TRATAMENTO NO CAPS

Sua entrada no CAPS se deu em junho de 1999, aos 43 anos, após uma internação em Jurujuba e uma tentativa de tratamento no ambulatório no próprio HPJ.

No encaminhamento para o CAPS estava escrito: “História de várias internações no HPJ e Cl. N.Sra das Vitórias. Apresenta muita dificuldade de ADERIR ao tratamento ambulatorial, solicitamos acompanhamento psiquiátrico e Grupo de Convivência”.

Importante lembrar, que nesta época, não éramos um CAPS, nem havia legislação para este dispositivo. Éramos um ambulatório com um Centro de Convivência desde 1997.

Desde o inicio, observamos que Marta tinha um comportamento tímido, e observador em relação aos técnicos e demais pacientes. Era capaz de ficar sentada num canto isolada, o dia todo, em observação. Porém, diante de qualquer estímulo ao dialogo, ou convite para participar de alguma atividade, se mostrava sempre disposta a participar.

Era atendida, por mim, semanalmente no consultório. Inicialmente suas queixas eram dirigidas ao médico com queixas físicas: “dificuldade para ler, em função da vista cansada, formigamentos na cabeça, palpitações, dores no corpo, problemas digestivos, dentários, etc.”

Agenciamos alguns atendimentos clínicos na Policlínica do Largo onde foram realizados alguns exames laboratoriais, sendo constatado que havia aumento de colesterol e triglicerídeos o médico clínico lhe prescreveu anti-hipertensivos e dieta.

Morava num quarto de pensionato no Largo da Batalha e já estava aposentada. Certo dia, a dona do pensionato, D. Bete, a acompanhou no atendimento médico e na presença dela, comentou que Marta não dormia e não tomava remédios. Combinamos que D. Bete ajudaria Marta na administração dos medicamentos, especialmente, nos fins de semana.

A partir deste fato, passou a falar do medo de perder sua vaga neste pensionato, pois a dona estaria aborrecida por ela passar o dia todo no Centro de Convivência. Logo depois, comentou: “O estudo do Congeroma 7 e os três gatunos do Carma 27 de Marte começaram a invadir meu quarto me pedindo sexo. Descobriram neste estudo um erro de porta na rua, por onde só deveriam passar as virgens. Eu sou virgem e a dona do pensionato é escrava. Ela não gosta de mim por isto.”

No outro, me disse: “Ganhei prisão dentro de casa, o juiz está falando a distancia, não cometi crime, não fiz nada”. Pergunto se falam com ela a distancia há muito tempo, como ela entendia isto, etc. Responde que isso acontece há muito tempo, não sabe desde quando e que não sabe o motivo. Comentei que existem transtornos mentais nos quais as pessoas costumam escutar vozes, ela não seria a única.

Um dia chegou dizendo de forma imperativa: “REGÊNCIA SEDEM!” Digo que não a estou entendendo. “Foram os médicos a distancia que mandaram eu dizer isto para o Sr.” Pergunto o que isso quer dizer. Respondeu-me que também não sabia e me perguntou: “Será que estou escutando vozes?” Afirmo que no meu entender, sim. Pergunto se estava tomando os seus remédios e ela diz que “como religiosa, fica difícil tomar remédios”.

Outro dia, muito angustiada, me disse: “Estou com um nervoso por dentro, parece que falta um parafuso”.

Insisto que me diga se tem alguma coisa acontecendo para ela ficar tão angustiada. “Tem. Mas não posso falar”. Digo que se não podia falar, não saberia como ajudá-la. “É uma coisa pequena, mas é muito grande pra mim... o Senhor não vai entender, nem tem tempo para eu falar tudo”. Trabalhei essas resistências. Ela então me disse: “Minha família perturba muito minha cabeça.” Demonstro grande surpresa comentando que ela nunca tinha mencionado sua família desde que nos conhecemos.

Falou que sabia apenas o paradeiro de duas irmãs uma morando no Fonseca outra em Tribobó. Sobre os irmãos que foram para orfanatos, nada sabia. Disse, ainda, que sua mãe, morreu envenenada e depois fala: “me disseram que ela morreu de parto”. Pergunto: envenenada? Ou de parto? Ela me respondeu: “Esta confusão da minha família faz muito barulho na minha cabeça, eles colocaram uma piscina na minha cabeça. Dá muita salivação. São pessoas muito instruídas.”

Nos atendimentos seguintes passou a se queixar de solidão e do seu desconforto no pensionato, especialmente nos fins de semana. “O espírito do pesadelo saiu do meu sonho. O pesadelo é um rapaz que foi abortado, mora embaixo do meu colchão. Ele não quer mais que eu more lá.”

Iniciou então, uma demanda voluntária (?) de internação, especialmente nos fins de semana. Recebi alguns retornos, por escrito de profissionais do SRI dizendo que se tratava de “caso social, sem justificativa clinica para internação”