Medicina indígena Krahó

Os Mortos e os Outros

Acabo de ler "Os mortos e os outros" (São Paulo, Hucitec, 1978), de autoria da Professora Manuela Carneiro da Cunha, excelente análise do sistema funerário e da noção de pessoa entre os índios Krahó, que vivem atualmente perto da margem direita do Tocantins, no cerrado do norte de Goiás, formando cerca de seiscentos membros, repartidos por cinco aldeias, numa tribo que tira seu sustento da caça. de uma agricultura de coivara e da coleta, tendo empreendido recentemente, tentativa de criação de gado. Mantém os Krahó sua língua e por enquanto, só alguns homens e adolescentes falam o português. A Prof. Carneiro da Cunha diplomou-se em Paris, enveredou-se pela Antropologia Social, trabalhando na Unicamp, desde 1972, em pesquisas nas áreas do messianismo, da escatologia e da identidade em sociedades indígenas brasileiras, estudos esses publicados na França.

No interessante livro da ilustre pesquisadora, o que transcende, desde logo, é o lugar prioritário que cabe, entre os Krahó, a oposição  vivos-mortos. Esta questão, ela a defendeu no trabalho original apresentado como tese de doutoramento ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Estadual de Campinas, em novembro de 1975.

Para os Krahó, respirar é, por excelência, o ato vital, comandado pelo coração  que controla todos os movimentos, os sentidos e o próprio pensamento. A morte, para eles, pode ser devida a "feitiço", a "doença" ou a "acidentes" (picada de cobra, criança que nasce morta, etc.).
A iminência da morte é manifesta quando o fólego fica "curto" e o olho "vira", tornando se branco. A véspera de morrer, o Krahó dá conselhos a seus parentes mais chegados, aceitando a morte com naturalidade, pois é necessário "ir desocupando a Terra para os mais novos ficarem no lugar dos mais velhos".

O lugar da morte, para os Krahó, é o lugar de origem, procurando os mesmos morrerem na casa materna. Olhar o morto e, mais tarde "ajudar a chorá-lo", concerne a todas as mulheres da aldeia. Mais tarde, chegam os homens. O chefe dos rituais é o "padre", corruptela de padre. O corpo é colocado com a cabeça para o leste e deitado de costas. O choro ritual inicia-se algumas horas após a morte.

Segue-se a lavagem do corpo, o corte dos cabelos, a inserção  de batoques auriculares nos homens, a empenação  ou a simples tintura com urucu. A remoção  do cadáver se faz em este ira ou caixão de talos de buriti, seguindo-se a escavação  da sepultura e a inumação  propriamente dita.
Na volta do enterro os coveiros costumam banhar-se cm algum riacho, para se purificarem.

Fato dos mais interessantes é que os Krahó procuram manter uma contabilidade minuciosa das chamadas prestaç5es matrimoniais após as exéquias, variável de acordo com o grau de parentesco, com os serviços prestados ao morto, etc.

Observar o luto é uma forma, também, de reforçar a prestação  matrimonial. Após este ritual, o viuvo(a) é "despachado", podem do contrair novo matrimonio. Não cortar o cabelo e abster-se de pinturas corporais é uma das formas de "guardar o luto".

Conforme registra a Profa. Carneiro da Cunha, a movimentação  ritual gerada pela morte é proporcional a importância social do defunto. Assim, no caso de uma criança, as exéquias não saem do âmbito familiar, embora a emoção  gerada possa ser muito mais forte do que por ocasião da morte de um velho, segundo Zacarias Campelo. Os que exerciam liderança, em vida, podem ter ainda seus ossos inumados (enterro secundário ).
Este trabalho sobre a sociologia da morte é dos mais interessantes, mostrando-nos que, entre os índios os ritos funerários continuam, por assim dizer, detentores da vida, numa comunidade que une Céu e Terra.