Medicina Social

O Prof. Hilário Veiga de Carvalho, catedrático de nossa Faculdade de Medicina, em colaboraçao com seu s assistentes Antonio Miguel Leao Bruno e Marco Segre, acaba de publicar, pelo Serviço Gráfico da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, excelente volume sobre Medicina Social, dedicado a memória de Raimundo Nina Rodrigues, espírito original da Medicina Legal Brasileira, cujo centenário de nascimento foi condignamente festejado em 1962.

A Medicina Social, segundo Hilário Veiga de Carvalho e colaboradores, tem por finalidade a aplicaçao dos conhecimentos médicos a solução ou atenuaçao dos problemas sociais, em si mesmos considerados, e a aplicaçao dos conhecimentos sociológicos a doutrina e a prática da Medicina. Ela nasceu e cresceu, vinda da Medicina Legal, estudando as vítimas decorrentes de acidentes do trabalho, criando certo número de "diminuídos" - quanto a sua aptidão de enfrentar os problemas sociais da sua existência.

Conjugando a Medicina com as Ciências Sociais, o médico recebe a informaçao socio-lógica, sem a qual não poderá integrar o seu papel no seio dos diferentes agregados humanos.

Almeida Prado refere com razão, que a Medicina, por sua própria natureza, entrelaça-se com tantos e tão importantes aspectos da vida agregaria que lhe seria impossível isolar-se no círculo limitado de suas funções puramente curativas. Assim, suas incursões no campo da  higiene, sua ingerença do labor proletário e na prevenção das doe ças profissionais; suas atribuições educativa , sobretudo relevantes na recuperaçao mental os retardados e anormais; seu papel de órgão consultivo na legislaçao do trabalho; suas interpelações com a biologia e eugenia humanas; suas contribuições político sociológicas, etc., tudo isto lhe dá uma expressão potencial onímoda uma larga significaçao coletiva a seu campo de atuaçao.

Dentre os vários capítulos do excelente e oportuno livro do Prof Hilário Veiga de Carvalho e colaboradores, destacamos o referente a patologia social, estudando todas aquelas eventualidades "em que o conviver ético-social entra pelos desvios de uma verdadeira patologia", tais como os casos de marginalidade social e os comportamentos anti-sociais.
Observa-se, por exemplo, quanto a Medicina Social pode á fazer para a solução dos problemas atinentes a prostituição, aos vícios em geral, aos desajustados e em dificuldade social, aos egressos dos hospitais, aos egressos dos presídios, aos criminosos e aos que praticam contravenções de toda a natureza. Mas a Medicina Social estabe1ece relações com os problemas econômico e, também, com a política, já que existe uma patologia da política e dos políticos. Assim, já se afirmou que "a doença secreta de um político pode ser tão perigosa, tão transcendental, tão funesta para o país como a sua diplomacia secr ta", e que "há neuroses  coletivas dos governados que podem ser conseqüência de neuroses pessoais dos governantes, e vice- versa".

A história, refere com inteira razão o Prof.Hilário Veiga de Car alho, tem se encarregado de demonstrar as graves conseqüências para os povos e as nações do governo entregue as mãos de "homens patológicos", em sua saúde física ou mental. Não há d vida pois, e este é um fato consagrado, de que a atividade social pode e deve ser beneficiada pela contribuição  do médico.

A Medicina Social tem vasta rota a seguir, com a finalidade de promover o bem e a felicidade do ser humano. Ate agora, os médicos procuraram esse mesmo alvo, tratando do corpo e da mente de todo o nec'essitado; daqui por diante,  deverão agir, também, socialmente, com mais desvelo e correta visão.

Dentro do plano geral do pensamento médico, é preciso pois não esquecer esses problemas, que a Medicina e a Sociologia estudam, inclusive, em suas influencias recíprocas. A Medicina Social, pela sua importância, é hoje uma disciplina das mais significativas do currículo médico em nossa Faculdade de Medicina, e isto se deve, em grande parte, ao trabalho desenvolvido pelo Prof. Hilário Veiga de Carvalho, enaltecendo o valor do aprendizado dessa matéria visando melhorar as condições da vida social, colocando a Medicina ao serviço do estudo e do conheci-mento da "realidade social".