Mordedura de Rato

O Dr. Arary da Cruz Tiriba e vários outros colegas do Hospital Emilio Ribas, publicaram na Revista da Associação Médica Brasileira (abril, 1971) interessante trabalho sobre mordedura de rato, com dados clínicos e epidemiológicos que o grande público deve conhecer, pelo menos em seu s aspectos gerais.

Em laboratórios de pesquisa, biotérios, depósitos de lixo, galerias pluviais, armazéns ferroviários, em silos, depósitos de construção, granjas, viveiros, em diversas culturas agrícolas (arroz, trigo, milho, amendoim), em presídios, manicómios, recolhimento de menores, alojamentos para desamparados, etc, o rato pode agredir o homem, criando problemas os mais diversos.

Assim, se o roedor agride ostensiva e espontaneamente, sup5e-se que a mordedura seja impulsionada por doença, admitindo-se, então, maior risco, como o da exposição a raiva. Se a ocorrência constitui réplica levada pelo instinto de defesa e ataque, as probabilidades recairiam mais propriamente nas infecç5es provocadas por leptospiras ou peloStreptobacillus moniliformis.

Enchentes e inundações provocam freqüentemente maior circulação dos ratos, levando a invasão do ambiente doméstico, favorecendo desta forma, as mordeduras.

Quando a mordedura é profunda, o animal pode aferrar-se a vítima com firmeza e determinação, ajudado pela sua poderosa arcada dentária, provocando algumas vezes mutilações graves. Estas, quando localizadas nos lábios e orelhas, por exemplo, podem criar nos doentes um sentimento de inferioridade, resultante da seqüela em si ou, então, do fato da vítima ter sido alvo de um animal repugnante. Das ocorrências observadas por Tiriba e seus colaboradores resultaram vítimas que manifestaram ou não sinais infecciosos pós-acidente. A população em geral não está alertada para mordedura de rato, como o está em relação ao do cão.

Tudo deve ser feito no sentido de se manter as habitações livres desses animais. O lixo é, indiscutivelmente, um grande "meio de cultura" para esses animais. Algumas vezes, o  rato revela para com o homem impressionantes disposições para a luta, em que pese a desproporção física. Assim, se morder, ele pode se fixar com firmeza, favorecido pela fúria ou, então, pela especial conformação de sua arcada dentária.

Caso dos mais tristes é o referido por Tiriba e colaboradores, de um pobre condenado, confinado em cela de "isolamento". A noite gritou e chamou sem ser ouvido. Na manha seguinte, foi encontrado morto. Até suas vísceras haviam sido devoradas pelos ratos que, em grande número, povoavam o local.

A desratização de presídios, sanatórios é, portanto, obrigatória. A conduta em relação a  vítima da mordedura, em se tratando de animal desconhecido é a da antissepsia local, imunização antitetânica, tratamento vacinal anti-rábico (semelhante ao da mordida do cão), profilaxia antibiótica durante 5 dias e avaliação clínica semanal do paciente, durante 6 semanas aproximadamente.

 O trabalho de Tiriba e colaboradores merece ser lido por clínicos, pesquisadores e todos aqueles que se preocupam com problemas de saúde pública e obras de saneamento básico.