Curas na religião, e os misterios da agua

Assim como é artificial separar as forças eróticas do processo de cura, é artificial separar a cura do instinto religioso.

Na maioria das sociedades, não se pode separar medicina e religião. O xamanismo é tão velho quanto a humanidade. Seja homem ou mulher, o xamã é sempre o líder religioso, que também cura. Ele é uma personalidade carismática e poderosa.

O rito cabalístico de transmissão do nome de Deus do mestre para o discípulo acontecia sobre a água. Antes que o mestre ensinasse isso a seu discípulo, ambos deviam mergulhar. O mestre diz uma oração, que termina com as palavras: "A voz de Deus está sobre as águas! Louvado seja, ó Senhor, que revelaste teu segredo àqueles que o temem, Ele que conhece teus mistérios". Então os dois voltam os olhos na direção da água e recitam versos dos Salmos, louvando a Deus sobre as águas.

Em toda a Bíblia se encontra água. Em alguns casos a água é sinônimo de medo, de perigo, ou de morte: "O Senhor derrotou os egípcios no meio do mar ... e Israel viu os egípcios mortos na praia". Em outros momentos a água é boa e torna a vida possível, como um oásis no deserto; ou é promovedora da vida, como uma fonte num jardim ou gotas de orvalho nas folhas. Nas histórias de Rebeca, Raquel e o Samaritano, a Bíblia dá alguma importância aos encontros próximos a poços.

Pode-se dizer que a vida de Moisés é uma história sobre a água, do começo ao fim. Provavelmente depois de uma escassez absoluta, o povo de Israel se estabeleceu no Egito, onde foi imolado. O faraó ordenou que jogassem todos os recém-nascidos do sexo masculino no rio. A mãe de Moisés escondeu seu bebê por três meses e então o colocou em um cesto, entre os juncos, à margem do rio. A filha do faraó salvou o bebê da água e o adotou. Assim, paradoxalmente, Moisés foi salvo pela água. Quando Moisés cresceu, foi próximo a um poço que ele encontrou sua mulher, a filha de um chefe tribal, que lhe ensinou onde encontrar água no deserto. Quando os israelitas decidiram voltar para seu próprio país, Deus os levou na direção do mar Vermelho. Mas eles ficaram presos entre o mar e o exército egípcio. Moisés esticou as mãos sobre o mar e as águas se dividiram e os filhos de Israel puderam andar sobre o leito seco do mar, com uma parede de água à direita e outra à esquerda.

Quando o exército egípcio os perseguia, Moisés esticou as mãos outra vez. O mar se fechou e os egípcios se afogaram. Depois desse episódio, houve um tempo em que os filhos de Israel acampavam em Rafidím e não havia água alguma para o povo beber. Moisés seguiu a ordem de Deus, bateu numa pedra em Horeb, e a água brotou dela.

A travessia vitoriosa através das angústias do mar é um acontecimento central na fé judaica e cristã. Assinala a passagem de uma condição de escravidão para uma condição de liberdade. Esse episódio também salienta a natureza misteriosa da água. Lembra-nos que a fé se alimenta de mistérios.

 

Mistério - uma necessidade

 

Aqui outra vez a água une fé, cura e erotismo. O que eles têm em comum é a necessidade de mistério.
Os médicos sempre souberam que o mistério ajuda no processo de cura. Até época recente, eles costumavam falar em latim, lima língua misteriosa às pessoas leigas. Por comparação, a linguagem médica moderna é um jargão fácil a ser decifrado. Quando eu era cirurgião, tinha consciência de que havia um certo poder terapêutico inerente aos procedimentos de um cirurgião. ( ) cirurgião, escondido atrás de sua máscara, trabalhando numa área de "entrada proibida", tendo acesso ao interior do corpo humano anestesiado, segue um tipo de ritual religioso. Isso sempre estimulou a imaginação, especialmente numa época em que o cirurgião ainda fazia parte de uma espécie rara.

Atualmente os médicos perderam um pouco de sua aura de mistério. Talvez tenham, ao mesmo tempo, perdido um pouco de sua eficácia. Os médicos alternativos sabem o que fazer para cultivar o mistério e têm toda uma infinidade de modos. Por exemplo, eles usam técnicas que surgiram em países distantes e as coisas distantes são sempre misteriosas. Ou então técnicas cujas bases teóricas são obscuras e que são, portanto negadas de mistério.

Do mesmo modo, o erotismo sempre se alimentou de mistério. Os casamentos sempre aconteceram entre clãs ou tribos diferentes. O comportamento de rapazes e moças criados juntos nos kibutz de Israel foi estudado. Depois dos 12 anos, os jogos heterossexuais são comuns nos dormitórios. Mas na puberdade as moças tendem a rejeitar os rapazes e a querer seus próprios quartos e banheiros. Elas se tornam hostis aos rapazes de sua própria comunidade, mas, ao mesmo tempo, começam a ter olhos para os rapazes que pertencem a outros grupos. Hoje em dia, com os modernos meios de comunicação, a atração entre parceiros que não partilham do mesmo país de origem, ou da mesma língua, ou que não pertencem à mesma raça, é óbvia.

Alegou-se que o erotismo é a arte de esconder um pouco de pele, mantendo assim um certo mistério. Este é o detalhe que Darwin não levou em conta quando interpretou a nudez dos humanos. Darwin questionou as vantagens da perda de pêlo durante o processo de evolução e chegou a considerá-la como uma vantagem decorativa, em outras palavras, uma van-tagem em termos de atração sexual. Também há razões decorativas na substituição do pêlo humano pelas roupas. A atmosfera é mais erótica num baile de máscaras do que num campo nudista.

Pode-se perguntar por que, durante milhares de anos, as mulheres se esconderam das vistas dos homens quando davam à luz. Durante milhares de anos o mundo das mulheres e o fenômeno do parto foi misterioso para os homens, assim como as façanhas dos guerreiros e dos caçadores eram misteriosas para as mulheres. Quando se compreende o quanto a atração sexual precisa de mistério, é possível entender mais facilmente as sociedades que nos precederam. O psiquiatra nova-iorquino, Sam Janus, descobriu que 30 % dos homens que estavam presentes no nascimento de seus filhos perdiam o interesse sexual por suas mulheres posteriormente. De uma maneira geral, é difícil cultivar o mistério em um núcleo tàmiliar monogâmico.
 
Alguns educadores perceberam a importância da água como um poderoso intermediário do mistério. Maria Montessori achava que o objetivo principal do professor era manter um estado de curiosidade constante, para estimular a imaginação. Ela tinha consciência da necessidade de mistério. A fim de "semear as sementes do conhecimento" entre crianças, ela sugeria que a água pudesse ser um ponto de partida. Ela mostrou como o plano cósmico pode ser apresentado à criança como uma emocionante história da terra em que vivemos, com as várias mudanças através das eras. "quando a água era a trabalhadora-chefe da natureza para a realização de seus propósitos". Porque se pode olhar para a água partindo-se de pontos de vista diferentes, seu estudo "pode se tornar uma paixão". "Alguém gostaria de ser capaz de penetrar os mistérios e a grandiosidade inerentes à água". Montessori sabia não apenas que a água é uma mediadora do mistério, mas também que ela é, em si mesma, um mistério.

 

A água - um mistério

 

Para os cientistas, a água permanece um mistério. Todas as substâncias ficam mais pesadas e mais densas quando passam de líquidas para sólidas. Mas acontece o oposto com a água: o gelo flutua. Se não fosse assim, o gelo cairia no fundo frio do mar e, inverno após inverno, cada vez mais agua se transformaria em gelo.

A partir de uma análise espectroscópica e de raios X, o ângulo exato de ligação H-O-H é de 104.5°. Este arranjo de elétrons na molécula lhe dá assimetria elétrica. Quando duas moléculas se aproximam uma da outra, existe uma atração eletrostática entre a carga negativa no átomo de oxigênio de uma molécula e a carga positiva no átomo de hidrogênio da outra molécula adja-cente. Isso cria uma redistribuição das cargas de elétrons nas duas moléculas, que aumenta muito sua atração. Esta complexa união eletrostática é chamada de "ponte de hidrogênio". Por causa deste arranjo especial de elétrons, cada molécula de água é potencialmente capaz de pontes de hidrogênio com quatro moléculas de água adjacentes. Isso explica a grande coesão interna da água.

O que torna a água tão misteriosa é que não existe água pura, nenhum modelo único de água. A frágil arquitetura da água pode ser modificada de acordo com a temperatura, a pressão e a radiação eletromagnética. Os métodos modernos de investigação sugerem que não existe uma forma única de água, mas muitas formas diferentes, que se combinam de modos diferentes. Dependendo se as moléculas estão isoladas ou associadas em grupos de duas, quatro ou cinco, a água é chamada monômero, dímero, trímero, tetrâmero ou pentâmero. Se alguns íons OH ou OH são liberados, a água é ionizada.

Conforme a proporção de todas essas formas diferentes, pode-se dizer que cada água tem sua própria personalidade. Por exemplo, a água da chuva, a água da tempestade ou a água sob uma lua cheia têm espectros diferentes.

Nosso moderno entendimento da frágil arquitetura da água não contraria a crença popular presente em muitas culturas de que ela age como um elo entre a terra e o cosmo. Alguns costumes ainda praticados revelam um conhecimento a respeito da qualidade mutável da água de acordo com a mudança do céu. E comum em muitas culturas não tomar banho na lua cheia. Partindo-se de uma perspectiva química, a água da lua cheia pode ser particularmente agressiva. Em certas regiões do  Himalaia, todas as represas devem ser esvaziadas antes e depois de um eclipse.

A água, essa molécula milagrosa e misteriosa, continua a maravilhar muitos cientistas. Alguns agora estão dizendo que a água tem memória. É como se a água pudesse gravar sua história em sua estrutura física. Luu, em Montpellier, usando um espectrômetro Raman-Laser, mostrou que a água que conteve determinada substância conserva um espectro característico, mesmo que esteja tão diluída que nem mesmo um químico consiga encontrar vestígios da substância original.

Na Universidade de Salford, na Inglaterra, Cvril Smith l'studou os efeitos dos campos eletromagnéticos na água. Ele propoe uma estrutura helicoidal para a água que é capaz de 'lembrar" freqüências às quais tenha sido exposta. Mais recentemente', o biólogo francês J acques Benveniste pôs sua credibilidade profissional em risco publicando ensaios no famoso jornal Nature que sugerem uma tendência da água de "lembrar" de moléculas , fim as quais tenha tido contato. Benveniste afirmou que algumas células sangüíneas podem responder a anticorpos em diluiçoes acima de um para um seguidas de 120 zeros!

Estamos redescobrindo o que as culturas antigas já sabiam. No Egito e na China costumava-se reconhecer a influência dos ciclos lunares (campos gravitacionais) de metais específicos, das estruturas dos cristais (campos eletromagnéticos) e da substância vegetal e animal (campos bioenergéticos) na saúde humana.

Inspirado por essas teorias, o parto embaixo d'água pretende usar a capacidade que a água "estruturada" tem de "fornecer e comunicar'" certas informações bioenergéticas aos seres vivos que mergulham nela. Igor Smirnov, de Leningrado, afirma que a água da piscina na qual o parto ocorrerá deve previamente tratada, isto é, "estruturada", doze horas antes do parto e também durante o trabalho de parto. Um "biogerador" especial foi criado com esse objetivo.

A água não é somente misteriosa para todos os cientistas que a estudaram no âmbito molecular, mas também para aqueles que estudaram sua forma. Leonardo da Vinci é considerado o primeiro homem a fazer experimentos sistemáticos com a água, no sentido moderno da palavra. Ele percebeu as maravilhas desse elemento e sua relação com os seres vivos no processo de desenvolvimento.

Algumas pessoas ficam fascinadas com a tendência da água fluente de seguir um curso sinuoso. É como se a água sempre estivesse tentando fazer um círculo, mas obtendo um êxito parcial por causa da força da gravidade. Mesmo dentro dos meandros há correntes secundárias com um tipo de movimento circular, fascinantes em sua complexidade. O encontro de duas correntes como essas pode criar um movimento espiralado. As voltas dessa espiral tornam-se tão pronunciadas, que uma inundação pode fazê-las desviar ou se acumular como água represada.

A simples observação desses meandros é o suficiente para revelar certos mistérios. A água tem a tendência constante de recriar uma esfera. Existe um conflito constante entre essa tendência e a força de gravidade. Isso explica os meandros, as espirais, as  águas represadas e assim por diante. Isso também nos leva a uma nova visão de uma gota d'água: uma gota de chuva é uma esfera alongada pela gravidade.

A água tenta constantemente recriar uma esfera, quer dizer, um todo, uma unidade. Procura constantemente juntar o que está dividido. Se a aproximação é química, física ou simbólica, a água sempre parece ser o mediador, o elo, o elemento que liga as coisas e as pessoas.