A mãe e o recém-nascido na cultura do homem do futuro

HOMO SAPIENS

O  homem que se abstiver de perturbar o ciclo da água, o homem que parar de destruir as florestas, o homem sexual que se sentir comprometido com o futuro merecerá o nome homo sapiens. Uma vez que o deserto emocional no homem criou o deserto na natureza, a pergunta é como enriquecer o poder instintivo-emocional do homem do futuro.

 

Com a ajuda da ciência

 

A ciência moderna pode fornecer uma resposta - a ciência que está ciente de quão precocemente o cérebro das emoções e dos instintos amadurece, e de como o poder instintivo-emocional se desenvolve quando o bebê humano é dependente de sua mãe. A pessoa precisa perceber o elo entre a relação bebê-mãe e o da humanidade e a mãe-Terra.

Enfatizamos os conflitos entre o cérebro reptiliano e o racional quando nos referimos aos nossos hominídeos congêneres, Homo demens. De qualquer modo, admitimos a água como um símbolo feminino, como um símbolo da mãe e estamos desse modo conscientes também da possibilidade da colaboração harmoniosa entre os dois cérebros.

Quando buscamos ajuda da ciência para reforçar o poder instintivo-emocional dos seres humanos, ao fazer isso exemplificamos uma colaboração possível, alguma ajuda mútua entre o homem racional e o homem emocional. Estamos alcançando um estágio em nossa evolução em que podemos usar a ciência, quer dizer, nosso neocórtex, para redescobrir e reforçar nossos instintos, em outras palavras, a necessidade de sobreviver.

Darei apenas um exemplo para indicar o modo pelo qual podemos redescobrir nossos instintos. Temos agora dados suficientes para estarmos absolutamente convencidos do valor insubstituível das secreções do seio que vêm antes do leite, e em particular o colostro, nas primeiras horas depois do nascimento. As características do colostro já são menos específicas no segun-do dia. Durante as primeiras horas ele contém quantidades de anticorpos de que não se suspeitava há vinte anos. Existe uma concentração inacreditável do assim chamado "IgA" - os anticorpos que protegem as membranas mucosas, e em particular a mucosa intestinal. Também existem mais dois assim chamados "lgG" e "IgM" no primeiro dia do que nos dias subseqüentes.

Existem células no colostro com ação imunológica, como macrófagos e diferentes espécies de linfócitos. Enquanto são encontradas aos milhões no primeiro dia, são apenas milhares por volta do décimo. O mesmo pode-se dizer dos ácidos graxos, substâncias antiinfecciosas e fatores de crescimento.

Não existe nenhuma razão para impor qualquer espécie de restrição no início da amamentação no seio. O instinto que leva o bebê na direção do mamilo logo depois do parto e o instinto que impele a mãe a carregar o bebê junto do seu colo devem ser levados a sério.

A maioria das culturas sempre procurou separar a mãe e o recém-nascido e impedir, ou até proibir, a tomada do colostro. Em algumas culturas indianas, o colostro era até considerado um mau leite. No século II a.c., a medicina ajuvérdica recomendava mel e manteiga clarificada para os primeiros quatro dias do recém-nascido, enquanto o colostro era retirado e descartado. Essa crença no perigo do colostro foi partilhada por muitas cul-turas onde os bebês eram expurgados e muitas vezes alimentados no início por diferentes mães substitutas, ou amas-de-leite.

No Japão, o elixir juniigokoto era dado ao recém-nascido durante os primeiros três dias. Feito de uma variedade de raices e ervas, seus ingredientes eram determinados ritualmeute pela casta.

O autêntico Homo sapiens não terá medo de desenvolver o animal dentro de si. O desenvolvimento de todo o poder emocional e instintivo durante a infância não deve ser confundido com uma expressão descontrolada de emoções e instintos quando o homem é uma criança, ou um adolescente, ou um adulto. Não se pode imaginar as sociedades humanas sem qualquer tipo de controle sobre a agressividade e a capacidade para amar, que estão proximamente ligadas na formação de uma personalidade. O Homo sapiens não temerá se comunicar com o animal de dentro. A fácil comunicação entre o cérebro racional e o reptiliano, cérebro instintivo-emocional, é considerada um atributo feminino. A ciência moderna está apenas começando a fornecer uma interpretação do que é comumente chamado de intuição feminina.

A ponte - chamada de corpo caloso - entre o hemisfério direito e o esquerdo é 40 por cento maior no cérebro feminino do que no masculino. Em outras palavras, a comunicação entre o lado esquerdo e o direito é mais fácil para uma mulher, e isso provavelmente facilita a comunicação entre o cérebro racional e o reptiliano, o instintivo-emocional. A lenta comunicação entre o cérebro racional e emocional pode ser uma vantagem para o macho humano em algumas circunstâncias. Os guerreiros e caçadores, por exemplo, podem facilmente matar sem serem paralisados por sentimentos de culpa ou outras formas de emoções inibidoras. Mas se torna perigosa numa sociedade onde o modelo é masculino, quer dizer, numa sociedade onde as mulheres precisam expressar qualidades especificamente masculinas para serem bem sucedidas.

O surgimento de um autêntico Homo sapiens vai a par com o ressurgimento da bipolaridade feminino-masculina. Isso quer dizer "o retorno da deusa". As frustrações impostas ao recémnascido, a violência que ele tem de suportar, como a circuncisão, tinham uma razão ou um significado numa época em que o lema para os humanos era dominar o planeta e controlar todas as espécies vegetais e animais. No jogo da seleção entre as espécies, ou na competição entre civilizações, os vencedores eram aqueles que sabiam o melhor modo de desenvolver seu potencial para a agressão. Hoje o foco é diferente. A prioridade é mandar parar a destruição do nosso planeta. O autêntico Homo sapiens criará um contexto de comunicação, de cooperação, de respeito mútuo, dentro de si próprio e entre as espécies vivas. Deve-se ter em mente que o conceito de comunicação entre espécies foi introduzido por aqueles que acreditam que os golfinhos nos ensinarão nosso verdadeiro lugar entre todas as criaturas vivas. Chegou a hora de o homem se livrar de seu "especismo".

 

 

Em direção ao oceano

 

O autêntico Homo sapiens se voltará mais e mais na direção da água, do mar e do oceano. Ele olhará para o elemento como um símbolo feminino - a água como um símbolo e a sexualidade não podem ser dissociadas - e isso o ajudará a se reintegrar na natureza.

Ele também voltará sua atenção para a água na busca de novas fontes de energia. Será inspirado pelo processo de fotossíntese que as plantas usam há bilhões de anos. Tentará encontrar o desafio do hidrogênio solar e separar a água em hidrogênio e oxigênio por eletrólise. A água poderia se tornar o combustível do futuro. E se um dia aprendermos como fundir o núcleo de dois tipos de hidrogênio, será um outro capítulo na história do hidrogênio, que é uma parte componente da água.

O homem também se voltará para o oceano para pôr fim ao incêndio do planeta. Ele aprenderá a controlar a energia infinita

que os oceanos podem oferecer ao homem. Ele pode fazer isso sem fazer do oceano uma nova colônia? Pode fazer isso e preservar o oceano como um universo respeitado?

A energia das marés é transmitida da Lua para a Terra como um resultado das forças gravitacionais em movimento provenientes da tendência da Lua de ser repelida pela Terra. A idéia de explorar a energia das marés não é nova. Os egípcios consideraram essa possibilidade. Mais tarde, os ingleses e os franceses construíram moinhos de maré, tal como o da ponte de Londres, que esteve em uso do século XVI ao século XIX, como também aquele no estuário de La Rance, na França.

Em sua forma mais rudimentar, um moinho de maré é composto de uma parede no mar ou barragem bloqueando o acesso a um estuário, que abriga comportas e turbinas. Na maré cheia as comportas estão abertas; na maré baixa, tendo acumulado água suficiente, esse reservatório é usado para operar as turbinas. A energia das marés pode ser usada mais facilmente nos estuários, onde a altura da maré é de mais de quatro metros. Já existem dispositivos em La Rance, em Kislaya Guba, na União Soviética, e em Jiangxia, na China.

Existem muitos projetos novos em lugares como o estuário de Severn, no Reino Unido, e na baía de Fundy, no Canadá, onde a maré tem dezesseis metros de altura (a mais alta no mundo) e onde simulações por computador mostraram que a força da maré aumentaria os níveis de marés tão distantes quanto as de Boston. Os modelos podem ser usados agora para avaliar o custo econômico ambiental da força da maré.
Deve-se ter em mente que as condições que fazem um estuário ideal para gerar energia também o tornam uma área entre marés rica de alimentos para os pássaros. A barragem também poderia levar a uma acumulação de poluentes. Um moinho de maré pode ser mantido por um longo tempo. Uma comporta pode operar efetivamente por mais de um século, e as turbinas podem ser periodicamente renovadas. O uso da energia das marés pode se tornar importante em algumas áreas particulares e as usinas de energia não precisam ser grandes.

Quanto à força da onda, vem da energia do Sol, visto que as ondas são criadas pelo efeito do vento na superfície do mar, e os ventos são causados pelo Sol. As ondas podem percorrer milhares de quilômetros. No Atlântico Norte, a força das ondas é avaliada em 1 Okw por metro quadrado. Os relatórios de alguns peritos sugerem que a eletricidade gerada pelas ondas seria menos dispendiosa para produzir do que a energia obtida do petróleo e, depois de enormes investimentos, fácil de recuperar. Segundo as estimativas britânicas, o preço do quilowatt seria de 20 reais, utilizando-se a energia das ondas segundo o método chamado Salter, enquanto seria de pelo menos 30 reais com os reatores nucleares mais econômicos. Esse tipo de pesquisa é desenvolvido sobretudo na Grã-Bretanha e no Japão e compreende diversos dispositivos colaterais, flutuantes ou imersos. E um método promissor fora das zonas tropicais. Este processo tem grande potencial em muitas áreas, com exceção dos trópicos.

O uso da energia térmica dos mares está baseado na diferença de temperatura entre a superfície e a água profunda. Essa não é uma idéia nova, desde que foi proposta por Jacques d'Arsonval em 1881. O potencial dessa fonte de energia á enorme. E fácil explorá-Ia quando a diferença de temperatura entre a água da superfície e a água a 1 000 metros é de 18°C ou mais, As zonas mais promissoras para esse processo estão no Oceano Pací-fico ocidental.
Utilizar a energia térmica do mar requer tecnologia numa escala maciça. Um resultado secundário do ser processo poderia ser o suprimento de água doce, e a água profunda poderia ser usada para a criação de peixes. Os efeitos ecológicos do deslocamento de água terá de ser avaliado. Teoricamente esse poderia ser um modo de prover aos países tropicais uma fonte de energia barata em quantidades quase ilimitadas.

O Homo sapiens não se voltará para os oceanos apenas em busca de energia e alimento, mas também o considerará a matriz de todas as criaturas vivas. Ele se voltará para o oceano para ver a água, o mais poderoso, o mais profundamente enraizado de todos os seus símbolos. E esse símbolo é feminino. Isso implica que pertencemos a um mundo bipolar, sexual (não assexuado). Mas no início era feminino.

O oceano fornece ao Homo sapiens um foco para a redescoberta da metáfora central de uma sabedoria antiga e es-quecida. E a visão do oceano onde cada onda, aparentemente distinta, é intrínseca ao todo. Cada ser é uma forma passageira e temporária que é absorvida num todo ilimitado e amorfo.

"O sábio que quiser mudar o mundo terá de olhar na direção da água", disse o taoísta Tchouang-Tsu. O sábio que quiser mudar o mundo deve olhar para o recém-nascido." A civilização começará no dia em que o bem estar do recém-nascido prevalecer sobre qualquer outra consideração", disse Wilhelm Reich. Combinemos essas duas profecias numa época em que o advento de um autêntico Homo sapiens é a única chance do planeta sobreviver. Possa essa sabedoria, essa sapiência, ser a realização primordial do homem.
 

Por M.Odent