Crianças Carenciadas e apego materno infantil

Como contribuição do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e da Revista de Psicologia Normal e Patológica ao Ano Mundial de Saúde Mental (1960), acaba de ser publicado o excelente livro de John Bowlby e colaboradores, traduzido pelo ilustrado colega Erwín Wolfenbuttel. Com razão, afirma o Prof. Enzo Azzi, a criança precisa de "nutrição" afetiva a seu tempo, porque do contrário ela se tornará impermeável a melhor das atenções.

Pouco ou nada adiantam providencias acertadas em horas atrasadas. É preciso, pois, divulgar em larga escala as noções de psico¬higiene da primeira e segunda infância, não só entre psicólogos e médicos, mas também entre pais e mães e pais em potencial e todas aquelas pessoas que tem alguma responsabilidade nas decisões de grupo e governamentais, ou nelas indiretamente possam influir.

John Bowlby, Diretor do Departamento de Orientacao da Infância, da Clínica Tavistock (Londres) e consultor de Higiene Mental da Organização Mundial de Saúde, focalizou o problema dos cuidados maternos e a saúde men-tal, mostrando que a natureza dos cuidados proporcionados pelos pais aos filhos durante sua infância é de fundamental significação no futuro de sua saúde mental. Assim, considera-se essencial para a saúde mental do recém-nascido e da criança de pouca idade o calor, a intimidade e a relação  constante com a mãe ou quem, em caráter permanente, a substitua.

Na comunhão que se estabelece entre mãe e filho, nas relações com o pai e os irmãos, nas relações com o pai e os irmãos, crêem os especialistas em Psiquiatria infantil se encontre a origem do desenvolvimento do caráter e da saúde mental. A ausência dessa relação materno-filial denomina-se "privação materna" que, quando absoluta, pode provocar a invalidação, por inteiro, da capacidade de adaptação  social. O desenvolvimento da criança pode, então, ser afetado física, intelectual, emotiva e socialmente por dita privação .

As prolongadas interrupções das relações materno-filiais durante os três primeiros anos de vida deixam seqüela característica na perso¬nalidade da criança. Em escala trágica, a segunda guerra mundial proporcionou provas evidentes dos efeitos contraproducentes da separação , durante a infância, em milhares de crianças que procediam de países ocupados da Europa e que foram estudadas na Suíça que e em outros lugares.

A criança necessita ter a consciência de que é objeto de satisfação  e orgulho para sua mãe; esta, por sua vez, há de ver em seu filho o prolongamento de sua própria personalidade e os dois não de sentir-se estreitamente iden¬tificados. O melhor lugar para a criança é seu próprio lar ou, para o filho ilegítimo, tal vez a adoção. No passado, refere Bowlby, e ainda hoje, com demasiada freqüência, as organizações de proteção a criança opuseram forte resistência a reconhecerem os três princípios seguintes:

a) não se pode forçar urna ruptura radical entre a criança e seu lar de procedência;

b) nem os lares substitutos, nem as instituições podem oferecer as crianças a segurança e o afeto de que necessitam; para elas, sempre têm esses lugares o caráter de algo transitório;

c) as soluções que proporcionam dia a dia, a medida que as exigem as circunstancias, determinam na criança um estado de incerteza e na mãe adotiva, urna situação de desagrado.

Existe um tipo especial de criança que requer, também, atenção especial: as crianças de pais psicopatas, cuja influência sobre ela é danosa. Há, também, crianças inadaptadas e enfermas, que necessitam de cuidados psiquiátricos especiais. O problema é complexo, mas não há dúvida alguma de que é preciso cuidar com carinho das crianças privadas de vida normal, por ato natural de humanidade e, também, para o próprio bem estar social e mental da comunidade. As "crianças carenciadas" São fonte de "infecção social". E assinala Bowlby: nem os governos, nem as instituições sociais, nem o público se acham tilo convencidos como deveriam de que o amor materno na primeira e segunda infancia é de tanta importancia para a saúde mental, como o São as vitaminas e as proteínas para a saúde física.

Em outra parte do livro que ora estamos resumindo, Glaser e colaboradores demonstram os efeitos que a privação do carinho materno exerce sobre a criança. Willingworth trato u do trauma psicológico das crianças hospitalizadas, principalmente quando estiveram recolhidas, por longo tempo, em hospitais ortopédicos ou em pavilhões de doenças infecciosas e nos quais as visitas não eram consentidas.

Finalmente, Pierre Cornut analisou o clima afetivo e a higiene psicomotora nas "pupileiras" (hospital destinado especialmente a lactentes).
A Neuropsiquiatria infantil está foca¬lizando atualmente o problema do "hos¬pitalismo" desde que Spitz, em 1945, chamou a atenção para o mesmo. O livro de Bowlby e colaboradores, traduzido por Erwin Wolfenbuttel- mais um belo serviço prestado a coletividade - realça que a privação do afeto materno pode chegar a invalidação, por completo, da capacidade de adaptação social. As crianças privadas de afeto resultam muitas vezes socialmente incapazes para a vida adulta. É preciso, pois, estimular e mobilizar os elementos de boa vontade para urna grande campanha no sentido de cooperarem na solução desse problema, complexo e vasto.

Feliz o título do livro em apreço -"Crianças Carenciadas", para designar os pequenos seres desprotegidos da sorte, carenciados não no sentido das vitaminas ou dos sais minerais e, sim, com carência da vitamina mais recentemente descoberta: o amor.