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História da medicina no Brasil

 

Aqui vamos dar um passeio pelas áreas mais importantes da saúde que merecem ser historizadas, sobre tudo aquelas que tem relação com a medicina tradicional. As antigas técnicas de curação utilizavam plantas medicinais mas também crenças de todo tipo. Tem um grande número de documentos atualmente a disposição que ilustram bem os velhos costumes, mas vamos començar por um artigo de Silva Lacaz sobre três livros fundamentais para a história da medicina no Brasil.

 

Três livros em vernáculo sobre a medicina no Brasil

Durante recente visita ao Recife, recebi de meu colega Dr. Nilo Coelho, ex-governador de Pernambuco, exemplar de um livro de grande valor histórico, publicado em 1956 pelo Arquivo Publico daquele Estado e cujo titulo e "Morao, Rosa & Pimenta - Notícia dos três primeiros livros em vernáculo sobre a Medicina no Brasil". Desses três livros, que São raridade bibliográfica verdadeiramente preciosas, o menos ignorado vem a ser o "Tratado único da constituição pestilencial de Pernambuco", de João Ferreyra da Rosa (1694). Escassamente referido na historiografia medica nacional, e o "Tratado único das bexigas e sarampo", de Simão Pinheiro Morao, tambem chamado Romão Mosia Reinhipo, Lisboa (1683).

Finalmente, Miguel Dias Pimenta publicou em 1707 o seu livro - "Notícias do que e o achaque do bicho".

Elaborados em Pernambuco, os tratados de Pinheiro Morao e Ferreira da Rosa, escritos por médicos portugueses, o primeiro formado em Salamanca e o segundo em Coimbra, situam-se no acervo geral da literatura científica então nascente sobre o Novo Mundo, como os primeiros estudos de Epidemiologia realizados no Brasil.

No volume sobre "Morao, Rosa & Pimenta" ha um excelente estudo crítico realizado por Gilberto Osorio de Andrade sobre os três trabalhos anteriormente citados, com interpretaçoes históricas de Eustaquio Duarte e prefacio de Gilberto Freyre.

Sobre a varíola, Morao descreveu-a com precisão entre negros e índios, sempre com elevada mortalidade. A dois surtos de "bexigas" refere-se aquele medico: 1682 e a que grassara em 1664. Para o tratamento da varíola, existiam os "abusos" em matéria de "sangrias, purgas e
clisteres", "remédios que descarregam a natureza". A tudo isto Modio chamava de "provecta medicina humoral".

A finalidade deste livro era o de difundir no seio da população os meios práticos de preservação e combate as duas enfermidades, porque somente a varíola, nos vinte anos que precederam a 1683, fizera três grandes devastações epidêmicas na Capitania, dizimando tres-quartas partes da população escrava. Cerca de quatro décadas antes de Morao, dois jovens pesquisadores do séqüito de Maurício de Nassau ultimavam em Pernambuco as primeiras obras de Medicina, Ciências Naturais e Astronomia de que ha notícia entre nos.

Assim, o tropico brasileiro era pela primeira vez observado e apresentado em caráter estritamente científico ao velho mundo europeu.

Os originais ilustrados de Piso (De Medicina Brasiliensis) e de Marcgrave (Historia Naturalis Brasiliae), enviados do Recife para Amsterdao, apareceriam ali impressos em 1648 e consagrariam os seus autores como legítimos patriarcas da Medicina e da História natural do país.

Quanto ao livro de Ferreira da Rosa, trata o mesmo fundamentalmente da febre amarela, com a icterícia e a "supressão das urinas". Surgindo a "ferrugem" pela boca (v6mitos com sangue) "O enfermo já podia preparar o enterro, por não lhe considerar esperança de vida".

Finalmente, Miguel Dias Pimenta trata de três diversas moléstias que, no Brasil, chamavam de "bicho" (miíase, sífilis e hemorróidas).

Os três livros a que nos referimos constituem raridades bibliográficas, interessando indiscutivelmente a todos os cultores da historiografia medica brasileira.