O sistema adaptativo primitivo, a água e a gravidez

Precisamos de novas palavras para nos referirmos a esse sistema, essa rede que poderá ser vista claramente quando as antigas barreiras tiverem caído. Nosso vocabulário atual não está adaptado para a enorme quantidade de dados recentes, que tornam as fronteiras estabelecidas inoportunas. Os cientistas tiveram de criar novas disciplinas, com nomes cada vez maiores, tais como "psiconeuroendocrinologia", "psiconeuroimunologia" ou "imunoendocrinologia". Já li sobre o "sistema psiconeuro-imunoendocrinológico"! Alguns poucos exemplos são suficientes para demonstrar que existe uma grande rede que transcende as fronteiras entre o cérebro reptiliano, o sistema hormonal e o sistema imunológico. Essa rede precisa ser chamada por um nome simples. Todos conhecem os linfócitos: aquelas células que comumente se considera parte do sistema imunológico. A membrana de algumas dessas células pode secretar hormônios como ACTH e endorfinas, como também tem receptores para esses hormônios. Assim, alguém pode alegar que os linfócitos também são parte do sistema hormonal. Além disso, a membrana dos linfócitos pode secretar a maioria dos mediadores usados pelas células cerebrais, e tem receptores para eles. Assim, os linfócitos poderiam também estar integrados ao sistema nervoso.

O hipotálamo é parte do cérebro reptiliano e é formado de células nervosas que se comunicam com outras células nervosas por contato direto. Mas o hipotálamo também é uma glândula, cujas secreções regulam a atividade de todas as outras glândulas endócrinas. Em troca, essas glândulas regulam as secreções hipotalâmicas por um mecanismo de feedback.

O próprio cérebro é agora considerado uma glândula. Ele pode usar a rota hormonal, quer dizer, mensageiros químicos, para enviar informação de uma parte dele para outra. É por isso que os enxertos cerebrais podem compensar certas deficiências, e porque alguns padrões de comportamento podem ser causados pela injeção de hormônios específicos em zonas particulares do cérebro.

A insulina é um hormônio secretado pelo pâncreas. Ela também é um mediador secretado pelas células no cérebro e algumas células cerebrais têm receptores para ela.

Atualmente, o sistema imunológico pode ser condicionado, do mesmo modo que Pavlov condicionou as secreções do estômago de um cachorro. Alguns monócitos - células do sistema imunológico que se encontram na medula óssea podem entrar no cérebro, onde são transformados em células gliais. Sua função não é bem entendida.

Estes poucos exemplos, selecionados entre muitos, são suficientes para demonstrar que existe um sistema único, uma rede que eu poderia chamar de "sistema adaptativo primitivo" "primitivo" por causa de seu desenvolvimento e maturidade precoces, e porque ele abarca os sistemas adaptativos que são essenciais para a sobrevivência do indivíduo e da espécie. Quando o sistema adaptativo primitivo entra em ação, pode-se dizer que "um processo adaptativo primitivo" ocorre. Assim, o processo adaptativo primitivo abarca o campo da emoção-instinto. Essa expressão refere-se a eventos; ela não é sinônimo nem de "instinto" nem de "emoção" e quebra as barreiras artificiais entre essas duas palavras.

É difícil classificar processos como dar à luz ou acasalar com o vocabulário corrente. Enquanto existirem fronteiras entre as emoções e os instintos, a pessoa terá de usar circunlocuções, dizendo, por exemplo, que dar à luz "é um processo involuntário, um processo instintivo, acompanhado por uma mistura complexa de emoções". Isso não quer dizer que as palavras "instinto" e "emoção" sejam obsoletas. Mesmo se essas palavras não forem claras o bastante para uma linguagem científica ou teórica, são necessárias no dia-a-dia. Será até mais fácil para mim usá-Ias agora, tendo explicado o significado que dou a elas. Uma vantagem da expressão "processo adaptativo primitivo" é a implicação de que qualquer evento do sistema adaptativo primitivo envolve, ao mesmo tempo, o sistema nervoso, uma mudança de comportamento, uma experiência subjetiva, um movimento ao longo do eixo prazer-dor, um novo equilíbrio hormonal e uma mudança no funcionamento do sistema imunológico. A frase conclui que quando estamos contentes, por exemplo, o equilíbrio hormonal não é o mesmo do que quando estamos tristes e as células do sistema imunológico não funcionam do mesmo modo. Quanto à palavra "saúde", envolve a qualidade das respostas do sistema adaptativo primitivo.

É essencial entender que essas novas definições, essas novas visões, baseiam-se na idade dos sistemas fisiológicos envolvidos. No contexto dos processos adaptativos primitivos, é possível incluir as reações fisiológicas de autodestruição, que podem ser causadas por situações de desesperança ou de de-samparo. Agora está bem entendido que os seres vivos têm uma capacidade para a autodestruição até mesmo no âmbito celular. Por outro caminho, Freud chegou à mesma conclusão e introduziu o conceito de instinto de morte. A postulação de um instinto destrutivo inato (que inclui um instinto autodestrutivo) veio tarde na obra de Freud, depois da primeira guerra mundial, com a publicação de Beyond the pleasure principie (Além do princípio do prazer). Quer dizer, depois de celebrar o triunfo da teoria da libido. O status do instinto de morte permanece pouco nítido dentro do pensamento psicanalítico hoje. Porém, a teoria do instinto de morte deixa de ser puramente especulativa com nosso moderno entendimento do mecanismos fisiológicos de autodestruição.

 

Redescobrindo os instintos humanos

 

Adaptar a língua e introduzir novas visões teóricas são estágios necessários no desafio daqueles que negam a realidade dos instintos humanos. Os humanos têm à sua disposição todas as estruturas cerebrais dos outros mamíferos; assim, seria maravilhoso se tivessem eliminado completamente o comportamento que é controlado por essas estruturas.

Percebi a importância dessas questões olhando bebês que sabiam como achar o seio durante a primeira hora depois de nascer, e também vendo suas mães, especialmente aquelas que não tinham planejado amamentar, que desde logo sabiam exatamente o que tinha de ser feito para ajudar a sucção do bebê. Graças a estas cenas pode-se entender que os instintos são parte do potencial humano. Mas eles são frágeis porque constantemente inibidos, reprimidos, controlados, alterados e portanto escondidos, por causa do poder do neo-córtex. Mas em certas circunstâncias eles emergem em sua inteireza. Durante a hora seguinte ao nascimento, o bebê, cujo neocórtex ainda não está maduro, já pode expressar esse complexo comportamento de busca, modestamente chamado de "reflexo basal".

Do mesmo modo, algumas mães, quando estão numa atmosfera de privacidade completa depois de um parto es-pontâneo, ainda estão num tal estado de consciência que são capazes de esquecer tudo, mesmo que não tivessem nenhuma intenção de amamentar. Elas podem fazer o gesto exato que facilita a sucção precoce. Kits Franz, conhecida líder do Lá Léche League, uma conselheira da amamentação no seio, passou muitos anos ajudando jovens mães que tinham dificuldades na amamentarão. Depois de anos e anos de observação e de análise de atitudes, ela entendeu como algumas cessões, alguns gestos, alguns modos de colocar as mãos podiam tornar a sucção mais fácil. Ela me contou que tinha tido a oportunidade de assistir a um filme feito no Hospital Pithiviers. Pouco tempo após um parto, uma mãe jovem, ainda no outro planeta, pegou o bebê nos braços e dentro de segundos achou todos os detalhes da posição que os conselheiros de amamentação no seio tinham descoberto depois de anos de estudo cuidadoso. Depois de uma história como essa, como se pode duvidar de que os humanos têm instintos, um savoir-faire que é guiado pelas estruturas primitivas do cérebro? Ele se mostra na totalidade apenas quando o cérebro racional está dormindo, ou quando o cérebro reptiliano é forte o bastante para estar além do controle. Isso se chama liberação das inibições.

Um outro comportamento humano é mais difícil de interpretar. Assim é, por exemplo, com o comportamento que nos faz lembrar do instinto de aninhar. De diferentes modos, de acordo com a espécie, todos os animais preparam o lugar onde a prole será recebida. Mesmo alguns mamíferos, como o arganaz, constroem ninhos. Embora não seja comum alegar que os humanos têm um instinto de fazer ninho, a observação cuidadosa pode detectar traços dessa característica. O comportamento de algumas mulheres no final da gravidez é algumas vezes considerado confuso pelos obstetras profissionais. Em alguns casos, isso poderia ser uma expressão sutil do instinto de fazer ninho.

Nas sociedades ocidentais, muitas mulheres, na gravidez são precocemente encorajadas a fazer escolhas sobre o lugar do parto. Hospital do estado? Hospital particular? Departamento obstétrico grande? Centro de parto pequeno? Em casa? Elas geralmente fazem tais escolhas depois de conversar com suas amigas ou com seu médico, ou depois de ler alguns livros ou revistas. Algumas mulheres inesperadamente jogam longe suas primeiras escolhas imediatamente antes do parto, como se seguissem uma inspiração repentina. Essa é a hora em que elas pensam no parto em casa, mesmo sabendo que um projeto desses não pode ser realizado na prática. Tal comportamento pode ser considerado inconsistente, a menos que seja feita uma ligação com o instinto de fazer ninho. Uma interpretação correta pode evitar o perigo de uma escolha prematura. Decidir onde dar à luz no meio da gravidez é um processo intelectual; seria muito melhor nesse estágio manter as opções abertas e não preconceber o cenário do parto.

A necessidade das mulheres em trabalho de parto de se esconder ou se isolar pode ser considerada como um aspecto do instinto de fazer ninho. Atualmente isso não é reconhecido porque é incompatível com as prioridades dos obstetras. Isso volta de um modo sutil quando a futura mãe se fecha no banheiro.
do uma mulher de repente precisa colocar seu guarda-louça em ordem ou fazer a faxina logo antes de o trabalho de parto começar, ou mesmo durante o trabalho de parto. Uma moça me chamou uma noite para sua casa quando sentiu que o trabalho de parto estava começando. Quando cheguei, ouvi o barulho de um aspirador de pó. Entre as contrações, ela estava fazendo limpeza. Ela geralmente não fazia o trabalho doméstico à noite, mas naquele dia era uma espécie de necessidade.

A negação dos instintos humanos tem conseqüências sérias. Leva à negligência no desenvolvimento de alguns aspectos do potencial. Isso resulta numa falta de confiança em algumas habilidades que nossa espécie possuí. Numa sociedade que ignora os instintos, todos os aspectos da vida sexual se tornam difíceis porque são racionalizados, planejados, controlados. Existe uma falta de interesse no que poderia ser chamado de desenvolvimento da vida emocional, e a atenção se volta apenas na direção do desenvolvimento do intelecto.

É, na verdade, uma característica distinta dos seres humanos, com um neocórtex tão desenvolvido, alinhar seu conhecimento, seu savoir-faire, suas crenças, seus gostos, e dessa forma criar culturas. O papel da cultura é controlar, canalizar os instintos. Mas quando os instintos são canalizados, alteradas e reprimidos, não quer dizer que são negados. Existe uma grande diferença entre canalizar os instintos das crianças, dos adolescentes ou dos adultos e impedir o poder do instinto de se desenvolver com a idade quando o sistema adaptativo primitivo está alcançando a maturidade.

A vantagem de uma definição baseada na idade das estruturas fisiológicas é que isso indica em que período da vida as capacidades instintivas e emocionais se desenvolveram. Pode-se dizer que as diferentes partes do sistema adaptativo primitivo estão maduras quando o bebê se torna uma criança. Em outras palavras, elas se desenvolvem durante um período que eu chamo de "período primitivo", que inclui a vida no útero, o período do nascimento e a amamentação. Essa é a época em que o ser humano é totalmente dependente de sua mãe.

Outra vantagem de tal definição é enfatizar que o desenvolvimento do cérebro reptiliano acontece principalmente dentro do útero, quer dizer, na água. Se a pessoa aceita a hipótese de que o imenso cérebro humano surgiu de um episódio aquático em nossa evolução, podem-se imaginar as raízes múltiplas de nossa relação especial com a água. Pode-se alegar, de um ponto de vista evolucionário, que nosso neocórtex também se desenvolveu na água. Assim, a água parece ser o elo entre nossos dois cérebros, o facilitador ideal que pode tornar suas coexistências férteis. Em outras palavras, o fator de saúde que o Homo demens precisa.

Por M.Odent