Não existe Medicina sem filosofia e sem cultura, disse com razão meu mestre Cantídio de Moura Campos. A verdadeira Medicina deve se abeberar na cultura geral e na formação clássica humanística, despertando o espírito filosófico de seus praticantes, suscitando a dúvida, que é a grande mestra da sabedoria, libertando o homem da vivencia rotineira, desvendando-lhes o panorama imenso de um mundo desconhecido, cheio de beleza, de poesia e de ensinamento.
Quem se dedica a historiografia médica, verifica que no passado muitos vultos de nossa profissão foram grandes literatos, ensaístas, educadores de escola, poetas e novelistas de renome, recorrem do a velha sentença de que não fazem mal as Musas aos doutores. Médico foi Clemenceau, como também Duhamel, Axel Munthe, Littré, Conan Doyle, Júlio Dantas, Fialho de Almeida, Leon Daudet, Joaquim Manoel de Macedo, Manoel Antonio de Almeida, Claude Bernard, o célebre fisiólogo frances de renome internacional, autor de urna das jóias da literatura mundial, com sua obra famosa "Introduçao ao Estudo da Medicina Experimental", na qual se associam a pureza da língua e a beleza do estilo.
Derivativo para o médico, tornam-se a literatura, a poesia e a arte indispensáveis para o que professe, da cátedra, o ensino de urna disciplina médica qualquer. Aliás, referia com razao a esse respeito, o nosso consagrado Miguel Couto: " Conheça a fundo a biologia normal e patológica - será um grande médico; apure ao extremo a utilização desses conhecimentos junto ao doente, acertando-lhes com a doença, mitigando-lhe as dores, dando-lhe a cura - será um grande clínico; mas, grande professor só o será se, sendo tu do isso, sua alma vibrar ao con tato das verdades científicas, se souber achar, no fundo árido, doloroso ou repulsivo dos fatos mórbidos, a emoção estética e for-lhe a palavra tão vibrátil quanto a alma, para traduzir essa emoção ". Grande professor, a seu ver, só seria aqueJe que fosse, além de estudioso e sábio, grande artista.
No Brasil, vários foram e tem sido os exemplos de médicos escritores, os quais se desdobraram no exercício de dois misteres substancialmente vocacionais, um artístico e outro de caráter sobretudo científico. Inúmeras figuras ocorreriam a citacao. Francisco e Aloysio de Castro, Miguel Pereira, Miguel Couto, Austregésilo, Ciernen tino Fraga, Briquet, Franco da Rocha, Nina Rodrigues, Oscar Freire, Afránio Peixoto, Luiz Pereira Barreto e tantos outros fo-ram ou São escritores de grande renome. Aliás, assinala com razão, o Prof. Napoleao L. Teixeira, onde quer que se encontre um médico, aí estará, oculto ou confesso, conhecido ou ignorado, o cronista, o poeta, o romancista, o pintor, o músico. "Dir-se-ia que o diuturno lidar com alheias dores faz vibrar nele, com intensidade maior que no comum dos homens, a delicada corda da sensibilidade, tomando-se necessária a sublimação que o escrever, o pintar e o esculpir facultam".
Muitos médicos literatos nunca exerceram a medicina clínica. Assim, em Guimaraes Rosa, o escritor sufocou o médico, o mesmo ocorrendo com Afranio Peixoto. Há, porém, exemplos diferentes. Luís Delfino, eleito príncipe dos poetas brasileiros, c1inicou e versejou até os 76 anos. Lembremos ainda, Jorge de Lima, morto em plena maturidade e que, ao lado do exercício prático da profissão, manteve o fogo sagrado da poesia.
Por este ligeiro apanhado, verifica-se que muitos médicos traziam, pela eloqüência e gosto no escrever, grande predestinação as letras. tendo sido alguns deles membros de academias. homens de sólida cultura geral e que enriqueceram, também, nossa profissão, com o frute de sua operosidade e de seu patriotismo.