Linguagem Médica

Em 1962 foi publicada em volume de 183 páginas (Livraria Joao Amendola, Campinas, 1962), pelo Prof. Paulo Mangabeira-Albernaz uma série de estudos de linguagem médica, os quais refletem a grande autoridade de seu ilustrado autor na filologia atinente a profissão.
O problema da linguagem técnica começa agora a ser levado a sério, sendo que os próprios gramáticos e filólogos gerais já estão demons-trando certo interesse por este ramo da filologia.

No estudo da linguagem médica, refere o Prof. Mangabeira-Albernaz, o que é fundamental é a história da palavra, chegando-se então a determinação precisa de sua forma ex ata, fazendo-lhe, se preciso, a necessária correção , uma vez que não tenha ainda o termo sido absorvido pelo uso geral popular.

Há vários anos, com tenacidade altamente meritória, vem o Prof. Mangabeira-Albernaz defendendo a nomenclatura exata dos termos utilizados correntemente em medicina. E ele o faz de maneira clara e precisa, dando-nos também a justa amostra de como deve ser o estilo científico.
"Questões de Linguagem Médica" (segunda série) encerra um estudo particularizado, minucioso, da etimologia e semântica de vários termos médicos, abordando igualmente problemas da nomenclatura anatômica. A terminologia médica, refere o Prof. Mangabeira-Albernaz, não é simples mente filologia; só um médico dotado de amplos conhecimentos de medicina geral e com n0ções básicas de latim e grego, além do estudo especializado do assunto, está apto a opinar sobre a linguagem médica. A filologia médica é, antes de tudo, uma filologia especializada.
N a terminologia técnica do médico, observam-se várias espécies de erros. Há os de prosódia, há os de forma, há os de verificação, há os de significação , etc.

No estudo da linguagem médica, deve-se levar em consideração  se o termo é puramente técnico ou se já faz parte da linguagem popular ou geral. Assim, pulmão, bexiga, estômago, articulação , fígado, São termos que já pertencem a linguagem geral e não mais passíveis de alteração . Se a palavra "fígado" vem de ficatum, o certo talvez devesse ser "fígado". Com acento no a. Tal, porém, não é mais possível, nem admissível.
Os estudos da linguagem médica tem sido até hoje orientados segundo três maneiras diferentes: a dos que opinam tomar por base o parecer dos c1ássicos leigos de nossa língua; a dos que se escudam na etimologia do vocábulo,  não raro tomando por base termos afins ou análogos e, portanto, fundados em meras suposições; e finalmente, a dos que filiam a derivação  dos termos aos que foram de fato empregados pelos antigos mestres da medicina.

É este o melhor caminho a seguir. É lógico que a questão nos termos médicos não pode fugir a opinião dos técnicos, dos especializados no assunto. Mas, é necessário que alguém adapte esse vocabulário ao nosso idioma, respeitando as bases da filologia portuguesa. É necessário ter conhecimentos básicos da medicina geral, da história da medicina (mormente da linguagem médica antiga) e, pelo menos, boas tinturas de filologia.
O trabalho do Prof. Mangabeira-Albernaz oferece ao leitor elementos de grande valia para o estudo da filologia médica, indicando-nos, igualmente, certo número de vocabulários úteis do ponto de vista léxico e etimológico.

É interessante assinalar que várias polêmicas foram travadas a respeito de alguns termos médicos, citando-se como uma das mais conhecidas a que se estabeleceu entre Ramiz Galvão e Medeiros e Albuquerque a respeito da palavra "tireóide" como queria o primeiro, e "tiróide", como preferia o segundo.

Sob todos os aspectos, o livro do Prof. Paulo Mangabeira-Albernaz nos traz ensinamentos dos mais úteis. Sua leitura é altamente recomendada, principalmente aos professores de medicina, que tem obrigação  de saber a nomenclatura correta e exata de tu do o que ensinam.