As necessidades fisiológicas, respiratorias e outras segundo a psicologia evolutiva

Muitos séculos antes de Cristo, Esopo ilustrou a relação muito especial entre os homens e os golfinho numa fábula, O macaco e o golfinho. Conta a história de um navio naufragado; entre os marinheiros havia um macaco. Um golfinho confundiu o macaco com um homem e começou a levá-la nas costas, em direção à praia. Descobrindo seu erro no caminho, o golfinho deixa o macaco se afogar. Nessa fábula, Esopo mostrou estar ciente da proximidade de relação existente entre os humanos e os macacos. Muito antes dos zoólogos nos classificarem entre os primatas. Colocando-se no lugar de um mamífero marinho, ele sabia que um erro como esse era possível. Mas ao mesmo tempo Esopo demonstrou seu conhecimento da relação tão especial existente entre os humanos e os golfinhos. Usaremos essa fábula como ponto de partida para um estudo triangular dos pontos em comum e das diferenças entre macacos, humanos e mamíferos marinhos.

Há inúmeros estudos comparativos de humanos e macacos, inclusive estudos de fósseis, de anatomia, fisiologia e de comportamento. Todos os que tentaram determinar a época em que os hominídeos se separaram dos macacos apoiaram-se nas diferenças entre humanos e outros primatas.

Há muito menos estudos comparando humanos e mamíferos marinhos, e são mais anedóticos. Eles sempre se concentram num ponto específico, como o cérebro, ou mais precisamente no neocórtex, com o objetivo de determinar a inteligência dos mamíferos marinhos. O objetivo principal raramente é melhorar nosso entendimento do fenômeno humano. Entretanto, é provável que possamos aprender muito sobre a natureza humana a partir da comparação com os mamíferos marinhos.

À medida que o tempo passa, cada vez mais vozes proclamam a relação próxima entre humanos e mamíferos marinhos. Jacques Cousteau escreveu que a gravidade é o pecado original. A redenção virá somente quando nos voltarmos para a água, como os mamíferos marinhos fizeram no passado. Tcharkovsky também acredita que os seres humanos são mamíferos prontos para voltar a um ambiente aquático.

Àqueles que se perguntam se o homem está destinado a voltar para o mar, podem-se acrescentar aqueles que fazem a pergunta contrária: será que o homem era mais aquático no passado. Será que o homem aprendeu a ficar em pé no mar?



O macaco nu

Aausência de pêlos certamente é a diferença mais marcante entre o homem e o macaco. Esta é a principal diferença notada por Desmond Morris em seu famoso livro O macaco nu, onde ele nos lembra que, apesar do nosso grande cérebro, somos acima de tudo primatas. O livro começa assim: "Existem 193 espécies vi-vas de macacos e símios. Cento e noventa e duas delas são cober-tas de pêlos. A exceção é um macaco nu -que denominou a si mesmo de fiamo sapiens", Muitas teorias tentaram interpretar essa peculiaridade e as possíveis vantagens em termos de evolu-ção. Alegou-se que para nossos ancestrais a falta de pêlo foi uma forma simples de proteger contra o calor excessivo. Mas mesmo nos países mais quentes, não existe exemplo algum de um mamífero caçador que use esse método de proteção contra o calor. Os árabes nômades tiveram de inventar um manto vedado chamado de albornoz, com esse propósito.

Até o século passado alguns sugeriam que a nudez é a melhor proteção contra os vários parasitas de pele encontrados nas regiões tropicais. Darwin rejeitou essa interpretação, dizendo que se fosse esse o caso, outros animais que vivem nos trópicos teriam se livrado de seus casacos de pele para fazer frente ao mesmo problema. Darwin via as vantagens da nudez como um ele-mento importante da atração sexual. Desde então, enfatizou-sc que no campo da atração sexual as espécies sempre se beneficiam com o exagero de alguns aspectos e não com o desaparecimento deles. Também se discutiu que a pele nua torna a atividade sexual mais prazerosa, criando assim uma atração mais forte entre os membros de um casal. Mas, na verdade, não há certeza de que: uma maior sensibilidade ao estímulo erótico reforce o laço enll'd o casal e a tendência à monogamia.

Voltemo-nos agora para a comparação entre os humanos e os cetáceos (golfinhos, baleias e peixes-boto). A ausência de pê nao é uma característica presente na maioria dos mamíferos mar! volta do corpo. É interessante notar que o homem perdeu os pêlos praticamente em todas as partes do corpo, a não ser na cabeça, a única parte do corpo que fica fora da água quando ele nada. De fato, não é totalmente verdade que o homem é destituído de pêlos. As raças caucasianas têm uma penugem quase invi-sível, que cobre a maior parte do corpo. Mas em relação à resistencia à água ao nadar, não faz diferença alguma se os pêlos sumiram completamente, como em algumas raças negras, ou deixaram alguns vestígios.

Por outro lado, uma camada de gordura subcutânea é comum a todos os mamíferos adaptados à água. Essa camada de gordura protege-os do frio e também os torna mais flutuantes. Torna seus corpos mais aerodinâmicos, mas "aquadinâmicos". Essa característica dos seres humanos aparece numa idade muito precoce. Comparado com o bochechudo bebê humano o bebê macaco é magro e ossudo. Se fosse como o macaco, o bebê humano não pesaria mais de 1.800g ao nascer. No caso dos bebês a gordura subcutânea dá mais o que pensar. Na verdade, nessa idade o alimento na forma de leite está garantido por muitos meses e não há necessidade alguma de armazenar reservas.

Quando se olha para o ser humano como um primata adaptado à água, o significado da nudez e da gordura subcutânea deixa de ser um mistério. A pele e a gordura subcutânea do Hippopotumus amphibius juntas pesam 450kg!

 

 

As necessidades fisiológicas

O macaco que sua

Há também alguma importância no suor, que confundiu muitos cientistas. O homem foi chamado de o "primata que sua"; ele é um primata que ganha a vida "pelo suor de seu rosto". Talvez nessa frase do Gênesis, o sentido literal da palavra "suor" seja algumas vezes negligenciado. O controle da temperatura do corpo por meio da perda de suor sempre foi considerado um erro biológico. É um mecanismo dispendioso, que retira do organismo grande quantidade de água, de só dia e de outros elementos essenciais. Isso não faz sentido, para aqueles que consideram o ser humano um primata que mantém as características de um feto ou de um bebê na idade adulta. De fato, o bebê humano não controla a temperatura corporal por meio do suor nas primeiras semanas após o nascimento.

A pele de um humano adulto pode perder imensas quantidades de suor. Sua pele é dotada de 150 a 400 glândulas sudoríparas (chamadas glândulas ecrinas), por centímetro quadrado. As glândulas ecrinas, mais dispersas nos macacos, respondem à emoção mas não ao calor. Outras espécies que aparen-temente suam, tais como os cavalos, estão na verdade usando suas glândulas de sinalização de cheiro.

É possível se tàzer novas interpretações quando consideramos o ser humano como um primata adaptado a ambientes onde a água e os minerais estão disponíveis sem restrição.

 


O macaco bípede

 

Existe uma outra diferença evidente entre o homem e o macaco e na verdade entre o homem e outros mamíferos ligados à terra: o homem é ereto e anda com duas pernas. Muitas pessoas se perguntaram por que, originalmente, o homem adotou essa posição instável e cansativa, que o coloca em conflito constante com a gravidade.

Certamente, a posição ereta tem a vantagem de liberar as mãos para o uso de instrumentos e armas. Isso também capacitou a visão à longa distância. Mas alguém ainda pode se perguntar como foi possível abandonar as quatro patas, algo que torna o movimento mais rápido e mais seguro em qualquer tipo de terreno.

Alguém poderia argumentar que nossa adaptação à posição ereta não é perfeita. Uma adaptação incompleta e difícil à posição ereta é a única interpretação possível para algumas condições patológicas específicas dos humanos. As hérnias de virilha podem ser consideradas o preço pago por estarmos sobre duas pernas. As hérnias são comuns nos humanos, mas desconhecidas na medicina veterinária. Quando eu fazia cirurgia, tinha um interesse especial pelas hérnias. O fato de que elas podem ocorrer somente nos humanos influenciou minha estratégia como cirurgião. Fiz um filme curto baseado na idéia de que o objetivo da operação não devia ser simplesmente extrair a hérnia; em vez disso, a região deveria ser tratada de uma outra forma - deveria ser reconstruída. Dores nas costas levam milhões de pacientes aos médicos e terapeutas todos os dias. Uma vez mais, vemos uma condição patológica especificamente humana, causada pela adaptação imperfeita à posição ereta. C o m p a r e mos agora os seres humanos com os animais marinhos e teremos uma nova visão de sua condição de bípede.

Pense nos pingüins. Quando estão em terra, têm um modo de andar quase humano, que não é comum entre os pássaros; quando nadam alinham os membros ao corpo. Horizontalmente, como os humanos. Para muitos mamíferos marinhos, quando estão perto da praia ou quando sua curiosidade é despertada, a posição vertical é a favorita na água. É como os golfinhos domésticos ficam quando estão esperando comida ou ordens do treinador. O mesmo acontece com os peixes-bois e com os manatis, quando a mãe está amamentando seus bebês. É evidente que um primata adaptado à água tenha a tendência de colocar em posição ereta para conseguir para a frente sem sair do fundo.

Genericamente falando, seja numa posição ereta ou seja numa posição horizontal, a espinha dorsal dos mamíferos marinhos está alinhada com os membros posteriores. Esse é o elemento comum essencial entre humanos e cetáceos. A adaptação à água condiz com a grande flexibilidade da espinha dorsal, que é uma outra peculiaridade dos humanos comparados aos macacos, e um outro ponto em comum entre humanos e cetáceos. Graças à grande flexibilidade da espinha, alguns humanos podem cobrir uma distância de cem metros em menos de um minuto, nadando no estilo borboleta, usando as pernas para dar impulso, semelhante a um golfinho. Não há exemplo algum de um macaco que possa curvar-se para trás.

 

 

O macaco orgásmico

Os humanos também são diferentes de todos os outros primatas no modo de fazer amor. No caso do macacos, e dos quadrúpedes apoiados à terra, o macho monta na fêmea por trás. Em todas as culturas humanas, a posição mais comum é face a face, mesmo que outras posições sendo possíveis e praticadas. Essa é a melhor posição para a direção da vagina, que se inclina para a frente. Muito já se disse sobre a possível correlação entre cópula face a face e monogamia. A copula face a face combina com a estimulação de um grande número de zonas erógenas. Essa posição torna o contato do corpo o mais próximo e íntimo possível, aumenta a atração entre os parceiros sexuais e consolida a relação. Essas questões são atuais, numa época em que os cientistas estão tentando entender qual seria a base fisiológica da atração entre o casal. Ambos os parceiros secretam uma grande quantidade de opiáceos, de endorfinas, durante a relação sexual. Uma propriedade dos opiáceos é desencadear hábitos de dependência. Quando se compreende isso, se observa que o contato corpo a corpo próximo, junto com um nível alto de endorfinas, poderia levar ao início de um hábito; em outras palavras, um laço que uniria o casal. A atração entre os membros de um casal tem como modelo o laço entre a mãe e o bebê. Tanto a mãe como o bebê têm um nível alto de endorfinas logo depois do parto e provavelmente depois da amamentação também.

Essas questões são especialmente relevantes numa época em que os cientistas percebem algumas vantagens biológicas da monogamia - ou, pelo menos, da monoandria - entre os humanos. Parece que quando uma mulher tem um mesmo parceiro para gerar todos os seus filhos, ela até certo ponto corre menos risco de ter um aborto, uma toxemia e uma pré-eclampsia. Alguns abortos podem ser evitados quando se reproduz artificialmente a condição de uma mulher que teve vários filhos com o mesmo homem: o sistema imune da mulher é preparado com algumas células brancas do futuro pai, que ela recebe na forma de uma injeção antes de ficar grávida.

As coisas não são simples, porém, e alguns membros da família dos macacos (gibões, sagüis e mandris, que não copulam face a face), são primatas mais monogâmicos do que os humanos. O que esses animais têm comum é um fraco impulso sexual.

Uma vez mais, o que torna o homem uma exceção entre os primatas é a regra entre os cetáceos. Há muitas descrições de mamíferos marinhos acasalando e parece que isso sempre acontece face a face, com exceção das focas e dos leões-marinhos quando estão na praia. Essas descrições não apenas fornecem informações interessantes sobre a posição, como também sugerem que a fêmea, tanto quanto o macho, atinge um estado orgásmico. Victor Schaffer, descrevendo o acasalamento de baleias, escreveu: "No final o par se eleva acima do mar, focinhos negros contra o céu". Isso foi expresso poeticamente por Heathcote Williams:
Com um último movimento, poderosamente agitando as caudas em uníssono a cinqüenta pés de profundidade. Impelem-se para cima. Galões de água jorrando por seus flancos, Saltam ambos límpidos. Colados um no outro. soltos no ar, para seu Imenso orgasmo.

R. M. Martin escreveu sobre os golfinhos: "O que parece amor verdadeiro é transmitido entre os dois indivíduos participantes". Esse êxtase partilhado pode ser mais um elemento em comum entre seres humanos e cetáceos. Os humanos tornaramse mais orgásmicos graças ao poder da água? A mulher, diferente da macaca, pode ter relação sexual durante todo o ciclo menstrual. Este é um outro elemento em comum com a golfinho fêmea, que faz amor várias vezes por dia, durante o ano todo, mesmo quando não está "excitada".
Os golfinhos têm uma vida sexual incrivelmente ativa. Eles se masturbam desde uma idade precoce e buscam promíscuos contatos homossexuais e heterossexuais, que parecem ser puramente sociais. Já afirmou-se que a intensa atividade sexual desligada de metas reprodutivas está relacionada a um cérebro grande e a um neocórtex desenvolvido.

Em Sind, uma província do Paquistão, no vale do baixo Indo, a fêmea golfinho é um símbolo sexual. Uma mulher ninfomaníaca é chamada de bulham, que é uma variedade de golfinho de água doce. De acordo com a lenda, o primeiro bulham nasceu de uma mulher que costumava fazer amor com golfinhos. Os trovadores locais até hoje celebram juntos o Indo, os golfinhos e o amor.

A comparação do comportamento sexual dos humanos e dos mamíferos marinhos revela a importância das recentes observações de um macaco muito especial, o chimpanzé pigmeu, ou bonobo. Esse macaco não é muito conhecido pelos cientistas porque vive nas florestas densas e inundadas do Zaire. Recentemente, Frans de Waal, do Zoológico de San Diego, publicou alguns documentos valiosos. Fotos demonstram que os hOl1obos normalmente copulam face a face e são orgásmicos. I 'ode-se ver uma fêmea orgásmica mostrando os dentes durante () ato sexual. Um som de longo alcance é ouvido durante esse tipo d(' copulação. Percebe-se que a vulva da bonobo é orientada na direção frontal, como a humana. Esses macacos têm muita atividade sexual. Eles têm contatos sexuais com qualquer parceiro, macho ou fêmea, de qualquer idade, e em qualquer posição.

O macaco que chora

As lágrimas são o símbolo das emoções humanas. Foi através das lágrimas que Maria Madalena viu Jesus ressuscitado. As lágrimas sempre contaram com um status especial, se as compararmos com as outras secreções do corpo. Em seu livro sobre amamentação, lna Mary Gaskin, a famosa parteira americana, resume com humor a atitude humana comum em relação às lágrimas: 'Se você assiste a um mesmo canal de televisão por alguns dias, pode facilmente ter a idéia de que as lágrimas são a única secreção socialmente aceita do corpo humano, desde que sejam derramadas somente por mulheres e por crianças". Novamente, o homem é a exceção. Ele é o único primata que enche os olhos d'água para expressar certos sentimentos. Embora um chimpanzé possa expressar uma ampla gama de emoções, nunca se verá uma lágrima em seu olho. Aqui, uma vez mais, está um enigma difícil de resolver quando se compara o homem com os outros animais terrestres. Mas esse enigma é resolvido imediatamente assim que se olha para os mamíferos marinhos: glân-dulas lacrimais e outras glândulas salgadas significam adaptação ao mar. Crocodilos de água doce não vertem lágrimas, enquanto crocodilos marinhos sim. Lagartos da terra não choram, mas lagartos dos mares tropicais, os iguanas, sim.

Todos os pássaros do mar têm grandes glândulas nasais que secretam grandes quantidades de líquido salgado, o equivalente às lágrimas. As lágrimas humanas também fluem através do nariz. Durante alguns estados emocionais especiais, ou quando o dueto nasolacrimal está obstruído, é que nossos olhos são inundados. As lágrimas dos mamíferos marinhos foram par-ticularmente estudadas em focas e lontras. Quando uma mãe  lontra marinha é separada de seu bebê, chora como uma mãe humana.

E claro que a função excretora da glândula lacrimal humana é desprezível, mas serve como vestígio dessa função e dá aos cientistas alguma idéia do lugar do homem no mundo animal. Nossos rins têm o glomérulo para nos proteger contra o excesso de água e sal e os túbulos para nos proteger contra a falta de água e sal. Para os animais marinhos a prioridade é eliminar o excesso de sal. Com sua imensa concentração de sal, as lágrimas não podem ser interpretadas de outro modo senão como sinal de adaptação ao mar. Mesmo se a função excretora das lágrimas for desprezível na prática, é importante ressaltar que a composição das lágrimas causadas por uma substância irritante como a cebola é diferente daquela causada por emoções (existe uma quantidade menor de hormônios importantes). As lágrimas foram usadas como um modo não-invasivo e simples de se determinar as percas hormonais.

O macaco atraído pela água

O ano inteiro, no verão, em todos os continentes, na costa de todos os oceanos e de todos os mares, milhões de seres huma1I0S passam dias inteiros olhando para a água, remando ou brincando entre as ondas.
Há muitos modos pelos quais os seres humanos mostram que são atraídos pela água. A criança pequena que quer arrumar a cozinha com sua mãe está usando isso apenas como desculpa para brincar com água. Todos os esportes aquáticos são populares, tanto para assistir como para participar, seja uma competição de veleiros, surfe, windsurfe, pólo aquático ou aquatics - um de balé no limite entre o esporte e o show erótico.
Essa atração pela água também diferencia o Homo sapiens dlls outros macacos.

A água significa um modo de escapar da dura realidade. Jung sabia disso quando publicou Man and his simbols (O homem e seus símbolos). Ele conta a história do filme Crin bianc (Crina branca), sobre um cavaleiro jovem que tem de escapar de um grupo de caçadores para salvar o cavalo selvagem que ele está cavalgando. Quando é cercado pelos caçadores, o moço e seu cavalo escapam da realidade desaparecendo no mar.
Há exceções, porém. Foi relatado que gorilas nos zoológicos foram vistos nadando de peito. Entretanto, é significativo que um artigo contendo observações de chimpanzés pigmeus andando na água e pegando peixes fosse intitulado de "um chimpanzé incomum". Outras exceções entre os macacos incluem os macacos japoneses, que se adaptaram à vida na praia de uma ilha e não têm medo da água. É interessante notar que esses macacos adaptados à água são muito inteligentes e sabem ensinar truques aos outros membros do grupo; eles descobriram um modo de lavar batatas no mar. Um tipo de macaco japonês, o "macaco da neve", descobriu que podia se aquecer nadando em fontes quentes.

Os humanos nadam por prazer. Isso não é resultado de qualquer condicionamento de nossa civilização. Quanto mais jovem uma pessoa é, menos sujeita está a qualquer condicionamento, e mais ama a água. Olhe para as crianças pequenas numa piscina. Quanto mais novas, mais felizes. Quanto mais novo é o bebê, mais fácil para ele nadar. No ambiente adequado, um bebê pode nadar antes de andar. É claro, os jovens têm uma capacidade extraordinária para aprender, contanto que seja numa atmosfera alegre, e isso vale não só para a natação. Ensinaram crianças muito novas a ler e a fazer contas rápidas. Mas isso é diferente de aprender a nadar. O bebê humano está perfeitamente adaptado à água ao nascer. Tudo o que ele precisa é a chance para cultivar essa adaptação. Isso já era sabido na época dos gregos e dos romanos, é saber comum em algumas ilhas do Pacífico e foi redescoberto por diversos professores de natação.

Não só os seres humanos têm habilidade para nadar, mas Igor Smirnov acha que aqueles que o fazem durante o início do seu desenvolvimento parecem estar à frente de seus contemporâneos. Ele realizou uma investigação na Policlínica de Crianças N° 10 em Leningrado, com um grupo de crianças que não haviam nascido na água, mas que nadavam regularmente desde os primeiros dias de vida. Ele estudou muitos aspectos do desenvolvimento delas, incluindo a habilidade de classificar pela forma e pela cor e a reprodução de monossílabos, e chegou à conclusão de que o ambiente aquático favorece o desenvolvimento precoce da fala.

Veremos os dados na foca Weddell, que vive no litoral e nas costas geladas da Antártida. Pode ser que esses mecanismos não sejam muito diferentes daqueles dos humanos, mas são muito mais desenvolvidos. Essa espécie de foca é capaz de mergulhar mais de 500 metros e permanecer embaixo d'água por mais de uma hora. O sangue representa 14 % do peso do corpo da foca, comparados aos 7 % dos humanos. No sangue da foca há 70 % de reserva de oxigênio, comparados aos 51 % dos humanos. A proporção é de 25 % e de 13 % respectivamente, para o oxigênio armazenado nos músculos. Durante um mergulho, o sangue é redistribuído. Quando as focas estão mergulhando, o sangue continua sendo fornecido em proporção normal para arcrina, cérebro, medula espinhal, glândulas adrenais e placenta, enquanto que o fluxo sanguíneo é cortado para órgãos como os rins, que param de funcionar. Foi demonstrado que o ritmo cardíaco do feto não diminui de velocidade quando sua mãe mergulha, embora seu reflexo de mergulho seja mais lento e menos pronunciado do que o de sua mãe. É como se o feto "soubesse" que sua mãe está mergulhando.

Há um outro mecanismo de mergulho que geralmente passa despercebido, mas que é de interesse quando comparamos o homem, o macaco e os mamíferos marinhos: as narinas da foca ficam fechadas quando ela está embaixo d'água. Esse é um mecanismo comum de adaptação à água. Entre os animais terrestres, apenas os camelos podem fechar as narinas a fim de impedir a entrada de areia.

E significativo que um dos únicos artifícios usados por Mayol quando mergulha seja um pregador de nariz. Esse é um modo de proteger as cavidades nasais contra a pressão excessiva. Em face disso, se poderia pensar que, no que concerne às narinas, dificilmente existe vestígio de qualquer mecanismo adaptativo. Mas deve-se notar antes de mais nada que os outros prima tas não têm narina, a não ser a probóscide do macaco macho, que é o único primata semi-aquático. Também não é totalmente exato afirmarmos que as focas abrem as narinas quando saem da água. Alguns músculos se contraem para abrir as narinas e simplesmente relaxam para fechá-las. De fato, os humanos têm músculos rudimentares capazes de alargar levemente as narinas, mas quando esses músculos estão completamente relaxados, as narinas não se fecham. Usamos esta habilidade de alargar sutilmente as narinas ao expressar certos sentimentos, como a raiva. É significativo que o extinto homem com "pé-de-pato", chamado Agaiumbu, que habitou uma lagoa na Nova Guiné, tivesse imensas narinas, que pareciam dilatar-se e contrair-se, de acordo com o relato de C. A. W Monckton, no início do século XX.

Pode-se fazer uma ligação entre as habilidades de mergulho dos humanos e a recente descoberta de que algumas pessoas podem sobreviver longos períodos em imersão total, sem sofrer dano cerebral após ressuscitar. O caso mais espetacular ocorreu em 1977, quando um jovem recobrou a consciência depois de trinta e oito minutos embaixo d'água, no lago Michigan; Mayol gosta de se referir a esse caso como evidência da adaptação aquática do homem.

Os humanos são dotados de mecanismos de controle fisiológico de mergulho, mas também são fascinados pela vida embaixo d' água. Não é por acaso que uma das obras mais atraentes de Júlio Verne seja Vinte mil léguas submarinas, a história do Capitão Nemo e de seu submarino Nautilus. Hoje, graças aos tubos de oxigênio e de outros artifícios sofisticados, podemos satisfazer nosso desejo de estar embaixo d'água com mais facilidade. Há guias de mergulho em tempo integral, como Dee Scarr, que pratica nas Bahamas e nas Antilhas. Seu programa "Entre em contato com o mar" é uma sessão de mergulho dirigida e personalizada. Scarr sabe quando as crianças têm curiosidade sobre a vida embaixo d' água, e seu livro infantil "Recife de corais" é sobre um polvo falante.

Não é exagero dizer que a era do lazer submarino já começou. Existe hoje uma nova geração de turistas subaquáticos, graças a submarinos de turismo, seguindo a tendência introduzida pelo Auguste Piccard, que operava nas águas do lago de Genebra durante os anos 60. Os modernos submarinos "espelho" podem disparar jatos de comida para peixe, para atrair a vida marinha. Como foram geniais os homens que compreenderam que, para transmitir joie de vivre4 para todo mundo você tinha apenas de repetir "we alllive in a yellow submarinc", acrescentando ao fundo o som de água.

 

O macaco falante

 

A linguagem muitas vezes é apresentada como o abismo que separa os seres humanos do mundo animal. Seja para realçar esse abismo, seja para fazer o oposto e desafiá-Io como uma barreira insuperável, o caminho mais comum é estimular a capacidade lingüística dos macacos, até seu limite. Isso nunca levou a um desempenho muito espetacular. Foram necessários seis anos de esforço incessante para que a chimpanzé Vicky fosse capaz de falar, muito indistintamente, quatro palavras bem simples como "mamãe", "papai", "xícara" e "para cima". Por contraste, a chimpanzé Washoe, assim como os gorilas Michael e Koko, adquiriram rapidamente um vocabulário muito maior, aprendendo a linguagem de sinais dos surdos-mudos. Sabe-se muito bem que os macacos se comunicam acima de tudo por gestos, atitudes e expressões faciais. Não é por acaso que em muitas línguas "macaquear" quer dizer imitar através de movimentos e gestos. Isso não quer dizer que os macacos não possam algumas vezes expressar sentimentos fortes com sinais vocais espontâneos, involuntários.

A comunicação humana não foi comparada com a dos mamíferos marinhos na mesma extensão. Mamíferos marinhos comunicam-se principalmente com sons, que é algo que eles têm em comum com os humanos Hoje em dia é difícil não acreditar que os golfinhos têm uma linguagem genuína. Eles não só produzem sons de assobio, como aparentemente ficam quietos escutando o assobio de outro golfinho. Quando um golfinho começa a assobiar, outros golfinhos do grupo começam a assobiar também, mas nunca antes do primeiro ter terminado É como se ninguém interrompesse ninguém no mundo dos golfinhos. As formas de comunicação entre golfinhos ainda são misteriosas. Por exemplo, dois golfinhos isolados um do outro em tanques diferentes, podem transmitir um ao outro um truque para abrir o tanque reservatório de peixe.

Talvez a forma de comunicação dos golfinhos esteja ligada à sua habilidade para saber onde estão por meio do eco, como os morcegos. Talvez eles sejam capazes de transmitir verdadeiras descrições de objetos, cópias exatas do que podem identificar por um sistema de "ecolocalização". É possível que os golfinhos se comuniquem de uma forma que ainda não entendemos, ou que achamos difícil de entender. Parece também, que eles podem alterar seus estados emocionais por meio dos sons. O poderoso efeito dos sons sobre as emoções pode ser algo que os humanos têm em comum com os cetáceos. Sons têm efeitos poderosos sobre seres humanos. O poder dos sons pode ser comparado ao poder da água.

Assim como o poder terapêutica da água sempre foi usado, sempre existiram pessoas pesquisando a capacidade curativa dos sons. As sociedades primitivas dão mais importância às canções mágicas na cura dos doentes do que às plantas medicinais.

De um modo semelhante, em muitas culturas de todo o mundo, o canto e a música fazem parte do sentimento religioso. Nas civilizações antigas, qualquer som audível era considerado uma manifestação do som metafísico fundamental, que os hindus chamam de OM. Esse som primordial, embora inaudível, está presente em tudo, como uma vibração divina. As igrejas de todo o mundo sempre estimularam o sentimento religioso através do canto e da música. A música clássica ocidental aparentemente teve suas origens na música religiosa medieval. J. S. Bach afirmava que a música existia para glorificar a Deus e para aperfeiçoar o homem. Uma sensibilidade tão grande aos sons pode ser outro elemento comum entre humanos e golfinhos.

 

 

Os mecanismos respiratorios

 

Somente os humanos têm uma linguagem articulada. Mas o que torna isso possível? A fala significa, em primeiro lugar, a capacidade de controlar o ritmo respiratório. E o controle do ritmo respiratório não pode ser dissociado da capacidade de mergulhar. A linguagem articulada também significa uma laringe rebaixada, isto é, ter a capacidade de levantar e relaxar o véu nasal, de forma que a cavidade nasal pode estar ligada ou desligada do resto do trato respiratório. Na maioria dos mamíferos, a laringe se liga diretamente com a parte posterior das passagens nasais. Em outras palavras, um canal das narinas para os pulmões permanece aberta todo o tempo, de forma que os mamíferos podem engolir e respirar ao mesmo tempo. Bebês recém-nascidos humanos respiram pelo nariz até os 3 meses de idade, quando a laringe se rebaixa.

A laringe rebaixada parece ser uma característica de todos os membros da nossa espécie. Uma equipe de Te! Aviv registrou um osso hióide de um esqueleto Neandenrthal de 60.000 anos na Caverna Kebara, no Monte Carmel. Quando há um osso hióide, que apóia onze importantes músculos que ligam o crânio à laringe, significa que a laringe não está diretamente conectada com a passagem nasal e que pode ser mobilizada.
Interessante notar que a água é o único ambiente no qual o canal permanentemente aberto entre as narinas e os pulmões  deixa de ser vantajoso. Respirar pela boca pode satisfazer uma necessidade urgente de inalar grandes quantidades de ar antes de mergulhar ou quando se volta à superfície

 


O macaco que come peixe.

 

Já se prestou muita atenção às diferenças na dieta de humanos e de chimpanzés. Os macacos vivem de uma dieta de frutas e de outras plantas. Os humanos são ominívoros; tanto caçam como colhem. É comum pensar que comer carne é algo que apenas os humanos fazem no mundo dos macacos. Mas as coisas não são assim tão simples e em certas circunstâncias os chimpanzés machos podem se tornar caçadores e comer carne, enquanto os chipanzés fêmeas podem comer pequenos insetos, como cupins.
Há um outro aspecto da dieta humana que vale mencionar. Os humanos comem peixe e marisco. Além disso, nos últimos anos, os nutricionistas perceberam a enorme importância do peixe e de outros frutos do mar na dieta humana. Esta nova consciência surgiu graças a um maior conhecimento dos diferentes ácidos graxos e de seu metabolismo.

Agora é aceito de forma geral que o homem moderno tem tendência a consumir muita gordura animal e de não ingerir quantidade suficiente de ácidos graxos de origem vegetal. Além do mais, atualmente sabe-se que a saúde dos humanos melhoraria se as pessoas comessem mais ácidos graxos existentes nos óleos de peixe.

A seborréia é simplesmente a secreção excessiva de sebo. A acne acontece quando o ducto da glândula está bloqueado por um tampão de queratina. Quando a glândula atinge um tamanho considerável, por exemplo no couro cabeludo, é um cisto sebáceo. A hiperatividade das glândulas sebáceas é tão comum entre os adolescentes que poderia ser considerada um estágio normal no desenvolvimento da pele humana. Que processo é esse?

Os mecanismos de controle da respiração especificamente humanos (os mesmos que tornam a fala possível) foram interpretados com relação à habilidade humana para mergulhar. Durante o período crítico em que os mecanismos de controle corticais ainda estão se desenvolvendo, o bebê adormecido é vulnerável. Ele precisa do melhor ambiente possível. Principalmente, ele precisa de uma certa quantidade de dióxido de carbono, o estimulante fisiológico da respiração. O bebê tem receptores do dióxido de carbono na mucosa nasal. O melhor modo de o bebê evitar a perda de dióxido de carbono na atmosfera em que dorme é partilhar o quarto com os pais. Quando um bebê dorme com sua mãe, eles trocam seus dióxidos de carbono expelidos.

Bastante interessante, a morte no berço é excepcionalmente rara em Hong Kong, onde as condições de moradia são extremamente difíceis e onde a densidade demográfica está entre as mais altas do mundo. Como o doutor P. Davies escreveu no Lancet:

"Em Hong Kong, nunca se pergunta "quando devo pôr o bebê para dormir no seu próprio quarto?"
É possível que num futuro próximo tenhamos dados suficientes para ligar algumas doenças metabólicas humanas com nossa adaptação ao mar. Por exemplo, algumas pessoas desenvolvem o endurecimento grave e prematuro das artérias, ou arteriosclerose, que está relacionado à ausência de um fator essencial para a regulação das gorduras do sangue. Todos os mamíferos têm esse fator, que é chamado apoproteína E (ou apo E), a não ser os leões-marinhos e as focas-do-porto. Mas os leões-marinhos e as focas-do-porto alimentam-se exclusivamente de peixe. O ácidos graxos ômega 3, preponderantes na dieta desses mamíferos marinhos, criam condições metabólicas totalmente diferentes. Talvez eles não precisem de apoproteína porque seu único alimento é o peixe, ou talvez tenham um outro fator protetor ainda não descoberto.

O estudo das doenças pode ser feito junto com o estudo das anormalidades congênitas. Sabe-se que quando uma anormalidade congênita toma a forma de um aspecto acrescentado, em geral significa que aquele aspecto teve uma razão para estar ali durante o processo de evolução. Uma das anormalidades mais comuns é a membrana entre os dedos do pé. Em 1926, analisouse um grupo de 1000 crianças de escola e descobriu-se que 90 meninos e 66 meninas apresentavam a membrana entre o segundo e o terceiro dedos. Os agaiumba da Nova Guiné, que desaparcceram no início deste século depois do massacre por uma tribo vizinha, estavam perfeitamente adaptados à vida aquática. Eles tinham um crescimento epidérmico entre os dedos do pé e eram romumente descritos como "pés de pato". De fato, o pé do homem é completamente diferente do pé do macaco, pois o dedão está ligado aos outros dedos no pé do homem, mas separado no dos macacos. Essa ligação entre os dedos poderia ser considerada lI ('quivalente de uma membrana. Do mesmo modo, o triângulo na pele que nos impede de fazer um ângulo de mais de 90° entre  polegar e o indicador é uma característica não encontrada em todos os primatas.

Quando o parto entre os humanos é comparado com o dos macacos, as diferenças mais surpreendentes são as dificuldades mecânicas encontradas em nossa espécie. Os macacos não têm uma cavidade pélvica real e a vulva está perfeitamente centrada. As medidas da cabeça do bebê são sempre menores do que a estrutura óssea da mãe. Nos humanos, o diâmetro da cabeça do bebê (entre a testa e o occipital) é maior do que o diâmetro anteroposterior da pelve da mãe. Ocorre o mesmo se você medir a distância entre os ombros do bebê. Durante o nascimento, o corpo humano tem de seguir uma jornada complexa, na forma de uma espiral.
A maior parte dos primatas dá à luz na intimidade da noite, sem qualquer ajuda. Num ambiente selvagem, a mãe macaca geralmente come a placenta e tende a engolir tudo a seu redor que esteja ensangüentado. Alguém poderia dizer que não existe diferença básica entre o parto dos macacos e o da maior parte dos mamíferos terrestres.

Por contraste, os golfinhos e outros mamíferos marinhos têm dois fatores peculiares no que diz respeito ao parto. Primeiro, em geral existe uma fêmea experiente, uma parteira, pronta para receber o bebê e levá-la à superfície, para que ele possa respirar pela primeira vez. O parto é um acontecimento feminino. Os machos protegem o círculo de fêmeas à distância, prontos para matar os tubarões, os únicos e perigosos predadores dos bebês golfinhos. Os golfinhos machos podem matar tubarões golpeando-os no flanco, no fígado. Segundo, a mãe golfinho não come a placenta como os outros mamíferos fazem.

Esses dois comportamentos tornam os golfinhos diferentes em relação aos outros mamíferos e semelhantes ao humano. Ter o parto assistido por uma mulher experiente (uma parteira) é a regra em muitas culturas. Isso é o que a história e a antropologia nos dizem. Parece que em culturas muito primitivas, antes da era do metal, a mulher em trabalho de parto costumava se isolar e dar à luz sem ajuda. Isso é mostrado num filme feito entre os eipos, uma tribo da Nova Guiné. Ocorre aparentemente o mesmo em muitas outras culturas, tais como os índios do Canadá ou os turcomanos perto do Mar Cáspio. Em culturas onde as mulheres se isolam, os partos não são considerados muito difíceis ou dolorosos.

Ninguém sabe como nasciam os caçadores-coletores há mais de 50000 anos, nas regiões tropicais. Pode-se perguntar se as condições climáticas e o tipo de moradia tornavam possível para as mulheres em trabalho de parto se isolarem e pedirem a juda se necessário?

Depois de estar envolvido em trabalhos de parto de milhares de mulheres, vindas de diferentes culturas e ambientes, cheguei à conclusão de que os partos mais fáceis e rápidos requerem isolamento no período inicial e ajuda apenas no parto em si.

 

O macaco de cérebro grande

O cérebro humano em geral é considerado o órgão que nos dá domínio sobre todas as formas de vida no planeta. Aparentemente é a estrutura mais complexa que conhecemos no universo. Talvez seja tão complexo quanto o próprio universo. Também não é complexo estar incluído num estudo triangular do homem-macaco-golfinho?

Não é sacrilégio comparar o cérebro humano com o cérebro do macaco. Muitas pessoas já fizeram isso. Estudos objetivos demonstraram diferenças apenas no tamanho, no desenvolvimento e na complexidade do neocórtex. Mas não existe nenhuma diferença em sua natureza básica e nenhuma estrutura nova foi adquirida pelo homem. Pode-se apenas concluir que o homem atingiu um grau de encefalização que o torna diferente dos outros primatas.

Por contraste, embora as baleias e os golf-inhos pertençam a uma classe de mamíferos muito distante dos primatas, partilham com o homem um enorme desenvolvimento cerebral, aparentemente da mesma escala. Pode-se até mesmo afirmar que o grau de encefalização do golfinho é maior do que o do homem, se compararmos apenas peso e tamanho. Vale notar que 95,9 % do cérebro humano está coberto pelo neocórtex, enquanto que este cobre 97,8 % do cérebro do golfinho.

Entretanto, as coisas não são tão diretas. Em primeiro lugar, 20 % do cérebro do golfinho é composto de cerebelo, que controla a coordenação dos movimentos. Certamente não é por acaso que os golfinhos são tão graciosos c tão perfeitamente coordcnados. Segundo, ao avaliar o grau de enccfalização, uma pessoa tem de levar em conta o número de camadas de células do córtex, a densidade das células, a quantidade de dobras na superfície e o grau de especialização das diferentes regiões. Quando todos esses fatores foram considerados, as comparações se tornam difíceis e qualquer interpretação mostra-se contraditória. A diferenciação das camadas celulares é menos definida do que no homem. A densidade das células é menor, mas a área de superfície total é muito maior, por causa da complexidade e do grande número de camadas. No total, o número de células neocorticais seria quase o mesmo, tanto no golfinho como no homem, mas nos golfinhos as células estão mais espalhadas.

O principal nessas comparações é contrastar a inteligência do homem com a do golfinho. Mas essa avaliação leva em conta somente uma forma de inteligência -- a especificamente humana. E esta discussão pode nos levar longe na compreensão aprofundada do comportamento dos cetáceos. Talvez eles tenham um tipo de inteligência que é impossível de ser medida por nossos próprios critérios. Como não conseguimos imaginar outras formas de inteligência além da nossa, concentramos toda a nossa curiosidade no neocórtex, como uma máquina cibernética, um computador. Essa idéias levaram-me a concentrar minha curiosidade em algumas características do cérebro dos golfinhos que são muitas vezes negligenciadas.

Uma das características notáveis do cérebro dos golfinhos pode ser encontrada abaixo do córtex. Diz respeito ao tálamo. Thalamus é uma palavra grega que quer dizer "câmara". O tálamo é a parte onde repousam os hemisférios cerebrais. Todas as informações, inclusive o estímulo doloroso, chega primeiro ao tálamo, antes de alcançar o córtex. Todas as funções sensoriais, com exceção do sentido do olfato, são transmitidas ao tálamo. O fato mais surpreendente sobre o tálamo dos golfinhos é a grande extensão de algo chamado núcleos intrínsecos. São grupos de células que não recebem nenhum estímulo de fora do tálamo. Esses núcleos se projetam sobrc as zonas do neocórtex situadas entre as principais zonas sensoriais. Para esconder nossa ignorância a respeito do significado dessas zonas, nós as chamamos de zonas "silenciosas" ou zonas "associativas". Fiz uma ligação entre o excepcional desenvolvimento dos núcleos talâmicos intrínsecos e a proporção muito pequena do córtex destinada à projeção sensorial.

mais de 90 % do córtex do golfinho pode ser considerado silencioso ou associativo. Os números são de 90 % para o homem, de 75 % para o macaco, de 50 % para os gatos e de 10 % para os coelhos.
Em uma extremidade da escala de mamíferos está o cérebro de um animal como o coelho, que não pode fazer mais do que analisar a informação recebida pelos órgãos sensoriais. Na outra extremidade da escala está o cérebro do homem e do golfinho, que é capaz de atividades não desencadeadas diretamente
pelo cérebro sensorial.

Porém, não se deve subestimar o extraordinário desenvolvimento das funções sensoriais dos golfinhos. Todos conhecem a excelência de sua audição e de suas habilidades de eco localização. É menos comum mencionarmos sua acuidade visual, mas um golfinho é capaz de pegar uma sardinha da boca de um treinador que está numa borda sete metros acima da superfície da água. Os golfinhos são excelentes para ver objetos a distância embaixo d'água quando estão mergulhados e através da superfície da água também. Acredita-se que os golfinhos conseguem distinguir cores; eles têm células na retina que parecem equivaler aos cones. Os golfinhos também conseguem mover um dos olhos independente do outro, de forma que con-seguem olhar para a frente com um olho e para trás com o
outro, ao mesmo tempo!

Eles têm a pele muito sensível e passam a maior parte do tempo roçando e acariciando uns aos outros. Mesmo que tenham pouco olfato, seu paladar é extremamente desenvolvido. Eles conseguem localizar um ao outro a grandes distâncias e encontrar cardumes de peixes graças à sua capacidade de sentir vestígios de urina e fezes em partes por bilhão.

Calcula-se que o golfinho possa receber pelo menos dez vezes mais informação através dos órgãos dos sentidos do que nós. Mas ele não tem mãos e as mãos podem ser consideradas um verdadeiro órgão sensorial, com sua imensa zona de projeção no cérebro.

A despeito de tudo isso, a maior parte do córtex no golfinho, assim como no homem, tem muito mais a fazer do que simplesmente analisar as informações recebidas pelos órgãos sensoriais. É como se, livres das preocupações práticas, os humanos e os golfinhos tivessem tempo para pensar. Em outras palavras, temos uma vaga idéia de onde está a base fisiológica do pensamento abstrato e até da espiritualidade.

speculações como estas, baseadas em dados anatômicos, somam-se aos comentários comuns feitos por John Lilly depois de observar o comportamento dos golfinhos. Ele acha que os golfinhos e as baleias volI am -se naturalmente para direções que podemos chamar de espirituais. Eles alcançam estados meditativos com muita facilidade. Mas o que os golfinhos fazem com sua inteligência?

sabemos muito pouco sobre a função dessas células. O que sabemos é que no lobo parietal inferior esquerdo do cérebro de Einstein havia uma grande quantidade de células gliais comparada à quantidade de neurônios. Mas, e no cérebro dos golfinhos?

O caminho mais promissor para pesquisa leva em conta a diferença no funcionamento dos cérebros: os homens sonham; os golfinhos aparentemente não. Diferente da maioria dos mamíferos, os golfinhos não têm uma fase de sono REM (rapid eyes movement), o que aumenta muito a eficiência do cérebro, por ordenar os fatos memorizados. Assim, mesmo com um grau equi-valente de encefalização, o golfinho pode ser menos "inteligente" do que o homem. O ponto essencial é explicar por que, com um córtex tão desenvolvido, os golfinhos não são capazes de resolver problemas práticos simples, como fugir da rede dos pescadores de atum.

Embora nosso conhecimento do cérebro do golfinho (e na verdade do cérebro humano) seja rudimentar, podemos concluir que o grau de encefalização é comparável nas duas espécies . Aqui, novamente, uma característica que nos torna diferentes dos outros primatas, nos aproxima dos mamíferos marinhos.

Essas considerações recuperam uma regra estabelecida por Konrad Lorenz: a caixa que reveste o cérebro (o crânio) - e portanto o próprio cérebro - é maior nos mamíferos marinhos do que nos seus primos terrestres. É maior, por exemplo, na lontra do que no arminho. O macaco nadador do Gabão, o talapoin, é algumas vezes chamado de "macaco budista", porque sua caixa craniana é muito grande em comparação ao peso do corpo. O.i professor Michael Crawiord, do Instituto de Zoologia, em Londres, explica que isso se deve a uma dieta marinha. O mar contém uma grande quantidade de vitaminas, minerais e outros nu trientes que facilitam o desenvolvimento do cérebro.

Seus produtos contêm em especial uma certa família de ácidos graxos chamada de ômega 3, ou "poliinsaturados de cadeias longas". É bastante significativo que o leite humano se caracterize pela presença dessa mesma família de ácidos graxos e que o bebê os consuma nUma idade em que o sistema nervoso está em pleno desenvolvimento. O leite da gorila fêmea não contém os mesmos ácidos graxos: o leite humano é o de um primata marinho de cérebro grande.

Outras explicações corroboram essa. Quando Um mamífero está nadando embaixo d'água, o nível de dióxido de carbono de sua Corrente sangüínea aUmenta. Essa poderia ser uma forma de desenvolver e conservar a expansão da artéria carótida e de melhorar a vascularização do cérebro. A terapia de dióxido de carbono foi usada em crianças com dano cerebral.

 

Por M.Odent