Antologia da Alimentação no Brasil

Luis da Câmara Cascudo, o grande enamorado da cultura popular brasileira, vivendo em Natal, (Rio Grande do Norte), cercado de seus livros, acaba de publicar excelente antologia da alimentação  de nosso país (Rio, Ltc, 1977), nele expondo os fundamentos e as raízes permanentes do cardápio tradicional na participação  indígena, africana e portuguesa, quando o Brasil organizava sua existência coletiva.

O presente livro evoca alguns aspectos da nossa alimentação sob os vários ângulos da fixação  histórica, etnográfica, literária e social. São depoimentos cheios de graça, publicados por diversos autores e de uma importância extraordinária no diagrama do paladar brasileiro. As regras de servir a mesa, a cantiga para fazer paçoca, os molhos da Bahia, as frutas do Brasil, a decadência do bom café, o jantar no Brasil, a feijoada a moda de Vinícius de Moraes, o ritual de bebedores, o comer na gaveta, o anfitrião dispéptico, o cardápio do indígena nordestino e  as disputas gastronômicas constituem alguns dos temas selecionados por mestre Cascudo, para esta sua bela antologia.

uma das perguntas mais comuns em nosso meio é saber se, no Brasil come-se o gato por lebre. A resposta é pela afirmativa. A tradição  brasileira afirma o gato comido unicamente por estudante ou português. Comem este animal sempre por estúrdia, divertimento ou curiosidade. Não é, portanto, quitute regular e comum nos cardápios populares. O gato assado ao forno era a forma clássica, em Coimbra. No Rio de Janeiro deve haver o consumo do gato, sendo o couro do mesmo utilizado para os tamborins. O gato preto pede acompanhamento de alho, cebola moída, açafrão, batatinha cortada, rodela de ovo duro, azeite e vinagre, num refogado de capricho. O melhor é não falar em gato, porque pode prejudicar a digestão.

Em Coimbra, refere Cascudo, existia a classe estudantil dos gaticidas, conspícua divisão da boemia universitária. A caçada aos gatos não era fácil, já que estes se mostravam sempre vigi-lantes e conheciam, de pronto, seus inimigos. As gatas eram poupadas. Parece-nos, todavia, que o gato ainda não foi promovido a acepipe, no Brasil.

Outro capítulo, dos mais interessantes, do livro de Cascudo, refere-se aos santos da alimentação  brasileira. Santo Onofre é, no Brasil, o natural protetor do alimento domiciliar, mas, na Bahia, os Santos Cosme e Damião assumiram a responsabilidade pela comida do todo-dia comum. As cozinheiras, no passado, tinham especial carinho por Sata Zita, que fazia a comida render e não queimar, num descuido da responsável.
Ao lado de Cosme e Damião, existe, também, o São Benedito, querido por pretos e brancos, garantindo sempre farturas. Foi ele exímio cozinheiro, multiplicador de vitualhas no  seu convento em Palermo. No que diz respeito as disputas gastronômicas, elas se realizam principalmente na Itália e em Portugal, salientando alguns jornais os feios pecados da gula e a falta de solidariedade com a fome do resto da humanidade.

Conta-se que, em 1955, em Chieri, na Itália, Giovanni di Claude estabeleceu o campeonato do Spagheti, comendo meio quilo em um minuto e quarenta segundos. Também, a 9 de setembro de 1955, realizou-se em Évora (Portugal), notável batalha nos domínios da voracidade lusitana, tendo a festa durado dois dias. E assim, Luís da Câmara Cascudo ilustra de maneira agradável o importante tema da alimentação  no Brasil, através de páginas de depoimentos realmente cheios de graça e de colorido. Quem se ocupa de nossa história social não pode deixar de ler esta antologia do renomado mestre de nossa antropologia.

o Prof. José Silveira, da Bahia, um dos mais destacados tisiólogos brasileiros, fundador do "Instituto Brasileiro para Investigação  da Tuberculose", ao completar 70 anos de profícua atividade médica acaba de me enviar um opúsculo de sua autoria, no qual destaca a participação  de alguns de seus amigos na árdua tarefa que realizou em terras de Salvador. É um breviário, no qual imagens de sua devoção  fo-ram destacadas, nas brumas do passado distante ou então, na lembrança viva dos acontecimentos recentes. José Silveira foi velho amigo de Manoel de Abreu, radiologista insigne, pintor e poeta de rara sensibilidade; conviveu longamente com Arlindo de Assis, sábio e humanista, baiano ilustre que tanto batalhou pelo emprego do B.C.G. entre nós; discípulo de Fernando São Paulo, cujas qualidades de professor austero e de erudito foram postos em justo relevo e de Octávio Torres, Flaviano Marques e Prado Valladares, este último despertando no ilustre  mestre da Tisiologia brasileira a sua imensa vocação  científica.

Figuras marcantes da medicina nacional e estrangeira, luminares da Tisiologia, mestres ilustres da velha e tradicional escola baiana - a Faculdade do Terreiro, perpassou pelas páginas desse belo livro de José Silveira, num culto ao passado, tão necessário nos dias de hoje.

A figura do Prof. Prado Valladares é inicialmente destacada, pela sua inteligência privilegiada, a serviço de uma sólida formação  cultural e grande sabedoria médica. Do eminente professor José Silveira recebeu os ensinamentos básicos para o exercício de sua vida profissional como a chama do ideal superior de estudar, indagar e pesquisar nos imensos domínios da Medicina. Sob sua influencia formou-se o seu espírito. Latinista, acoitado pelo que costumava chamar a "ansia do porque", Prado Valladares ensinava a duvidar, a indagar, a perquirir, em busca da verdade. A grande figura de Gregório Marañon foi também relembrada por Silveira que tinha pelo sábio e humanista espanhol grande admiração , porque através de sua filosofia se resolvem os problemas fundamentais da formação  médica.

Murray Kornfeld, eminente tisiólogo americano; Lopes de Carvalho, o autor da notável descoberta da angiopneumografia; Gernez-Rieux, antigo diretor do Instituto Pasteur, de Lille; Cardoso Fontes, famoso investigador do Instituto Oswaldo Cruz; Arlindo de Assis, modesto e simples, o introdutor da vacinação  B.C.G. por via oral entre nós, homem de grande nobreza moral e violinista exímio; Fernando São Paulo, clínico baiano de grande reputação  e autor de "Linguagem Médica Popular no Brasil", já em 2a edição , valorizada e buscada pelo país inteiro; Noel Nutels, médico que viveu em constante peregrinação  por regiões inóspitas e agrestes do país, praticando a verdadeira medicina e salvando principalmente os nossos irmãos indígenas; Aloisio Durval, professor da Universidade da Bahia, sempre disposto a compreender e a perdoar; Eugénio Gomes, autor de uma das mais sólidas e mais sérias obras literárias do Brasil; Carlos Costa Pinto, espírito generoso e compreensivo; Flaviano Marques, ajudando Silveira a criar o Instituto Brasileiro para Investigação  da Tuberculose, um dos patrimônios de sua terra natal; Manoel Caetano da Rocha Passos Filho, morto em São Paulo repentinamente, amigo dedicado, leal e sincero, sempre voltado para as causas superiores do espírito e do coração ; Octávio Torres, realizando na Bahia notável obra em favor dos hansenianos; Campbell Penna desejando sempre resolver os grandes problemas do mundo, vivia cheio de esperança, como diretor do Sanatório de Palmira, homem de linhas definidas e de princípios rígidos, estes foram alguns dos vultos relembrados por José Silveira nesta sua memória, gênero de leitura de teor confessional que se vem tornando tão freqüente entre nós. Felizes os que constituíram para a eternidade, com a flama do idealismo e a perene capacidade de realizar, como esta extraordinária figura de José Silveira.