Na época da varíola

Os jornais noticiaram a morte de Vitalino Pereira dos Santos, vitimado pela varíola, em Caruaru, sua terra natal. Poi Mestre Vitalino a expressão mais autêntica da arte popular nordestina, com suas criações em cerâmica, que hoje correm mundo. É penoso informar que o renomado artista morreu sem assistência médica ou espiritual. Ninguém dele queria se aproximar.

Com 52 anos, o pernambucano dos bonecos de barro descansa agora numa cova rasa, anun-ciando-se grandes "homenagens em sua me-mória". "Mas o que se deve realmente fazer é proteger outros artistas, antes que a varíola também os mate".

A notícia foi para a vala comum, mas muita gente perguntou porque se morre no Brasil de uma doença de há muito erradicada de alguns países mais subdesenvolvidos. "Ninguém ganha do Brasil em varíola", foi a frase dita recen¬temente por ilustre sanitarista.

A vacinação antivariólica é obrigatória por lei, mas infelizmente esse dispositivo não é aplicado no Brasil, por falta da vacina específica, por ignorância do povo (que não se deixa vacinar) ou, então, por culpa de nossas autoridades sanitárias, que não planejam regularmente as grandes campanhas de vacinação em nosso meio.

No Brasil, já o disse alguém com espírito, só necessitamos de uma lei, assim redigida: "de hoje em diante, entram em vigor todas as leis existentes" ...

Não nos iludamos, portanto, nem por amor-próprio mal-entendido ou por espírito de nativismo. a que 5e deve fazer é protestar con¬tra a evidencia desse fato, altamente de¬sabonador para a nossa condiçao de país civilizado.

Infelizmente, a varíola ou alastrim ainda ocorre em nosso meio, e em 1958,1959, 1960, 1961 e 1962, 2.201 casos dessa virase haviam sido internados no Hospital do Isolamento (Hos-pital Emílio Ribas), quase todos tratados com sucesso (apenas 21 óbitos), depois do advento da antibioticoterapia, que impede o aparecimento das complicações, de ocorrência habitual naquela infecção.

A varíola ainda ocorria em aqueles dias, apesar da mais antiga e elementar profilaxia. Referiu-me o ilustre colega Dr. Tiriba, do Hospi- tal Emílio Ribas, que geralmente o nosso "pau de arara" sai de seus pagos sem a doença. Vai adquiri la na descida para o Sul, a altura da Bahia, Nordeste de Minas Gerais, Rio e São Paulo. É mais outra infelicidade que carrega sobre si. a nordestino com varíola ou já desembarca doente ou adoece meses ou anos após sua fixação no Sul, porque se abriga em núcleos onde tem a oportunidade de se infectar com a chegada de conterrâneos doentes.

Existe em Feira de Santana (Bahia) um posto de vacinação "obrigatória". No entanto, o nordestino ou desce de caminhão 100 metros an¬tes do posto e o contorna a margem da estrada ou, o que é pior, paga de seu minguado bolso, 50, 100 e até 200 cruzeiras para não ser vacinado. Mas o problema da varíola, assina1a o Dr. Tiriba, não é exclusivo do Nordeste.

É, também, do Estado mais adiantado da União. Não é raro adoecerem com varíola os familiares mais próximos de médicos, estudantes de medicina, esposa de médicos, filhos de médicos, sobrinhos, pais e assim por diante.

No Brasil, infelizmente, discutimos e falamos muito em saúde pública, mas não ultrapassamos a primaríssima barreira da varíola. a pessoal que executa a imunização em geral não é treinado, as campanhas antivariólicas São realizadas sem avaliação de resultados, não há entrosamento entre os órgãos de saúde dos diferentes estados interessados na sua erradicação, etc. outra causa que tem contribuído para o arrastamento do problema diz respeito ao alastrem, porque, quando se fala neste nome, subestima-se o problema e tudo continua na mesma.

Na eternidade de seu descanso, entre as figuras arrancadas de suas mãos de artesão popular, Mestre Vitalino um dia verá o Brasil liberto de uma doença que é uma vergonha para todos nós. Felizmente,já não ternos mais varíola em todo o mundo.