A obstetrícia e os partos sem dor

Na história da Obstetrícia não se pode esquecer a figura marcante de lnácio Felipe Semmelweis (1818-1865), um dos grandes benfeitores da humanidade e considerado pelo Prof. José Martinho da Rocha como o "anjo das paridas".

O famoso tocólogo húngaro, trinta anos antes de Pasteur e Lister, trabalhando na la Divisão de Partos do Hospital Geral de Viena estatuiu a forma de contágio e de propagação  da febre puerperal, responsável por elevado número de óbitos. Homem de elevada correção  moral, certo de que sua doutrina era correta, pregou-a sustentando-a com tenacidade, vencendo a indiferença de seus colegas muitos deles segundo sua expressão, "parteiros ignorantes a exercer prática homicida".

Verificara Semmelweis que a infecção  puerperal era devidas as más condições de assepsia que se observavam no passado, nas salas de parto, onde estudantes, parteiras e médicos promoviam "toques" trazendo em suas mãos o "agente" infeccioso procedente das salas de autopsia. Bastou que se introduzissse a  lavagem das mãos com água clorada para que a incidência da temível doença caísse de modo assustador. Semmelweis teve vida atormentada, falecendo de doença mental mal definida. A vida e obra desse eminente vulto de nossa profissão acabam de ser revistas pelo Prof. José Martinho da Rocha em "O Anjo das Paridas" (Rio, Editora Artenova, 1976) enaltecendo a imensa piedade do famoso médico húngaro. Nasceu Semmel-weis em Tában bairro de Buda, capital de Hungria, a 10 de julho de 1818. Habitado por húngaros, alemães e sérvios, o núcleo comercial e progressista de Buda uniu-se a Pest, tornando¬se a cidade de Budapest, em 1771. A revolução  magiar contra a Áustria, em 1848, modificou a vida de seu s familiares. Semmelweis figurou sempre como húngaro no colégio e não como alemão, austríaco ou croata.

Decidindo estudar medicina, mais tarde escreveria: "adquiri moléstia incurável... adoeci de piedade". Ingressa com 21 anos na Faculdade de Medicina da Universidade de Viena em 1837, freqüentando-a apenas durante um ano, regressando a Pest, onde por quatro semestres cursou a Universidade local. Em 1841 decide retornar a Viena, tornando-se amigo do Prof. Chiari, gemo do prof. Klen, um dos mais tenazes opositores de Semmelweis, no futuro. Diplomou-. se em 1844 e no mesmo ano já recebia o título de Mestre em Obstetrícia. O que lhe chamava a atenção  era a sucessão interminável de mortes das desgraçadas recém-paridas, muitas delas jovens mães solteiras. Dizia ele, comovido: "eu vejo as mulheres entrarem sadias para o hospi-tal, cheias de vida e 24 ou 48 horas após assistia sua agonia".

Foi aos 29 anos de idade, em maio de 1847, que Semmelweis descobriu a causa da febre puerperal e como poderia eliminá-la. Professor de Obstetrícia da Universidade de Pest, com vasta clientela, o famoso tocólogo casou-se tarde, a 10 de junho de 1857, com Maria Weidenhoffer. Perdeu dois de seus filhos, causando-lhe profunda mágoa. Sua doutrina, que era a da assepsia e antissepsia passara a ser criticada, apesar de tudo correr bem com as medidas por ele propostos e seguidos na Clínica do Hospital São Roque, de Pest. Em 1863 iniciam-se os primeiros sintomas da doença mental que o iria vitimar, falecendo a 13 de agosto de 1865, apenas com 47 anos. Sua existência foi uma luta constante, luta contra a doença que ele almejava destruir, luta pelo êxito de sua doutrina, de cujo acerto estava convencido de forma inabalável, luta também contra as numerosas desilusões que o viver lhe trouxera.

Bem haja o Prof. Martinho da Rocha pela publicação  de seu belo livro, retratando a vida heróica de Semmelweis, realmente o "anjo das paridas". Na história da Obstetrícia seu nome estará indelevelmente ligado, transformando-o em benfeitor da humanidade.