O Prof. J. Moura Gonçalves, antigo diretor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e ex-professor de Bioquímica nessa renomada escola médica, conquistou o Premio Lafi, de Ciências Médicas, graças aos trabalhos que desde 1948 vem desenvolvendo sobre a crotamina, substancia de natureza protéica, isolada do veneno de certas espécies de cascavel. A originalidade de suas pesquisas valeu ao ilustrado colega este merecido premio, distinção que lhe foi conferida por unanimidade de votos.
Desde 1948 Moura Gonçalves vem se dedicando ao estudo dos venenos de serpentes brasileiras. Em 1954 descrevia a crotamina, toxina de natureza protéica, encontrada nos venenos de certas "subespécies" de cascavel (crotamino-positivas), freqüentes na região me-ridional de nosso país e na Argentina.
Em razão de suas características de proteína básica, com pH isoelétrico igual a 10,3, foi ela batizada com a feliz denominação de crotamina.
Em 1961 conquistava Moura Gonçalves a cátedra de Bioquimica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, com uma tese sobre o assunto. Continuou o ilustre pesquisador patrício na mesma linha de pesquisa, estudando posteriormente, a composição quantitativa dos ácidos aminados da crotamina e dos seus grupos terminais, a fim de estabelecer as relações entre os efeitos biológicos de tal toxina e sua constituição . Todos os resultados do presente trabalho foram divulgados no Simpósio Internacional sobre Venenos Animais, realizado em julho de 1966, no Instituto Butanta.
É interessante referir que a crotamina, quando inoculada em camundongos, produz sintomatologia muito peculiar, afetando sobretudo a atividade muscular. Análises eletroforéticas quantitativas permitem separar os venenos crotamino-positivos dos crotamino-negativos; a referida toxina tem maior capacidade de fixar o corante Amidoschwartz que as demais proteínas. Fato interessante é que os filhotes de serpentes crotamino-positivas herdam a propriedade de "fabricar" a referida toxina. Registra textualmente o Prof. Moura Gonçalves: "a freqüência de crotamina encontrada nos recém nascidos é fato indiscutível da transmissão de mensagem genética de uma geração a outra, para sintetizar a proteína". Esses dados, de enorme significação em taxonomia mostram ser possível, na base de dados bioquímicos, a separação de uma subespécie dentro da espécie da serpente considerada. A distribuição geográfica de cascavéis crotamino-positivas indica, também, concentração da subespécie numa região a oeste do Estado de São Paulo.
Esta "subespécie biológica" recebe a denominação Crotalus durissus crotaminicus. A crotamina é, também, rica em enxofre, presentes nos quatro resíduos de cisteina.
Métodos vantajosos para a obtenção da crotamina em pequena escala vem a ser a "eletroforese livre" e a "eletroforese em papel" . Solúvel em água, com ponto isoelétrico correspondente a pH 10,3 em força ionica 0,1, a crotamina absorve fortemente na região ultravioleta do espectro; ela é dializavel, comportando-se como extraordinário ativador da carboxipeptidase A. Finalmente, a crotamina contém uma única cadeia peptídica com tirosina na extremidade - NH2 e glicina na extremidade - COOH. A cadeia peptídica não é, todavia, linear, mas de natureza compacta, dadas as inflexões decorrentes dos quatro resíduos de prolina e das duas ligações -S-S, o que estaria de acordo com o seu comportamento em solução .
Nossos aplausos ao ilustre colega pela conquista dessa láurea, acompanhados de um voto de louvor a Fundação Lafi, por esta bela iniciativa, premiando os trabalhos de nossos pesquisadores, os quais, dentro de seu s laboratórios também contribuem, com o seu labor, para a grandeza da pátria. Fica o Prof. Moura Gonçalves moralmente intimado a continuar a enriquecer nossas letras médicas com o fruto de sua operosidade, de sua cultura e de seu patriotismo.