CASO CLÍNICO

Este caso foi escolhido dentre tantos outros, por eu estar muito envolvido com ele, no dia em que Sergio Bezz me convidou para participar deste encontro. Naquele dia eu estava encaminhando esta paciente para uma internação, após 12 anos de assistência no CAPS.

Mulher negra, 55 anos, terceira filha de uma prole de sete. Mãe lavadeira com histórico de crises nas quais costumava quebrar as coisas em casa, pai alcoolista, trabalhava numa fábrica de bananadas. Mãe faleceu no sétimo parto, aos 35 anos, com desnutrição, quando Marta tinha 11 anos. Sua casa, na infância, situada no bairro Tenente Jardim, era de Pau a Pique e a família passava por muitas necessidades.

Afirma que começou a trabalhar aos 8 anos de idade, “descascando bananas”, possivelmente, ajudando seu pai. Mesmo assim, concluiu a 4ª série primária no Colégio José Bonifácio, na Rua São Lourenço, no bairro Fonseca.

Após o falecimento dos pais, alguns irmãos foram para orfanatos, uma das irmãs ficou com a madrinha e Marta passou a trabalhar como doméstica aos 11 anos em troca de moradia, alimentação e roupas.

Ainda se lembra do nome da primeira patroa “América” que morava no Fonseca, São Lourenço. Depois, D. Margareth em São Francisco por 5 anos.

Aos 24 anos foi trabalhar no bairro Laranjeiras no Rio de Janeiro com D. Ma. Tereza.

Aos 27 anos na Barra da Tijuca no Hotel Nacional, cuidando da D. Isolentina, idosa que faleceu um ano depois que estavam juntas, após o falecimento, trabalhou um ano para a filha da falecida.

Aos 28 anos teve sua primeira internação, no Pinel. Motivo? “As patroas me internavam quando eu não tinha lugar para ficar”.

Revelou uma lembrança infantil, na qual se lembra que um homem que recolhia cachorros, na carrocinha, costumava lhe dizer que fazia sabão deles e que se ela ficasse na rua, poderia acontecer o mesmo com ela. Por isso, tinha medo de ficar pelas ruas.

Aos 30 anos voltou a trabalhar para a ex-patroa D. Ma, Luiza em Laranjeiras, por dois anos.

Entre 32 e 38 lembra-se de ter ficado um tempo na rua e que depois, foi morar com um homem que era pedreiro chamado Aristides que tinha 45 anos, era desquitado, ficaram juntos por 4 anos, tiveram uma filha chamada Érica, parto normal. Lembra-se que fez uma cirurgia de mioma no HUAP, onde permaneceu internada por 3 meses.

Abandonou Aristides porque este a forçou a dormir com ele, estando ela operada e enfaixada, “Eu não gostava de dormir com ele, então, me revestia de santa, não me perdia, sou moça. A formiga me ensinou a ficar pura”.

Érica, ficou com o pai que mais tarde a entregou para uma família de São Paulo, e nunca mais a viu.

Após um período na rua, foi morar com D. Laura, que quis arranjar-lhe um casamento com um rapaz chamado Reginaldo que era funcionário da casa e de quem ela gostou “mas ele foi para os Estados Unidos”. Ele quis levá-la, mas ela não quis.