O primeiro século da microbiolgia: Micróbio fez 100 anos

Com este título, tão interessante e sugestivo, um jornal leigo - Auto-Paulista (abril de 1978), através de comentarista anônimo, dos mais talentosos, refere, com razão, que a palavra micróbio acaba de completar um século. Realmente, foi, a 11 de março de 1878, que um cirurgião frances, Charles Sédillot, ao tempo com 74 anos, fervoroso adepto das idéias de Pasteur introduzia o termo micróbio na linguagem médica, em comemoração a Academia de Ciências, em Paris. Graeras a gentileza de meu amigo e colega Hélio Ferreira, tenho em mãos o trabalho original de Sédillot, cuja tradução é a seguinte: "A influencia das descobertas do senhor Pasteur no progresso da cirurgia". O genial pesquisador frances já havia demonstrado a existência de organismos microscópicos veiculados pelo ar atmosférico e capazes de provocar fermentações. Tais organismos ou germes, dizia Sédillot, constituem um novo mundo, "composto de espécies, famílias e de variedades, cuja história, apenas iniciada, já é fecunda em previsões e em resultados da mais alta importância".

Tais agentes recebiam nomes os mais diversos, tais como vibriões, microzoários, microgermes, microzimas, fermentos, bacterídias, zimases sépticas e outros, até que Sédillot resolveu batizá-los a todos com a palavra micróbio (vida pequena). Para consagrar-lhe o nome, o ilustre cirurgião frances foi se valer da respeitável opinião de seu amigo Litré (1801-1881), autor do famoso "Dicionário da Língua Francesa", um "Maníaco da Pena", no justo dizer de Michel Duroc, um de seu s biógrafos.

A palavra micróbio, afirmava Sédillot, tinha a vantagem de ser mais curta e de um significado  mais geral, Pasteur acolheu "a nova e feliz expressão proposta logo pelo Senhor Sédillot". Assim, a 29 de abril de 1878, em trabalho apresentado a Academia de Ciências, mostrava o sábio frances a importância dos "infinitamente pequenos" em medicina, citando o cirurgião Sédillot o qual previa a concepção e o nascimento de uma nova cirurgia, filha da ciencia e da arte e que seria uma das maravilhas do século, graças aos trabalhos de Lister e Pasteur.

A palavra micróbio fez carreira das mais brilhantes. Outros nomes tal vez mais corretos, como microrganismos, passaram a ser utilizados, mas, o primeiro, já ultrapassou o limiar de centenário, ganhou popularidade, por ser "conciso, elegante e engenhoso".

E já que falamos em micróbios, sabem os especialistas no assunto que um grupo deles -as bactérias, São divididas classicamente em Gram-positivas e Gram-negativas. Pois bem, Hans Christian Joachin Gram (1853-1938), foi um bacteriologista dinamarques que, em 1884, descreveu o método de coloração que traz o seu nome. A solução iodo-iodetada usada neste processo e denominada solução de lugol, tal vez o seja do nome de um seu técnico de laboratório, de nome Lugol. Disto, porém, não tenho segurança, foi o que nos referiu o Prof. Otto Bier, o grande vulto da microbiologia brasileira.

A palavra micróbio está intimamente vinculada ao nome de Pasteur, o químico que fundou a microbiologia e penetrou em toda a medicina. Que os pesquisadores de hoje continuem sempre a cultivar o seu nome, seguindo sempre seus ensinamentos, tudo para a maior glória de Deus e o bem-estar da humanidade.
 

A Microbiologia é uma das mais jovens ciências biológicas. Há um século aproxima-damente, um químico francés, Luís Pasteur, decidiu desviar sua atenção , de um estudo sobre os cristais de tartarato, para as perturbações que afetavam a indústria vinícola, em França. Meditando sobre o velho fenômeno da fermentação , ao qual devemos o pão e o vinho, Pasteur não podia aceitar a doutrina dos químicos que pontificavam na época, segundo a  qual aquele fenômeno era uma reação  química. Com 1875 assinalava: "a fermentação  alcoólica é um ato relacionado com a vida e com a organização  desses glóbulos (leveduras), e não com a sua morte ou putrefação ". Pasteur, logo no início de seu s trabalhos fez também a observação  básica de que certas bactérias só podiam viver na ausência do oxigênio. Alguns anos mais tarde publica sua célebre monografia - "O estudo dos vinhos", demonstrando a importância do "aquecimento diferencial" (ou pasteurização ), revolucionando assim toda a indústria européia do vinho e da cerveja estabelecendo definitivamente o interesse da microbiologia na indústria. Joseph Lister, cirurgião inglês, que trabalhava na Escócia, viu nos trabalhos de Pasteur, uma possível explicação  para a trágica sorte de tantos de seus doentes, que após ferimentos ou amputações, morriam de gangrena ou "envelhecimento do sangue". Tais processos eram provocados por esses "micróbios invisíveis", mas vivos, que Leenwenhoek, dois séculos atrás, denominara os seus "pequenos animálculos". Assinala o Prof. Crinckshank que, numa época dominada pelas ciências físicas, foi necessária grande coragem e pertinácia, aliadas a notável engenho e destreza técnica para que esses pioneiros da Microbiologia chegassem a convencer os seus confrades da validade dessas novas concepções. Dispunham, porém, de um apoio muito forte o do eminente físico John Tyndall, que se interessou pela nova ciência biológica e a quem devemos a "esterilização  intermitente" (ou tindalização ).
Pela mesma altura, Robert Koch, um médico alemão da província, demonstra no gado bovino e nas ovelhas de sua comunidade o agente do carbúnculo. A Microbiologia foi aos poucos se firmando, apreciando-se sua importância na economia humana e animal, bem como na indústria.
A contribuição  de Pasteur no domínio da Virologia foi, igualmente, muito fértil. Na Imunologia, ele também interviu como precur¬sor, ampliando o emprego da vacinação  contra numerosas infecções.

A Microbiologia Médica está intimamente relacionada com outras disciplinas do curso médico, englobando a etiologia, a patogenia (modo de infecção ) o diagnóstico laboratorial, o  tratamento da infecção , assim como a epi-demiologia (es tu do da doença nas populações) e a prevenção  da infecção  na Comunidade.
Ve-se, pois, que a Microbiologia desen-volveu-se originariamente como uma ciéncia aplicada, com particular interesse nos campos da Medicina, Agricultura e Indústria. Cedo, porém, se tornou evidente que a célula bacteriana e os seus produtos ofereciam vastas pos¬sibilidades ao biólogo, ao químico, ao físico, ao geneticista, ao farmacologista e a outros investigadores. Em sua forma livre, a célula microbiana, com suas modestas exigências nutritivas, desenvolvimento rápido e notável resistência, assim como um grande equipamento de enzimas e produtos difusíveis, constitui ma¬terial muito vantajoso para um estudo po¬rmenorizado e, durante as últimas décadas, a fisiologia bacteriana (por vezes chamada Química microbiológica) forneceu valiosas contribuições para o progresso de nossos conhecimentos sobre as chamadas Biologia celular e molecular. Associada ao bacteriófago, a célula bacteriana tornou-se extremamente útil aos estudos de Genética, enquanto que o bioquímico interessado nos problemas de enzimologia a considera como precioso ma¬nancial. Embora muitos dos progressos da Microbiologia geral não tenham interesse imediato no campo da Medicina, é necessário que o futuro médico se familiarize cada vez mais com a anatomia e a fisiologia da célula bacteriana. Esses dados históricos, muito sumários, foram extraídos do excelente livro do Prof. Robert Crinckshank - "Microbiologia Médica", em primorosa tradução  de Maria Souza dos Santos, graças aos auspícios da Fundação  Calouste Gulhenkian, de Lisboa. A obra em apre90, em sua edição  portuguesa, é prefaciada pelo Prof. José Ramos Bandeira, da Escola de Farmácia da Universidade de Coimbra.