O ciclo da água, a emoção e o instinto

HOMO DEMENS

O homo aquatícus tornou-se Homo demens? É difícil estu dar o comportamento típico dos representantes atuais do homem, porque isso desperta nosso sentimento de culpa coletivo. É possível olharmos nossa demência no rosto? Algumas pessoas considerarão o assunto aborrecido e o evitarão. Mas a evasão não é mais permitida e o preceito "conhece-te a ti mesmo" agora aplica-se à humanidade como um todo. Lembremos alguns fatos conhecidos para avaliar o grau da nossa demência.

Abra a torneira e você estará em contato com um fenômeno que não tem começo nem fim. É o ciclo da água.

De um modo ou de outro a água da torneira vai para o rio, e do rio para o mar. A evaporação dos mares formará as nuvens, que devolverão a água para a superfície da terra, na forma de chuva. A água da chuva se infiltrará na terra e criará o lençol d'água, incluindo as correntes subterrâneas. E é graças ao lençol d'agua que podemos abrir a torneira. O homem, que deve tudo à água, tornou-se um sabotador do seu ciclo natural. A destruição das florestas da Terra é um aspecto dessa interferência grosseira. Essas regiões têm a capacidade de conservar uma quantidade imensa de água. Sua destruição leva à aridez e à seca, num processo que é comumente chamado de "desertificação". 40 % das florestas tropicais já desapareceram e o processo continua numa velocidade vertiginosa - 8 milhões de acres por ano em todo o planeta. A África é o continente mais atingido, perdendo cerca de 5 milhões de acres anualmente. Durante os últimos trinta anos, a América Central perdeu 2/3 de suas florestas.

"Quando as árvores se vão, o deserto vem." Os desertos são criados pelo homem. Perturbando o ciclo da água, o homem está destruindo a vida. Ninguém pode entender a natureza humana sem estudar o processo de desertificação. Na verdade, o fenômeno não é novo. A derrubada dos cedros do Líbano começou já no ano 3 000 a.c., depois da qual formaram a pedra fundamental do comércio internacional dos fenícios. Os faraós importavam quarenta cargas de navio de cedro. Os templos e os palácios da Assíria e da Babilônia foram construídos com o cedro vindo de um Líbano subjugado. O rei Salomão construiu seu templo em Jerusalém da mesma forma. Só o imperador romano Adriano, no século 11 a.C., fez alguma tentativa de proteger as árvores restantes. Na Grécia antiga, Platão comentou sobre a destruição das florestas: "Nossa terra, comparada com o que era, é como o esqueleto de um corpo consumido pela doença". Uma grande parte do norte da África, que já foi o "celeiro de Roma", transformou-se num deserto. Em 1620, a Nova Inglaterra, na América do Norte, era inteiramente arborizada, mas estava quase completamente desmatada 150 anos depois. Arkansas viu seus muitos acres de floresta de brejo e de pântano se transformarem em fazendas.

O processo de desmatamento pode ser justificado apenas por benefícios de curto prazo e por uma incapacidade para interromper um círculo vicioso. A derrubada de árvores torna a agricultura e a pecuária possíveis no momento. Mas pouco depois o nível do lençol d'água pode começar a baixar, a região começa a ficar árida, e mais árvores terão de ser derrubadas.

Metade da madeira usada no mundo é queimada, tanto diretamente, como na forma de carvão. O cidadão médio de um país de terceiro mundo queima tanta madeira por ano quanto um norte-americano consome na forma de papel. Onde as árvores são escassas, as pessoas são forçadas a recolher o adubo orgânico dos animais, para usar como combustível. Na Índia, 70 mi-lhões de toneladas de adubo orgânico seco são queimados como combustível a cada ano, fornecendo 10 % da energia do país. A principal consequência é a infertilidade do solo. Esse é o círculo vicioso do qual o terceiro mundo não pode escapar.

Comumente se subestimam os sérios efeitos da interferência no ciclo da água. Esses efeitos podem ser sentidos a milhares de milhas de distância: por exemplo, o fluxo dos rios pode ser impedido. Quando as árvores no Himalaia são derrubadas, as chuvas de monções não são contidas e áreas na Índia e em Bangladesh tanto são inundadas como ficam secas. Durante algumas décadas, a destruição das florestas tropicais causou a extinção de muitas espécies de plantas e de animais, que se desenvolveram durante milhões e milhões de anos. Calcula-se que aproximadamente 10 km2 de florestas tropicais podem abrigar 1 500 espécies de plantas florescentes, 750 árvores, 400 pássaros, 150 borboletas, 125 mamíferos, 100 répteis e 50 anfíbios. Além do mais, 3000 plantas conhecidas por suas propriedades anticâncer estão em perigo de extinção, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer, dos Estados Unidos. Quanto aos efeitos sobre o clima, são ainda mais difíceis de avaliar, mas poderão ser percebidos assim que o século XXI começar.
As conseqüências do desmatamento sobre o ciclo da água causam problemas além das fronteiras. Esta é a razão pela qual é difícil resolvê-los, embora seja teoricamente possível. Existe conflito constante entre as considerações locais de curto prazo os interesses a longo prazo, do planeta como um todo.

Tome, por exemplo, a atitude das autoridades americanas.

Em dezembro de 1985 o congresso aprovou uma lei proibindo os bancos de desenvolvimento de apoiar e dar assistência a projetos que pudessem prejudicar as florestas tropicais. Como resultado, um empréstimo de vários milhões de dólares foi vetado ao Brasil, porque o dinheiro contribuiria para a destruição da floresta amazônica.

Graças a essa legislação, alguns países do terceiro mundo compreenderam os efeitos benéficos de se cuidar das florestas tropicais. Mas há um país que não para de destruir suas próprias florestas tropicais: os Estados Unidos. A maior parte dessas florestas está no Havaí; outras em Porto Rico e algumas nas ilhas do Pacífico, que também estão sob o controle americano. No Havai, embora a devastação tenha começado há 1500 anos com a chegada dos polinésios, metade da superfície da ilha ainda estava coberta de florestas 200 anos atrás, quando europeus e os americanos chegaram. Agora elas cobrem cerca de 5 % e a destruição continua.
Há vantagens a curto prazo na conversão de floresta em pastagem para o gado. A madeira pode ser vendida para a companhia de luz elétrica do Havai, e os proprietários dessas regiões pagam menos impostos. Mas não se deve esquecer que os zoólogos acham o Havai pelo menos tão interessante quando Darwin achou as Ilhas galápagos. De todos os seus animais e plantas, 95% são únicos, específicos do lugar! A maioria deles está extinta ou em sério risco de extinção.

Usar a madeira como combustível destrói as florestas e também rompe o ciclo da água de outras maneiras. O uso extensivo de materiais combustíveis como fonte de energia, qualquer que seja sua origem, tende a mudar a proporção entre a água e o dióxido de carbono da atmosfera. Isso tende a aumentar a temperatura média da superfície terrestre. Pode-se ver como o ciclo da água éperturbado, pois o ar quente contém mais vapor de água do que o ar frio. Acredita-se que a precipitação de chuva, assim como o nível do mar, sejam afetados no futuro.

 

A chuva ácida

 

O homem não só perturba o ciclo da água, como também polui a chuva. Esse fenômeno foi trazido a público através da expressão "chuva ácida".

Os primeiros efeitos da poluição química da água tornaram-se evidentes nos países escandinavos, quando foi descoberta a acidez de seus lagos e rios. Os sintomas iniciais foram que muitos peixes e outras espécies aquáticas morreram. Mas a consciência internacional foi despertada quando as florestas alemãs foram afetadas. Os primeiros alarmes surgiram nos anos 70 no sul da Alemanha, quando as agulhas dos pinheiros silvestres ficaram amarelas e caíram. Por volta de 1984,50 % das florestas da Alemanha estavam afetadas em algum grau, embora poucas árvores estivessem realmente mortas. As primeiras interpretações eram simples, especialmente perto das fronteiras com a Polônia e com a ex-Tchecoslováquia, onde os níveis de dióxido de enxofre e de óxido de nitrogênio eram altos o bastante para afetar as árvores. Mas na Floresta Negra e em outras lugares, como Los Angeles e áreas adjacentes, foram necessárias outras explicações e foi preciso levar em conta a camada de ozônio e os níveis predominantes de hidrocarbonetos.

As principais fontes poluidoras da água da chuva são as usinas elétricas, fábricas e carros. A progressão desse tipo de poluição foi estudada por um método engenhoso, na Groenlândia, num lugar onde não existe poluição local. Uma coluna de gelo de uma geleira foi perfurada. Ao estudar a extensão na qual o oxigênio radioativo da parte central diminui, eles foram capazes de dizer a idade do gelo em duas diferentes profundidades. Isso revelou uma imagem acurada dos níveis de poluição durante os 115 anos anteriores. Eles ressaltaram que desde 1870 as emissões globais de enxofre produzido pelo homem aumentaram 25 vezes e que os níveis de nitrato tinha dobrado desde 1975.

 
 

O deserto de água

 

Os seres humanos expressam sua falta de interesse pelo futuro da vida no planeta criando desertos, tanto na terra como na água. "Águas mortas" é agora um conceito aceito, quando rios, lagos e mares como o Mediterrâneo e o Adriático estão envolvidos. Todos os mares e oceanos estão ameaçados por desequilíbrios irreversíveis.

No golfo do México, foram encontradas 5000 km de água com pouco oxigênio. Na porção ocidental do estreito de Long Island, a falta de oxigênio explica a extensa morte de peixes. Na baía Chesapeake, milhares de peixes, caranguejos e ostras morreram, em lugares onde foram constatados altos níveis de sulfeto. Perigo semelhante surgiu em toda a costa leste da América do Norte, principalmente com a morte de cerca de 200 golfinhos liquidados na praia, entre Nova Jersey e Virgínia.

N a abertura da Conferência dos Ministros do Meio Ambiente do mar do Norte, o príncipe Charles disse que o mar do Norte se transformou num vasto depósito de lixo, cheio de afluências que ameaçam seu equilíbrio ecológico. Ele acrescentou:

"O mar do Norte não é um buraco sem fundo para as nossas sobras e não faz sentido submetê-lo à destruição". É provável que poluentes derivados de fertilizantes agrícolas e de água de esgoto tenham ocasionado a desastrosa eclosão da "alga assassina", conhecida como alga dinamarquesa na Suécia e como alga sueca na Dinamarca. Em três semanas, 500 toneladas de salmão morreram.

A história da pesca de baleias pode ser usada para ilustrar o comportamento dos humanos em relação às criaturas marinhas, assim como à vida em geral. É apenas outra história sobre desertificação.
Os primeiros registros de uma abordagem comercial para a pesca das baleias podem ser encontrados nos Países Bascos entre a França e a Espanha, e data de cerca do ano 900 da nossa era. Os marinheiros costumavam perseguir as baleias do Golfo de Biscaia em pequenos barcos. Essas baleias nadam devagar e flutuam ao morrer. Era possível seguí-las até que se cansassem, para então matá-las com arpões e rebocá-las até a praia. Na maioria das vezes, o óleo da baleia era usado em lampiões. Quando os pescadores bascos exterminaram completamente essa espécie, por volta do século XVI, tiveram de subir para a Islândia e para a Groelândia, para caçar uma outra baleia-verdadeira, a baleia-anã. Os ingleses e os holandeses se juntaram a eles. As baleias-brancas foram extintas comercialmente em um período de cinqüenta anos.

O início do século XVIII foi o grande período para os baleeiros americanos, que mataram 200 000 baleias-verdadeiras, antes de serem obrigados a se afastar da praia; foi assim que eles começaram a caçar cachalotes. Isso atingiu um pico em meados do século XIX e as reservas de cachalote no Atlântico foram esvaziadas nos anos 20. Durante o século XVIII, outros baleeiros americanos se concentraram no lado ocidental do pólo norte. Esses baleeiros do Pacífico ficavam muitas vezes desocupados durantes os meses de inverno, até que em 1853 o capitão Charles Scammon descobriu a região das baleias cinzentas em Baja, na Califórnia, de forma que os baleeiros podiam ficar ativos mesmo no inverno. Eles introduziram uma nova técnica: primeiro arpoavam o filhote para atrair sua mãe. Isso continuou por cerca de 50 anos, até as espécies serem ameaçadas de extinção. Agora, graças a medidas tomadas pelo governo mexicano, a espécie sobreviverá e estima-se que a população de baleias cinzentas seja de cerca de 18000. As últimas espécies a serem atingidas são a baleia azul, a fin e a espadarte, na Antártida. As minkes são agora o interesse principal dos baleeiros da Antártida, mas eles não se dão ao trabalho de pescar.

A pesca da baleia é um problema global e, com a interferência do homem no ciclo da água, as fronteiras nacionais deveriam ser desconsideradas. Ambos os casos demonstram as conseqüências de conflitos não resolvidos entre interesses locais e de  curto prazo de um lado e interesses globais e de longo prazo de outro. Na verdade, existe uma comissão internacional proibiu a caça de baleias cachalotes nas águas do noroeste do Pacífico, na costa do Japão, e estabeleceu cotas em outros lugares. Mas os países que caçam baleias protestam, ou retiram seus membros da comissão, e continuam a caçá-Ias. A última desculpa que se deu foi a caça à baleia com o objetivo de pesquisa científica".

Chamamos de Homo demens o homem incapaz de evitar a ânsia de destruição coletiva criada por esses conflitos não resolvidos. O homem tem um instinto destrutivo inato? Esse instinto é o pecado original Como o planeta, considerado um ser vivo, reagirá a atividade do homem como uma espécie parasita? Talvez a Terra alcance um outro equilíbrio, uma outra homeostase incompatível com a sobrevivência da nossa espécie, do mesmo modo que nos livramos do vírus da gripe mudando nossa homeostase e aumentando a temperatura.
Chegou a hora de estudarmos o homem como um agente da desertificação. Este ângulo da natureza humana exige a máxima atenção. Não concebemos nada que seja mais prioritário do que ISSO.

Será que o deserto emocional no homem é que cria o deserto na natureza? A educação moderna não deveria, em primeiro lugar, fazer com o homem tecnológico fosse capaz de examinar o futuro distante? Sempre que há uma visão de futuro envolvida, somos geneticamente tão míopes quanto o caçador-coletor. Mas as ações do homem pré-histórico tinham apenas conseqüências de curto prazo, se levarmos em conta a história completa do planeta.

 

 

ESBOÇO DE UMA TEORIA EMOTIVO-INSTINTIVA

 

Deserto emocional... liberação de emoções ... liberação de instintos ... instinto religioso. O poder da água sobre os humanos nos induz ao de palavras que muitas pessoas evitam. Alguns cientistas evitam a palavra "emoção" porque não podem dar a ela uma definição exata. Quanto à palavra "instinto", em certos ambientes é melhor afirmarmos que ela não se aplica aos seres humanos.

Sempre que a sexualidade genital está envolvida, ou no caso do parto ou da terapia, consideramos que a água tem o poder de diminuir as inibições. Isso origina duas perguntas: o que está inibido? E pelo que isso é inibido? Uma redefinição moderna das emoções e dos instintos acompanha a resposta a essas perguntas.

 

 

As pedras no caminho

Há dois aspectos do homem que os filósofos descreveram de modo diferente em todas as épocas e aos quais podemos nos referir em termos científicos modernos. Essas duas faces do homem são a verdadeira essência da filosofia: o coração e a razão A razão e a paixão. A lógica e a intuição. O intelecto e a sensibilidade ...
O homem tem dois cérebros. Eles podem trabalhar juntos,mlas podem também estar em conflito. Podem inibir um ao outro.

Um desses cérebros, partilhamos com todos os mamíferos. Podemos chamá-Io de cérebro reptiliano, ou melhor, de sistema nervoso subcortical, indicando que ele também inclui as chamadas estruturas reptilianas. Esse cérebro não pode ser dissociado dos sistemas adaptativos básicos, quer dizer, dos sistemas imunológicos e hormonais. As emoções e os instintos estão liga-dos à atividade do cérebro primitivo.
O outro cérebro pode ser chamado de cérebro racional ou neocórtex. O gigantesco desenvolvimento do cérebro racional é que torna os seres humanos especiais. Ele é um tipo de supercomputador capaz de coletar, juntar, associar e armazenar dados recebidos pelos órgãos sensoriais. Parece que o lado direito do neocórtex em geral está mais em contato com o cérebro reptiliano.

Há circunstâncias nas quais o cérebro primitivo pode inibir o cérebro racional. É o que acontece, por exemplo, quando um estudante está paralisado no dia de um exame. O medo pode reduzir a capacidade de seguir uma linha lógica de raciocínio. Por outro lado, existem muitas circunstâncias nas quais é o cérebro racional que inibe o cérebro primitivo. Por exemplo, durante um episódio da vida sexual, como um parto. É o cérebro reptiliano que está ativo. Ele tem de secretar os hormônios necessários. Este é o processo normal do nascimento. Mas esse processo involuntário pode ser inibido por um cérebro racional demasiadamente ativo.
As emoções-instintos, por serem constantemente controladas, reprimidas, inibidas e escondidas, são um difícil objeto de estudo em humanos. As emoções não são estudadas por aqueles que estudam os instintos e vice-versa. Essa tendência causa muitos equívocos. Na maioria das vezes, as emoções são estudadas por especialistas do sistema nervoso como N. B. Cannon, W Papez e J. Panksepp; por psicólogos; e por filósofos, como William James e Jean-Paul Sartre. Os instintos, por outro lado, foram es-tudados principalmente por observadores do comportamento animal, como Konrad Lorenz e N. Tinbergen.

As seguintes descrições de algumas situações típicas podem lançar luz sobre a artificialidade das fronteiras entre emoção e instinto.

Imagine que um indivíduo de repente tem de encarar um gigante ameaçador e aterrorizante. Muitas reações são possíveis. O indivíduo pode fugir. Essa reação é semelhante àquela de um coelho que se defronta com um cão de caça. Mas se o indivíduo for um gigante, consciente de sua própria força, sua reação imediata pode ser ficar e lutar. Essa reação é semelhante àquela de um veado atacado por um lobo. Se o indivíduo não puder fugir nem lutar, ele estará numa situação desesperadora. Não existe chance alguma a não ser se submeter. Esta é a situação de um corço que encara uma matilha de lobos famintos. O indivíduo também pode ter de encarar um gigante apavorante que, depois de um tempo, decide ir embora. Esta é a situação de um asno, que vê um leão passar.

Essas quatro reações são respostas instantâneas a ameaças imediatas. Em todos os casos, as estruturas cerebrais envolvidas são as primitivas, tão antigas quanto os mamíferos, se considerarmos a história de vida sobre a Terra; antigas também se considerarmos o desenvolvimento do indivíduo.

Os dois primeiros exemplos interessariam mais àqueles que estudam o comportamento - os assim chamados etólogos. Os casos do coelho em fuga ou do veado em luta, demonstram os instintos de fuga ou luta. A terceira situação interessa muito aos fisiologistas, que usam termos como "desamparo" ou "reflexo de paralisia do medo". É como se o indivíduo desamparado começasse a destruir a si próprio, secretando níveis altos de hormônios como o cortisol e as endorfinas. A quarta situação interessa principalmente aos filósofos, psicólogos e alguns neurologistas, que têm um interesse especial pelas emoções em geral. Todos esses especialistas, sem qualquer relutância, usam a palavra "medo" para expressar o que é sentido por um asno que vê o leão passar, ou por um rato que sente o cheiro de um   gato, ou por um humano ameaçado por um revólver. Eles não tem dúvida alguma de que essas experiências são semelhantes, quer estudem o circuito do medo no cérebro, os efeitos de hormônios como a adrenalina ou o que o ser humano tem a dizer sobre seus sentimentos.

Esses exemplos mostram que nosso vocabulário não está adaptado para o entendimento moderno das emoções-instintos. A palavra "emoção" é mais comumente usada por aqueles que estão envolvidos com o que se sente. A palavra "instinto" é mais usada por aqueles que observam o comportamento. Isso é uma grande simplificação Todo mundo aceita o conceito de expressão das emoções, quer dizer, que o comportamento não pode ser dissociado das emoções. A expressão de medo, por exemplo, é um sinal de alerta, uma forma de alertar os outros de um possível perigo. Por outro lado, os psicólogos estudam os sentimentos associados aos instintos reprimidos e sublimados.

Hoje em dia há uma necessidade urgente de rever nosso vocabulário. Precisamos de uma nova expressão que inclua os conceitos de emoção e de instinto, que transmita adequadamente a atividade do cérebro reptiliano.

Uma vez que compreendemos a dualidade do cérebro humano, vamos em busca de uma "filogenética" ou "ontogenética" das emoções-instintos, uma definição que esteja baseada na idade das estruturas envolvidas. Ao mesmo tempo, procuramos uma definição que desconsidere a demarcação artificial entre as duas palavras. As fronteiras entre as emoções e os instintos são mantidas por limitações impostas pelas diferentes abordagens ou disciplinas. Somos prisioneiros do vocabulário.

A palavra "instinto" é um termo difícil de usar, por muitas razões. A primeira é que sua definição sempre se baseou na distinção entre características inatas e adquiridas. As dificuldades são extremas quando o homem está envolvido, porque sua característica principal é a habilidade inata de fazer aquisições, quer dizer, de aprender! O uso da palavra "instinto" também é difícil porque o comportamento e a intenção estão muitas vezes misturados. Por instinto, um coelho começa a correr quando vê um cão de caça. Quando se fala de "instinto de fuga", como o fizemos, inferimos o resultado final em vez de apenas descrever o fenômeno.

Para a palavra "emoção" há outros tipos de dificuldade.

Este termo muitas vezes tem conotações mágicas, como se o campo da emoção estivesse fora do campo dos processos biológicos. Muitas vezes fico assombrado quando leio a literatura médica e científica mais séria, e comprove que muitos autores opõem o "nível emocional" e o "nível físico", ou as "emoções" e "o corpo". Quando analisamos uma emoção como o medo, com seu equilíbrio hormonal particular, e os efeitos da adrenalina sobre o tamanho das pupilas, a direção dos pêlos e o ritmo cardíaco, estamos simplesmente estudando um processo fisiológico, quer dizer, um aspecto da vida. A emoção do medo não é mais mágica do que qualquer outro processo fisiológico ou do que a vida em geral, mas é parte dela.

As conotações mágicas associadas com a palavra "emoção" estão muitas vezes ligadas a definições que usam a palavra "consciência". Isso torna os fenômenos que envolvem o homem e os animais ainda mais complicados. Os cientistas do fim do século XIX, seguindo Charles Bell e Darwin, evitavam sistematicamente essas dificuldades estudando apenas a expressão das emoções, entrando em todos os detalhes a respeito do modo como os pequenos músculos da face trabalharem quando expressam alegria, medo, ansiedade, etc.
Evocar uma frase que expresse todo o campo das emoçõesinstintos e que esteja baseada na idade das estruturas cerebrais liga-se a uma outra dificuldade. A maioria dos cientistas interessados na fisiologia das emoções são especialistas do cérebro, e grande parte deles está centrada nos circuitos emotivos do mesmo. Mas hoje em dia, todos os limites entre o cérebro reptiliano, o sistema hormonal e o sistema imunológico estão obsoletos.

 M.Odent