só diversidade de individuos mas de possibilidades. Cada vez que os profissionais diram um só caminho "para a saúde", eles geraram um problema, mesmo se fosse um caminho certo e mesmo comprensivel pelos indígenas. ¿Quem gosta de ter só uma alternativa? A unilateralidade nos modelos de saúde atuais tem muito para a analise pela sua complexidade e interacao que consiguem produzir. Jamais tem poucos efeitos a acao do conselho mais minimo que o pessoal dei. Longe de atacar o modelo, a gente tem que pensar o que fazer com ele, como olhar as interacoes que estao se produzindo.   

As etnias tem sempre particularidades além da divisao pelo seu grau de independenca. Por exemplo, nao pode se considerar como geral a ideia que os mais dependentes esjam os que mais demandam: em Sororó (do grupo relativamente independente) foi o lugar de maior numero de consultas. Nao podem se fazer clasificacoes com as quantidades: só fica analisar as demandas por separado. Nao adianta falar que os Xicrin é a etnia que mais consulta no Polo Base: nao porque eles tem aviao pagado pela Vale para chegar na cidade (o número sempre vai ser maior), mas porque as multiples consultas sao feitas "contra a vontade deles", no senso que a preferencia é a medicina tradicional (que eles usam nos casos graves), e isso é evidente nas consultas e no seguimento dos pacientes.

A demanda nao está diretamente relacionada a um fator da oferta da medicina branca: também está a historia e a singularidade dos individuos. Mas pelo instante o objetivo é analisar algumas questoes do contexto que favorecem as tendencias em tudo o que as etnias tem em comun: nao na quantidade estadística mas sim nos sucessos que podem ser comparáveis.

Com frequencia fica claro que os modelos unilaterais agem duma maneira "neocolonial" quando eles impoem os tratamentos. E ainda mais quando eles tocam os modos de vida, a higiene, o risco é maior: perder efetividade nao seria tao terrivel como se dar conta que toda a intervencao foi em vao. A consequencia disso é sempre uma pérdida de vidas irreparavel -além dos esforcos que na maioria das vezes tem boas intencoes.

Se a atmosfera que rodeia as cidades do Pará é tambem colonial, pelas construcaoes temporarias a causa da mineria, a mesma coisa sucede com as etnias: o pessoal fica tirando metais e madeira no tempo que acham escusas para o aproveitamento…antes os conquistadores faziam tudo no nome do Senhor, por enquanto agora é feito no nome da solidaridade: todo mundo sabe que a Vale paga a saúde dos indígenas, e mesmo o pessoal acostuma pensar que é igual para todas as etnias (mesmo algums profissionais, jamais supervisados). Agora, ¿tem que considerar uma boa acao a introducao desses modelos asimétricos que nao forma pensados para as etnias?

O trabalho pretendeu dar ferramentas para a analise individual dos grupos para amelhiorar as intervencoes e achar os puntos de contato nas reacoes dos indígenas. Quando eles agem diferente, é devido as caraterísticas da etnia. Ao contrario, quando eles atuam segundo um parametro comum, é possivel que seja em resposta aos distintos graus e formas do neocolonialismo. Apos dessas conclusoes, será possivel encontrar o caminho para que a apropiacao do nosso conhecimento pela etnia tambem signifique apropiacao dos conhecimentos da etnia por nos. O primeiro paso é, como foi feito aquí, a observacao das conceicoes proprias.