O parto embaixo d'água

A experiência ensina a gente que existem algumas regras para o uso benéfico da água durante o trabalho de parto. Seguindo estas normas de procedimento, tenho certeza de que são uma contribuição no controle a epidemia de cesarianas que tem invadido insidiosamente o mundo industrializado.

 

 

Práticas do parto na agua

 

 

Poucos hospitais levam em consideração a importância da privacidade, da escuridão e do silêncio, de um ambiente feminino, da liberdade de se movimentar e de fazer barulho para as mulheres em trabalho de parto. Mas mesmo nesses hospitais, algumas mulheres modernas ainda sentem dificuldade em se libertar de todas as suas inibições. Em outras palavras, elas não conseguem liberar seus instintos. A água pode ajudar.

O ideal é que a piscina seja grande o bastante para permitir que a mulher adote qualquer posição e que seja funda o bastante para permitir a imersão completa. Não deve ser excessivamente grande, pois isso exige muito tempo para encher e esvaziar, e, uma vez cheia, a atmosfera de privacidade fica reduzida. Um problema semelhante surge se a piscina for feita material transparente. Uma piscina redonda, com cerca de 2 metros de diâmetro e com uma profundidade de 70 centímetros é o modelo perfeito. O ambiente deve ser o menor possível. As cores predominantes devem ser levadas em conta. A luz azul reforça uma atmosfera aquática. Quando as mulheres grávidas sonham com água, ela é sempre azul brilhante. Por uma questão prática, foi difícil acrescentar sal para reproduzir a densidade da água do mar. Nós tentamos, mas a dissoluçao de uma pedra ou mais leva tempo, além de ser muito dispendioso.

Em termos práticos, os canos devem ser suficientemente grandes para que a banheira não leve muito tempo para encher e esvaziar. A água tem de ser constantemente controlada e conservada à temperatura do corpo. Quando uma mulher entra na banheira durante o trabalho de parto, isso muitas vezes tem um efeito surpreendente na primeira hora. Observações como esta são essenciais para o uso da água no parto.

Se uma futura mãe vai para a banheira antes de uma dor forte, as contrações podem parar. Por outro lado, a colo do útero pode dilatar muitos centímetros rapidamente. De qualquer forma, isto não impedirá o atraso nos Últimos estágios do trabalho de parto. De outra forma, se a futura mãe entra na água só quando o trabalho de parto já começou e quando a dilatação do colo está bem avançada (pelo menos 5 centimetros, o fim do primeiro estágio pode ser muito rápido: por volta de uma hora para um primeiro filho.

Ao entrar na piscina, muitas vezes a mãe dá um grande suspiro, expressando alívio e bem-estar. Depois disso, a dilatação rápida muitas vezes é acompanhada pelo que podemos chamar de regressão profunda. Ela rompe contato com o nosso mundo, esquecendo o que aprendeu, o que leu e todas as idéias que teve. Ela ousa gritar sem constrangimento e perde o controle de sua respiração e de sua posição corporal. Atendentes bem-intencionadas devem se tornar menos intrusivas à medida que a viagem interior leva-a cada vez mais para dentro. É como se a água estivesse protegendo-a dos estímulos inúteis.

Se a parteira está familiarizada com o parto num ambiente de intimidade e de espontaneidade, não há necessidade de perturbar o processo de parto com exames vaginais. Até mesmo de um aposento próximo ela saberá o que está acontecendo: ela terá apenas de ouvir. Ela poderá avaliar o estágio do trabalho de parto de acordo com quão rápida, profunda e ruidosamente a mulher estiver respirando. A parteira também pode perceber quando o trabalho de parto parou e quando as  contrações não são mais eficientes. Isso muitas vezes significa que o bebê está próximo.

Se as contrações de repente deixam de ser eficazes, a mãe também sente isso. Se ela confiar no que sente, se não for uma prisioneira de um projeto para dar à luz dentro d'água, não hesitará em sair da banheira imediatamente.

 

Saindo da água antes do parto

 

Sair da água quente e voltar para uma atmosfera fria muitas vezes provoca uma, duas ou três contrações espontâneas -e o bebê nasce. Não existem dois partos iguais. Entretanto, alguns padrões comportamentais são mais comuns do que outros. Sair da água certamente é o comportamento mais comum quando o nascimento do bebê está iminente. Mas há exceções: mesmo no caso de um primeiro filho e, ainda mais intensamente em nascimentos  subseqüentes, o fim de um parto pode ser muito rápido na água.

É importante saber que o parto embaixo d'água é possível, embora não seja necessariamente este o objetivo: em qualquer sala de parto onde haja uma piscina disponível, o parto embaixo d'água certamente acontecerá, na maioria das vezes. Igualmente importante é saber que o recém-nascido está perfeitamente adaptado à imersão.

Quando a mulher sente que o bebê está para nascer na água, e quando é evidente que ela não quer ser perturbada, é inútil e perigoso insistir para que ela saia da água, deixando-a em pânico ou correndo o risco de uma perna fraturada em um chão escorregadio.

Mais uma vez, o melhor modo de aprender é observar a própria mãe. É como se, sentindo-se livre de suas inibições, a mãe de repente vencesse todo o medo da água e chegasse um estado de consciência no qual ela sabe que não há risco algum do bebê se afogar e de que ele pode nascer em segurança dentro d’agua. Ela apenas deixará que o bebê chegue em um ambiente que lhe é familiar. Uma atendente de parto (ou a própria mãe) terá apenas de pegá-lo no fundo da piscina e trazê-lo suavemente para a superfície, em segundos, mas sem afobação. Assim que estiver numa atmosfera fria, o bebê começará a chorar. Então a mãe, que muitas vezes está de joelhos, está pronta para segurar o bebê nos braços. A piscina é suficientemente funda de forma que, se ela estiver ajoelhada, a superfície da água estará exatamente abaixo dos seios, tornando o contato pele-pele e olho no olho o mais fácil possível.

Dar as boas-vindas ao bebê nesse ambiente muitas vezes evoca emoções intensas, sem qualquer inibição. Liberação dos instintos, liberação das emoções. Esse é o ponto essencial. Mais tarde abordaremos questões cruciais a respeito da natureza e das causas das inibições.
 

 

Por M Odent.