Dilatação no parto normal e no parto dentro da agua

Existem explicações simples, aceitas por todo mundo, a respeito do modo como a água realmente atua quando o colo uterino está se dilatando. A imersão na água aquecida tende a reduzir o nível dos hormônios que secreta mos em alta quantidade quando estamos com frio ou com medo. Sabe-se que um nível elevado desses hormônios, que pertencem à família da adrenalina, torna a dilatação do colo mais demorada; também a torna mais difícil e perigosa.

A imersão numa piscina pequena reduz a força da gravidade. Isso tem o efeito de minimizar a estimulação da parte do ouvido interno chamada de sistema vestibular, que dá constantemente informação sobre a posição e a orientação das diferentes partes do corpo. Quando se acrescenta escuridão e silêncio, a estimulação sensorial é reduzida ainda mais. Quando a mulher se deita de costas na piscina de forma que seus ouvidos fiquem dentro d'água, a relação com o mundo exterior é completamente rompida.

Também é possível que a água aquecida aja diretamente sobre o sistema muscular. Os tendões são compostos principalmente de colágeno e quanto mais quente for a temperatura, mais mole o colágeno se torna. Assim, um banho aquecido tem sempre um efeito relaxante.

Portanto, um banho na mesma temperatura do corpo protege a futura mãe contra a resposta de luta-e-fuga e atinge o estado fisiológico algumas vezes chamado de "resposta de descanso". Mais significativo do que o tempo passado dentro da água é o processo de saída da água, e é sobre isso que debateremos.

 

Saindo da água

 

Se a mulher está num banho aquecido, o nascimento do bebê está próximo e as contrações não são mais eficazes, como é possível que, de repente, o fato dela entrar numa atmosfera fria possa determinar o tim rápido do trabalho de parto? Se tivermos uma noção simplista sobre os efeitos da adrenalina (e de outros hormônios relacionados) no processo de parto, logo nos deparamos com um paradoxo. Ensina-se q til' o frio, o medo e todas as situações que elevam o nível de adrenalina impedem o processo de parto. Como, então, esse paradoxo pode ser explicado?

O fato do bebê nascer assim que a mulher sai de um banho aquecido (sentindo o frio da sala de parto) me fez desenvolver a expressão "reflexo de ejeção do feto", Essa expressão foi introduzida pela primeira vez pela cientista americana doutora Niles Newton, nos anos 60, ao estudar a importância dos fatores ambientais nos partos de ratas. Ela descobriu alguns artifícios eficazes para tornar o parto mais longo, mais difícil e mais perigoso: colocando o animal de laboratório num lugar não familiar, onde não podia cheirar ou ver o que estava acostumado em sua vida diária; movimentando o animal de um lugar para outro durante o trabalho de parto; ou reduzindo a sensação de privacidade, colocando o animal numa gaiola transparente em vez de numa opaca. Niles Newton sugeria que a expressão "reflexo de ejeção do feto" poderia ser um instrumento para ampliar nosso conhecimento do processo de parto, assim como a expressão "reflexo de ejeção do leite" pode aumentar nosso entendimento da fisiologia da lactação.

Dei o primeiro passo no dia em que fiz uma ligação entre o reflexo de ejeção do feto desencadeado pela saída de um banho

aquecido e o mesmo reflexo desencadeado pelo medo - uma situação acompanhada por um nível alto de adrenalina. Lembrei-me, por exemplo, que alguns médicos franceses antigos costumavam dizer alguma coisa amedrontadora antes de decidir usar o fórceps. Quando existiam ferreiros para ferrar cavalos, es-ses médicos antigos costumavam dizer coisas como faites chauffer les fers! ("esquentem os ferros!"), em vez de simplesmente pedir para aprontar o fórceps. De vez em quando, isso realmente fun-cionava como forma de evitar a necessidade do fórceps.

Lembro-me também de mães - cujos bebês estavam em posição sentada dentro da barriga -, que sentiam verdadeira fobia à cirurgia. O trabalho de parto ia bem até a dilatação com-pleta do colo e então cessava. Chegava o momento em que tínhamos de decidir fazer uma cesariana e ir para a sala de operações. O bebê nascia no corredor, a caminho da sala.

Das histórias escritas por um viajante durante o século XVIII, descobri que entre os índios iroqueses do Canadá as mulheres em trabalho de parto se isolavam numa pequena cabana e geralmente tinham partos rápidos e fáceis. Porém, se o trabalho de parto era mais longo e difícil que o normal, os jovens da tribo eram chamados e davam um susto na parturiente gritando todos juntos. Supunha-se que este era o artifício e o bebê nascia logo em seguida.

Mesmo assim, existem vários casos autênticos de reflexo de ejeção do feto que não são provocados nem por uma diferença brusca de temperatura nem por nada assustador. Então eu me pergunto: o que esses partos têm em comum?

Em todos os casos mencionados o período de dilatação da colo  acontece numa atmosfera de completa privacidade. Por exemplo a a futura ma mãe está sozinha em seu próprio banheiro ou quar-to, quanto o pai do bebê está ocupado em algum outro lugar. A mulher sabe que uma pessoa experiente está por perto. Ela também não foi incomodada por um exame vaginal. De repente, sua voz e toda sua conduta mudam. Um grito ou um gesto querem dizer “me  ajude, venha r:ípido", ou alguma coisa que ela diz mostra que está com medo. Muitas vezes o que ela diz tem algo a ver com a morte. O ponto essencial é que uma mulher está livre para expressar seus medos sem ser reprimida por palavras tranqüilizadoras.

Ataques de raiva também podem acontecer du-rante um curto período de tempo: conheci mulheres que batiam os cotovelos contra a parede, ou coisas desse tipo. Uma vez que esse estágio é atingido, se a mulher está livre para gritar, esse é um ponto sem volta. Nada pode interromper o reflexo de ejeção do feto agora - nem mesmo ordens para fazer força, ordens para não fazer força ou para respirar desse ou daquele jeito! Durante essas últimas contrações a mulher tem uma repentina força mus-cular de grande intensidade, agarrando algo ou alguém.
Essa repentina manifestação de energia provavelmente coincide com um nível alto de adrenalina. Ela ficará com a boca seca e terá um repentino desejo de um copo d'água. Suas pupilas estão dilatadas. Olhando para trás, algumas mulheres se lem-bram de um breve estado de pânico exatamente antes do início da tempestade; foi assim que eu cheguei ao conceito do medo fisiológico. Em outras palavras, em um certo estágio do trabalho de parto, a expressão de algum tipo de medo pode ser considerada normal. Isso não é específico dos humanos. A ansiedade é aparentemente a principal emoção expressa por muitos mamíferos quando dão à luz. Porém, talvez seja artificial considerar o medo como a única emoção que precede o reflexo de ejeção do feto. Existe uma mistura tão grande de emoções!

Qualquer emoção forte é acompanhada por uma redução no controle neocortical, que é o pré-requisito para um parto rápido e fácil. Isso significa menos controle do intelecto. Quando o controle racional é reduzido, a pessoa tende a esquecer o que é aprendido, o que é cultural. Durante qualquer tipo de experiência sexual, todas as inibições vêm do neocórtex, esta parte do cérebro que é tão fortemente desenvolvida nos humanos.
A fim de entender o significado do medo fisiológico, a pessoa tem de se libertar da visão simplista dos efeitos do medo e da adrenalina. A injeção de adrenalina durante o parto tem resultados contraditórios. Muitas vezes a adrenalina pode inibir o processo, mas em certas circunstâncias pode acelerar. Em resumo, pode-se dizer que durante o primeiro estágio do trabalho de parto a adrenalina (e as outras catecolaminas) tem um efeito inibidor. Mas depois que um certo estágio no trabalho de parto é alcançado, elas podem disparar o reflexo de ejeção do feto.

Para aceitar o conceito de medo fisiológico, também precisamos esquecer qualquer distinção entre emoções positivas e negativas. Essa diferenciação não tem nenhum sentido para os fisiologistas, Todas as emoções têm algum papel a desempenhar. Na selva, quando uma fêmea é ameaçada por um predador no início do trabalho de parto, a inibição desse trabalho é uma vantagem. O aumento de adrenalina pára temporariamente o processo de parto e torna possível para o animal lutar ou fugir. Por outro lado, no ftm do trabalho de parto ocorre o oposto. Se o animal está em perigo, é melhor parir a prole o mais rápido possível; assim, um rápido reflexo de ejeção do feto é uma vantagem.
Como o medo fisiológico, a dor fisiológica tem um papel a desempenhar durante o trabalho de parto. Ela dispara a secreção de endorfinas, que ajudam na secreção de prolactina, o hormônio necessário para a produção do leite. A prolactina é também o hormônio que completa a maturação dos pulmões do bebê um processo que acontece durante o parto. Este exemplo demonstra a interligação de todos os processos fisiológicos.

Esta nova visão do processo de parto, inspirada pelos efeitos da saída da água, põe em destaque a artiftcialidade dos limites convencionais entre o primeiro e o segundo estágio do trabalho de parto. O limite real não é a dilatação completa da colo. Em uma atmosfera de espontaneidade - que é difícil de imaginar em uma unidade obstétrica convencional - a fronteira real é indicada por uma mudança de comportamento, quando a mulher de repente se torna ativa, violenta e até agressiva. O reflexo de ejeçao do feto pode começar antes de a dilataçao da colo estar completa. Por outro lado, a dilatação completa pode preceder esse reflexo.

 

Dilatação-ejeção ... Ereção-ejaculação

 

Essa interpretação do reflexo de ejeção do feto sugere quão complexo, sutil e vulnerável é o processo de parto normal nos humanos. Esta interpretação não contradiz outros pontos de vista ou teorias: a abordagem em si é nova. Até agora, a prioridade nunca foi aperfeiçoar nosso entendimento dos processos normais. Essa é a razão pela qual durante duas décadas a maioria dos bebês ocidentais nasceu num ambiente eletrônico, sem uma avaliação adequada desse efeitos agressivos sobre os processos fisiológicos. Agora todas as notícias publicadas na maioria dos jornais médicos autorizados concordam que o único efeito estatístico significante do aparato eletrônico usado durante o trabalho de parto é aumentar o índice de cesarianas e partos por fórceps.

Isso quer dizer que estamos entrando numa nova fase na história do parto: vamos chamar de era pós-eletrônica. Só porque as equipes cirúrgicas em todos os hospitais podem realizar com segurança essa maravilhosa salvação chamada cesariana não significa que devemos parar de tentar melhorar nosso entendimento do processo normal de parto. Chegou a hora de sermos mais científicos.
De fato, nossa interpretação do reflexo de ejeção do feto tem paralelos com outros episódios da vida sexual, como a ejaculação no orgasmo masculino.

A ejaculação é controlada pelo sistema nervoso simpático, que usa a adrenalina - o hormônio da agressividade - como mediadora. A curta fase de ejaculação é geralmente precedida por uma fase mais longa de ereção. Isso está sob o controle do sistema nervoso parassimpático, que é inibido pela adrenalina. As semelhanças fisiológicas entre a ejeção e a ejaculação são óbvias.

M Odent