Médicos de familia

Em "Um dia depois do outro", o Prof. Antonio de Almeida Prado, nosso saudoso mestre, indiscutivelmente urna das mais ilustres figuras do meio intelectual brasileiro, focalizou em magnífica crônica a vida exemplar de um médico do passado que, como poucos, soube engrandecer sua profissão, amando generosamente a medicina e o enfermo. "O último médico de família" retrata a vida e a obra de Celestino Bourroul, professor de raros méritos, forrado de sólida cultura humanística, cínico por vocação e que, no dever médico, não tinha limites. Imantado pelo fervor religioso, passou pela vida praticando o bem, a caridade obscura, indiferente ao dinheiro, as honrarias, a vaidade e a ambição humana.

Celestino Bourroul foi professor de História Natural Médica, de Parasitologia e de Clínica de Doença Tropicais na Faculdade de Medicina de São Paulo. Exigente, rigoroso, estendia aos outros o austero conceito que tinha do cumprimento do dever. Nas funções magisteriais, ninguém o superou. Mas, Celestino Bourroul foi, antes de tudo, um grande médico, que dignificou a própria classe e a espécie humana.

Nascera médico e sua vida eram os seus doentes. Foi sempre o amigo, o confessor, o conselheiro, o taumaturgo que tanto atendia os males do corpo como os do espírito. Com inteira razão, assinala o Prof. Almeida Prado: o médico que não insuflar no espírito do doente a fé curativa, que não lhe propiciar reações psíquicas salutares, nunca será um grande clínico, embora possua o mais sedimentado preparo científico. É por isso que os médicos do passado, desprovidos de todos os recursos técnicos atuais, também curavam seus doentes, empregando processos e métodos terapêuticos hoje renegados pela evolução  científica. É que eles agiam mais pela fé que despertavam nas forças adormecidas do organismo doente, do que pelos remédios empregados.

Foi Celestino Bourroul o nosso último médico de família, a moda antiga. Respeitava, como poucos, o doente do hospital. Dentro e fora da cátedra, na clínica civil, na enfermaria, na vida social, foi sempre um homem reto, dentro de sua  nobre figura moral e profissional. Médico dos pobres, recebia-os em seu consultório a rua 7 de Abril, onde ficava até altas horas da noite. Espírito profundamente religioso, vivia num outro mundo, diferente. O Prof. Decourt, também como eu, antigo discípulo do Prof. Bourroul, registrou, com muita razão, que o grande e saudoso mestre reabilitara a interferência do coração em seus contatos com os doentes.

Nele, a caridade foi mais que uma resposta ao apelo do sofrimento; foi iniciativa, norma de conduta, padrão de trabalho, na verdade a única forma de atividade que podia compreender.

Nos seu s últimos dias, pressentindo a morte próxima, comunicou a seus familiares o desejo de não ser alvo, por ocasião de seu falecimento, de homenagens e cerimônias outras que não as de ordem estritamente religiosa. E ninguém estranhou sua última recomendação; ela estava congruente com a modéstia e o recato com que pautara toda sua vida.

Preferiu a pobreza do hábito franciscano, dando a todos sua última lição - lição de humildade, de grandeza moral e de desapego as grandezas terrenas.

Celestino Bourroul representou bem um tipo de médico que, infelizmente, se vai tomando raro em nossos dias. Clínico geral, dono de bondade evangélica que a todos seduzia, sua atividade médica foi sempre inspirada no culto do saber e no amor ao homem doente.
Ele sublimou o sacerdócio na constante e sempre desvelada assistência a todo aquele que sofre. Celestino Bourroul seguiu em toda sua vida, a eterna mensagem de Cristo, que falou de amor e de caridade. Isto é o que está realmente no fundo da moral de nossa profissão e que lhe confere valor eterno. Sua obra jamais será esquecida.

 

Sir Henry Hallett Dale
 

 
Na história da Fisiologia e da Farmacologia, o nome de Sir Henry Hallett Dale figura como um de seus maiores expoentes, pelas valiosas e originais contribuições a estas duas disciplinas.

Antigo Diretor do Instituto Nacional para Pesquisas Médicas, de Londres (situado no bairro de Mill Hill), onde sua fotografia está na sala de recepcao do referido Instituto, o grande pesquisador trabalhou, também, na Fundação  Wellcome e no Instituto Lister, de Medicina Preventiva, de Londres.

Visitando em 1965 a Fundação  Wellcome e sua magnífica biblioteca médica, recebemos do Dr. Fred Wrigley um volume (reedição ) contendo alguns dos trabalhos de Sir Henry Dale, sob o título "Adventures in Physiology". Foi ele um pioneiro da chamada "Autofarmacologia", que se preocupa em estudar as substancias autacóides ou autofármacos, geradas no organismo do homem e de outros animais, em condições as mais diversas e com atividades farmacológicas bem definidas, como a histamina, a bradicinina, a heparina, a acetilcolina, as calidinas, etc.
Trata-se, portanto, de urna seleção de publicações científicas do renomado pesquisador, cuja obra deve sempre ser enaltecida.

Nesta antologia de Sir Henry H. Dale figuraram trabalhos de grande interesse, tais como os referentes a ação  da ergotamina e dos extratos da glândula pituitária sobre diferentes órgaos; a estrutura química e a ação  sim¬paticomimética de várias aminas; um estudo completo sobre a atividade da beta-imidazoletilamina (histamina), droga vasodilatadora por excelência e de grande importância na patogenia do choque anafiláctico e de processos alérgicos os mais diversos; a significação  das supra-renais na ação  de certos alcalóides, etc.

Com Richards, Dale estudou minu-ciosamente a ação  vasodilatadora da histamina e de outras substancias; com Laidlaw descreveu o "choque histaminico", mostrando que, em gatos anestesiados, a histamina é capaz de produzir um quadro que se assemelha ao do "choque cirúrgico" ou do "choque traumático".
 
Em 1920, na Real Sociedade de Londres, pronunciava magnífica conferencia sobre o significado biológico da anafilaxia e das anafilatoxinas.
Numerosos foram os trabalhos por ele publicados, na revista "Journal of Physiology", sobre a ação  da adrenalina e de certos extratos de tecidos e de hormônios vasomotores, importantes no controle da circulação . Estudou Henry Dale, de modo exaustivo, as atividades da acetilcolina, como um transmissor químico dos impulsos nervosos. Foi Dale quem tracou os conceitos básicos da Autofarmacologia e dos chamados "mediadores químicos". Conforme acentua, com razão, Rocha e Silva, a própria fisiologia, mais e mais, se enquadra no conceito da autofarmacologia, dada a importância da mediação  química e das secreções glandulares.

Assim, assinala ainda Rocha e Silva, o número de "mediadores químicos" que intervém numa única reação depende, em grande parte, da natureza do processo em jogo e, muitas vezes, tem-se que admitir urna verdadeira cadeia de mediadores e de reações secundárias, químicas ou enzimáticas, para explicar os mais elementares processos fisiológicos.

Lendo algumas das publicações de Sir Henry Hallett Dale é que se pode avaliar a obra imensa que ele nos legou no domínio da Autofarmacologia. Homem de ciência e técnico de gênio, contribuiu de maneira decisiva para a solução de numerosos problemas nos domínios da fisiologia e da biologia.

Sua obra ficará para sempre, demonstrando, também, que a verdadeira ciência deve se abeberar na cultura geral e na formação clássica humanística.

 

médico da família

São essas pessoas dedicadas e comprometidas com sua causa que realmente transformam o nosso mundo.

Atenciosamente;
Dr. Fabio Corsini Motta - ABQ:0486
Tel.: 11-9466-2260