Voltar a História da psiquiatria


 

História da loucura

 

(Continua...)

Primeiros movimentos

Além das casualidades e com as modernizações do transporte, começaram por fim a se aproximar as psiquiatrias brasileira e a argentina? Para chegar a isso será preciso voltar outra vez a Europa. Os higienistas fracassaram com o projeto de regulamentar a ordem total na cidade, e então chegaria o momento de afastar dela o mal.

Surge assim a idéia que o problema do louco está na cidade e na corrupção moral que aí acontece. O isolamento do doente mental nas áreas rurais aparece então como a única maneira de resolver o problema.

Existe neste momento uma tentativa de fazer sistemas “abertos” de isolamento, com nomes em ingles: No restraint e Open door, que darão à loucura uma nova forma de tratamento geográfico.
A mais importante mudança dos próximos anos será o crescimento dos manicômios já existentes ou a criação de outros novos. Entre o ano 1912 e 1920 o espaço manicomial brasileiro sofre uma ampliação significativa: as colônias do Engenho de Dentro e Jacarepaguá são inauguradas fora da cidade.

Porém, os sistemas políticos das nações envolvidas em aquilo não pareciam preparados para receber um cambio muito radical. As ligas de higiene mental, fundadas tanto no Brasil como na Argentina tem como bandeira a idéia da eugenia como principal ação social da psiquiatria. Assim pretendem acabar com a loucura mediante uma profilaxis mental que vai tentar identificar com maior certeza e cientificidade qualquer louco que ande nas ruas, mesmo aos que não parecem mas são. É aqui que nasce a coparticipação definitiva entre a psiquiatria e a criminologia, tentando que nenhum louco fosse para a cadeia no caso que fosse acusado de algum crime. No plano geográfico também se destacará, nessa segunda década do século XX, a inauguração do manicômio judiciário do Rio de Janeiro. Na Argentina, um serviço federal da polícia é inaugurado nessa época chamado “Servicio de observación de alienados”.

O alienismo chega então a um momento de máximo poder, justo quando a idéia de mudança começava a ser colocada na discussão. Em 1923 Gustavo Riedel funda a Liga Brasileira de Higiene Mental, apos de ganhar um premio na Exposição Internacional de Higiene em Estrasburgo, na França a causa do seu trabalho no serviço de profilaxia mental anexo à Colônia de Engenho de Dentro. As idéias de castração também atingem os psiquiatras brasileiros dentro da Liga (Freire Costa, 1989).

As crises sociais mais graves deixam o território convulso, sacudido, e com expansão das áreas manicomiais.
O momento de intercambio entre a Argentina e o Brasil vai chegando, por exemplo na reunião de Ribeirão Preto no ano 73, com a participação cada vez mais importante de representantes da psiquiatria argentina.

 

Além dos intercâmbios de experiências, muitos técnicos argentinos irão ao exílio no Brasil com a ditadura do ano 76. Depois dessa mudança tão drástica, os trabalhos que vinham acontecendo vão sumir, e outras vão ficar na clandestinidade, desarticulando então a evolução teórica do movimento social da toma de consciência da situação manicomial.

O período de intercambio intenso entre Brasil e Argentina forma parte desses movimentos geográficos que acontecem apos das legislações do inicio do século, das construções rurais e no sentido do trabalho, com as ampliações nas áreas da criminologia e da higiene mental com as idéias preventivas. Esse movimento social fracassou, como antes fracassaram os higienistas no controle absoluto da cidade: a loucura não foi extinta. Agregado a isso, as crises locais e mundiais como a Segunda Guerra possibilitaram na sociedade latinoamericana que aproveitou cada item da corrente para passar ao nível social, já sem eugenia, mas com o compromisso político que isso demanda.