Medicina Tropical Portuguesa

Em um número especial de "O Médico" Janeiro de 1976, o Professor João Fraga de Azevedo, do "Instituto de Medicina Tropical de Lisboa", relata-nos as suas memórias, após 53 anos de intenso trabalho em prol da ciência. Diplomado por Coimbra, em 1929, o ilustre tropicalista completou, a 5 de janeiro do ano corrente, 70 anos, desvinculando-se da grande instituição a que tanto servira.

Antigo médico da marinha portuguesa sua primeira viagem foi para Macau e depois Angola (Luanda e Lobito). Voltando a Lisboa, trabalhou o Prof. Fraga de Azevedo com o Prof. Fernando Fonseca que acabava de realizar brilhante concurso para pro-fessor titular de Doenças Infecto-contagiosas da Faculdade de Medicina de Lisboa. Ingressando depois na antiga Escola de Medicina Tropical de Lisboa, aí dedicou toda sua laboriosa vida, destacando-se como eminente professor de Parasitologia. A 12 de dezembro de 1956, inaugurava solenemente o Instituto de Medicina Tropical de Lisboa, com a figura simbólica de Garcia de Orta. Situa-se o mesmo na zona ocidental da capital portuguesa, paredes-meias com o hospital do Ultramar. V árias missões realizou-as o ilustre sábio português.

Em Guiné Bissau, na província de S. Tomé e Príncipe, em Cabo Verde, na Angola, em Moçambique, em Macau, Fraga de Azevedo trabalhava sempre com o mesmo entusiasmo, estudando as principais doenças endêmicas que ocorriam nessas antigas colônias de Portugal. Vários cursos foram por ele programados, destacando-se o oferecido na Escola Médica de Goa, em 1953.
Ao nos relatar episódios de sua operosa vida, o Prof. Fraga de Azevedo mostra-nos ter herdado de seu s antepassados aquela tropicofilia que impeliu os seus ancestrais a navegarem por mares ainda não navegados e por terras não percorridas. Ele fez de sua herança urna generosa lição de humanismo, estudando o homem que vive nos trópicos.
 

Professor Honoris causa pela Universidade do Brasil, o prof. João Fraga de Azevedo, apesar de doente, recebeu-me em Portugal em 1974 e a seu convite pronunciei urna conferencia sobre "Geografia do Brasil", no Instituto de Medicina Tropical de Lisboa, naquela época entregue a direção do Prof. Francisco Cambournac.

Homem de grande envergadura moral e científica, Fraga de Azevedo cumpriu como poucos a sua missão. A meu ver, o seu mais notável trabalho foi o que realizou na ilha do Príncipe, num combate sem tréguas a mosca "tsé-tsé", transmissora da "doença do sono", com a total erradicação dessa tripanossomiase. Foi com satisfação que recebemos as memórias, do ilustre colega, com o trabalho "Panorama da Medicina Tropical Portuguesa". É um volume que retrata a vida de um homem que viveu para seu s semelhantes, merecem do a consideração da gente portuguesa. Neste instante, volto meu pensamento para a terra-mae, o "país pequeno que a Espanha comprime e o mar alarga", na bela frase do nosso grande tribuno Brasílio Machado, com toda a sua vocação marítima, afrontando os perigos e as insídias do oceano tenebroso, abrindo, porém, novos mundos para a civilização, o comércio e aproximação humana.

O mar foi o aliado e a tumba dos navegadores portugueses. "O' mar, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal, mas também quanto caminho abriste as epopéias do heroísmo português".

Ao publicar o resumo de toda sua operosa vida o Prof. Fraga de Azevedo oferece-nos um grande exemplo, as sentando nos princípios da moral, ética o fulero de uma atuação social e humanitária, a ressonância imorredoura na lembrança dos portugueses e de todos os povos que foram por ele beneficiados. Seja-me permitido, como brasileiro, levar a Portugal o preito de minha alma. Beijar-lhe a terra, que é como beijar afronte materna.