História do bocio endémico no Brasil

As primeiras referencias a presença do bócio (papo) endêmico no Brasil, São encontradas somente a partir dos fins do século XVIII e início do século XIX. Antes da descoberta da nossa terra, não existia qualquer notícia a respeito da endemia bociógena, em nossas várias populações indígenas. O índio brasileiro parecia ter certa "imunidade" a referida doença. Mais tarde, porém, Augusto de Saint-Hilaire registra a  ocorrência do bócio, tal vez devido a mestiçagem da raça, absorvido o índio puro com os hábitos, os vícios e os costumes dos brancos.

A ausência da endemia de bócio nos indígenas, assinala Geraldo de Medeiros Netto, em seu belo ensaio -"História do Bócio Endêmico no Brasil. Origens e Causas" (1975), seria possivelmente explicá la por urna característica genética ou, eventualmente, por algum elemento nutriciona suplementaria o iodo, ao indígena. Dos estudos até agora realizados, conclui-se que o ameríndio, pelo menos dos grupos étnicos a leste da cadeia andina, habitantes da região Amazônica e do Brasil Central, são geneticamente resistentes ao bócio, possuindo alta capacidade de captar iodo, mínima porcentagem de indivíduos incapazes de sentir o sabor do PTC (feniltiocarbamida), configurando se, assim, a melhor adaptação ao meio carente de iodo.

O mesmo não ocorre com os negros e os mulatos, advindos da maciça introduçao deste grupo étnico no Brasil, nos séculos XVIII e XIX. Nos negros parece incidir, com maior freqüência, o bócio endêmico. Como assinalamos ante¬riormente, foi o famoso botânico Saint-Hilaire (1779-1852), quem percorrendo as províncias do Río de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e todo o sul do Brasil, assinalou a doença entre nós. A endemia deve ter sua origem no Planalto Central e nas regi5es do Vale do Paraíba, provavelmente nos meados do século XVIII, atingindo nos princípios do século XIX, consi¬derável parcela da população. Na mesma época, na Colômbia, já se preconizava o emprego do sal iodado para a profilaxia do bócio.
Os naturalistas alemães von Spix (1781-1826) e von Martius (1794-1868), chegando ao Brasil em 1817, percorrendo durante três anos várias de nossas províncias, chegando até ao Río Amazonas, também, descreveram entre outras doenças, o bócio no Vale do Paraíba, sendo célebre a gravura representativa de mulher mameluca portadora de bócio, mais em-belezamento do que deformação, "não sendo raro verem-se mulheres com o monstruoso bócio  enfeitado de corrente de ouro e prata a se exibirem".

Na região de Itu, o Reverendo Daniel P. Kidder, chegando do Estado de Nova York, em 1837, como missionário metodista, também retratou fielmente os usos e costumes da época, descrevendo brevemente algumas doenças locais, entre as quais o bócio endêmico. Jean¬Baptiste Debret (1768-1848) retratou, também, a sociedade brasileira do princípio do século XIX, mostrando com seu pincel e bico-de-pena os aspectos rurais e urbanos do Brasil colonial. E o bócio aparece sempre com elevada incidência (le goitre au Brésil). Um de seus famosos desenhos registra um carroceiro conduzindo um tonel de água destinado ao funcionamento da caserna, sendo visíve1 a presença do bócio na região cervical anterior.
Langgaard, no seu famoso "Dicionário de Medicina Doméstica e Popular", em 1872, resume os conhecimentos básicos que a medicina de então conhecia sobre o "papo" ou "papeira".

Se levarmos o sal iodado as nossas populaç5es privaremos as mesmas de defeitos congênitos ligado a carência crônica de iodo. As nossas autoridades sanitárias estão atentas ao problema. Cultor da Geografia Médica, vemos com satisfação, publicada pela Secretaria de Cultura de nosso Estado, o oportuno volume -"História do Bócio Endêmico no Brasil. Origens e Causas"(1975), de autoria de Geraldo de Medeiros Netto, retratando a história de urna doença que no passado mereceu tanta atenção dos médicos e naturalistas visitantes de nossa terra.