Excursão médica ao Vale do Rimac

Recentemente, em companhia dos ilustres colegas e amigos peruanos Drs. Oscar Romero Rivas e Abelardo Tejada, ambos do "Instituto de Medicina Tropical Daniel A. Carrión", da cidade de Lima (Peru), tivemos a oportunidade de visitar o Vale do Rimac, zona onde incidia intensamente a chamada "Pebre de Oroya" ou Doença de Carrión (Bartonelose) e na qual ainda ocorre endemicamente, a leishmaniose tegumentar americana.
Precisamente a 11 de novembro de 1968 iniciávamos nossa excursão, passando pelo Hos-pital "Dos de Mayo", em cuja praça principal existe um busto de Daniel A. Carrión, o grande no me da medicina peruana e que morreu vítima da Bartonelose, após a inoculação que nele praticara com o material retirado de um hemangioma (verruga peruana).

Íamos visitar uma das zonas mais verrucógenas existentes no Peru e onde numerosos trabalhadores morreram vitimados pela moléstia denominada "Pebre de Oroya", "Verruga peruana", "Bartonelose" ou "Moléstia de Carrión".
Recordemos que Daniel A. Carrión nasceu em uma população da cordilheira dos Andes, denominada de "Cerro de Paseo", a 13 de agosto de 1857. Ingressou na Universidade de San Marcos, em Lima, onde cursou a Faculdade de Medicina, até o 6° ano. De 1881 a 1885, Carrión fez várias observaç5es sobre a chamada "Verruga Peruana", as quais foram publicadas um ano após sua morte, em seus "Apuntes sobre la Verruga Peruana", mostrando os diversos aspectos clínicos da moléstia e convencido de que a inoculação experimental era o único recurso para conhecer alguns pontos obscuros desta doença, que ele definiria como uma "febre anemizante, endêmica, não contagiosa, possivelmente parasitária, de diagnóstico difícil no começo da enfermidade e fácil na sua fase eruptiva". A 27 de agosto de 1885 praticou a inoculação em seus braços, por via intradérmica, com o sangue extraído de um tumor verrucoso" (hemangioma) da região superciliar direita de uma paciente que ocupava o leito n° 5 da sala de Las Mercedes, do Hospital dos de Mayo. Vinte e um días após manifestam-se os primeiros sintomas da doença, com febre elevada, dores articulares, mialgias, cefaléia e anemia grave. A 5 de outubro de 1885 morre da infecção, estabe1ecendo-se definitivamente a unidade clínica e etiológica da "febre de Oroya" e da "Verruga peruana". Com este experimento deixou um verdadeiro testamento a juventude peruana, em busca da verdade.

O rio Rimac (do idioma quechua - falador) nasce a 5.000 m.s.n. mar, na cordilheira dos Andes, formando parte dos rios da vertente ocidental na costa peruana que desembocam no Oceano Pacífico. Percorremos parte do vale do Rio Rimac, através excelente estrada asfaltada, que segue paralela 11 Estrada de Ferro Central, passando por diversos povoados, tais como Vitarte, Chaclacayo e Chosica, esta última a 840 m.s.n. mar. Em certas zonas, o vale se estreita consideravelmente, observando-se montes sem vegetação alguma, sumamente áridos. A 900 m.s.n. mar, encontramos a pequena população  de Ricardo Palma, que se localiza frente da desembocadura de um dos afluentes do rio Rimac, o rio Santa Eulália. Inicia-se aqui a zona da chamada "verruga peruana", com a presença de Phlebotomus (principalmente o P. verrucarum) que transmite a moléstia a noite, poi s de dia ele habita pequenas grutas. Passamos depois por Corcona, onde houve uma grande epidemia de "verruga" num acampamento das Empresas Elétricas. Logo chegamos a Cocachacra, população a 1.200 m.s.n. mar, onde se inicia a zona endêmica de leishmaniose tegumentar. Aqui, plantas lactecentes como os "huanacarpos" (Yatropha macranta e Epidosentos basciacanta) e "mitos" (Carica candidalls) são observadas.

Passamos por Tornamesa, estação da Estrada de Ferro, a 1.500 m.s.n. mar, onde em 1913 o entomólogo norte-americano Towsend capturou pela primeira vez o Phlebotomus verrucarum, afirmando ser a "Ti tira", a transmissora da "Verruga peruana". Fizemos ligeira parada a margem esquerda do rio Rimac, na qual se observa a "Ponte Carrión" (da linha de estrada de ferro), e onde, cada dormente custou pelo menos a vida de um homem atacado pela febre de Oroya, na grande epidemia de 1870. Prosseguimos em nossa viagem, passando por Surco e Maturana. Daí regressamos, sabendo que as zonas de verrugas e de leishmaniose se estendem até San Mateo, população  a 3.000 m.s.n. mar. Detivemo-nos no Clube "El Bosque" (situado entre Chaclacayo e Chosica), lugar dos mais agradáveis e acolhedores, com um bosque natural de "Hurangos", dotado de excelentes comodidades.

Felizmente, a incidencia da Bartonelose (doenc;a provocada por uma bactéria - a Bar-tonella bacilliformis, identificada por Albert Barton T.) é desprezível no momento atual, depois que se iniciou, a aplicação  de inseticidas (D.D.T.) nas regiões atingidas pela doenc;a. Além do P. verrucarum, outras duas espécies de Phlebotomus tem sido capturadas nestas áreas, tais como o P. noguchi e o P. peruensis.

Durante toda sua doença, Carrión descreveu com minúcias os sintomas da infecção , tendo sido, conforme desejara, autopsiado, após sua morte ocorrida na "Maison de Santé" (Lima), assistido pelos seus colegas e amigos Drs. Villar, Romero, Flores e Chaves.
Faleceu aos 27 anos, 38 dias após a inoculação  do material infectante, dando-nos um belo exemplo de desprendimento e de acendrado amor a ciência, a Medicina e a Humanidade.