Mais um antibiótico, do grupo dos amino-glicosideos, foi lançado no comércio na década do 60, sob forma injetável e, experimentalmente, também, sob a forma de cremes ou geléia, para uso tópico, no tratamento das queimaduras infectadas principalmente pelo bacilo piociánico (Pseudomonas aeruginosa). O referido antibiótico, apresentado comercialmente como sulfato de gentamicina, possui um amplo espectro de ação in vitro, contra germes Gram-negativos e Gram-positivos, não tendo, porém, atividade sobre fungos.
Foi o grupo chefiado por Marvin J. Weinstein, do Departamento de Microbiologia da Schering Corporation, dos Estados Unidos (Bloomfield, New Jersey) que descobriu este novo antibiótico, produzido por um actinomiceto - a Micromonospora purpurea. Na realidade, este microrganismo produz um complexo de antibióticos, com um açúcar aminado comum a neomicina, kanamicina e paromomicina. uma de suas características mais interessante é a atividade in vitro e in vivo que a mesma exerce sobre o bacilo piociánico, capaz de produzir infecções cutâneas, principalmente em quei-mados, otites, meningites e até processos septicemicos. Não tínhamos arma terapêutica potente contra esta bactéria, a não ser a polimixina B, extremamente nefrotóxica. Sua toleráncia é relativamente boa, registrando-se em 3 a 5% dos casos, manifestações de oto-toxicidade com vertigens transitórias. Náuseas, vômitos e urticária podem também, eve-ntualmente ocorrer. A nefrotoxicidade é reduzida e reversível, quando se empregam doses terapêuticas corretas.
Recentemente, no Rio de Janeiro, as-sistimos a um Simpósio sobre este antibiótico, de descoberta relativamente recente (1963) e no qual diversos trabalhos foram apresentados, registrando a experiência de um grupo de pesquisadores brasileiros com referencia a este novo fármaco antimicrobiano. Enterobactérias, o bacilo piociánico, os Staphylococus aureus e até o Mycobacterium tuberculosis São sensíveis in vitro a este novo antibiótico. A resistência ao mesmo pode ser desenvolvida no laboratório, porém ela ocorre lentamente. Estudos farmacológicos cuidadosos, incluindo a toxicidade para animais de laboratório, foram realizados por Black & col. Microrganismos dos gêneros Pseudomonas, Staphylococcus, Streptococcus e Proteus mostram-se extremamente sensíveis a este novo antibiótico. Sua absorção é desprezível por via gastrointestinal.
Está provado que a gentamicina é eliminada principalmente através dos rins, mas sua nefrotoxicidade não é constante, parecendo estar na dependência mais da idade do animal tratado ou do estado funcional de seu s rins.
Da literatura compulsada, destacam-se os trabalhos apresentados em 1967 no 10 Congresso Internacional sobre Gentamicina, realizado em Paris, no Hospital Broussais e recentemente publicados sob forma monográfica. Estamos, na realidade, frente a um novo antibiótico, de largo espectro de ação , agindo sobre vários germes, principalmente o bacilo piociánico. Assim, infecções urinárias por germes Gram-negativos tem sido controladas, utilizando-se o produto na dose de 1 mg/kg/dia.
A experiência de Miller quanto ao emprego da gentamicina em queimados é das mais convincentes no que diz respeito aos seus efeitos favoráveis. Sabe-se, hoje em dia, que o bacilo piociánico produz uma exotoxina e a aplicação da gentamicina nos queimados graves, com infecção por bacilo piociflllico, fez diminuir rapidamente a febre, com regressão da sintomatologia totêmica e melhoria do estado geral dos pacientes. Trata-se, indiscutivelmente, de uma conquista no tratamento das infecções por P. aeruginosa e que aparecem secundariamente, no decurso de queimaduras extensas.