O poder da agua nos partos normais e na consciência

Aumento da consciência

 

Uma moça estava em trabalho de parto há várias horas. A dilatação do colo parecia ter cessado. As contrações estavam fortes, dolorosas e freqüentes, mas tinha-se a sensação de que não estavam levando a nada. Este era o momento certo para mencionar a piscina, e até enchê-la. A moça podia ouvir o barulho da água. Ela olhava com fascinação para a linda água azul. Então o bebê nasceu no chão, antes de a piscina estar cheia. 

O que me levou pela primeira vez a uma consciência das propriedades mágicas da água foi o inacreditável interesse dos jornalistas pelo parto embaixo d'água. No princípio, ficávamos irritados com os repórteres que vinham à nossa unidade da maternidade e pareciam interessados nos bebês nascidos dentro d'água.

Queríamos mostrar a eles como estávamos fazendo tudo o que podíamos para adaptar o ambiente às necessidades das mães e dos bebês, ajudando as mães a ter um entendimento maior do processo de parto e do início da relação mãe-bebê. Mas ficamos desapontados ao perceber que muitas vezes eles não estavam interessados nesses aspectos. No entanto, havia algo a ser aprendido com isso. Os jorlia listas geralmente têm a capacidade de descobrir o que interessa ao púhlico em geral. Eles podem predizer como será a resposta emocional  do seu público (leitores, ouvintes, telespectadores). Eles sabem (ou intuem) o que capturará a imaginação do público; percebem que a água tem um poder que não pode ser expresso total-mente na seca linguagem dos fisiologistas.

Poucos programas na televisão francesa deixaram uma im-pressão tão profunda quanto a série The baby is a person (O bebê é uma pessoa). Partindo de um ponto de vista analítico, era fácil criticar. Em primeiro lugar o bebê é o oposto de uma pessoa. A palavra "pessoa" indica a imagem que damos a nós mesmos em nossa sociedade. Originalmente,persona significava a máscara que um ator usava no teatro, assim como o papel desempenhado por ele. O bebê recém- nascido não tem máscara. Ele expressa seus sentimentos sem controle algum. A seqüência no programa que mais atraiu atenção foi um nascimento dentro d'água, filmado com uma máquina subaquática. Algumas pessoas ficaram indignadas, inclusive algumas da nossa própria equipe. Quando você tem ape-nas poucos minutos para mostrar o hospital em Pithiviers, não é um sacrilégio mostrar apenas um nascimento dentro d'água? Mas, sem dúvida, esse programa foi um grande sucesso. Resistindo a todas as críticas, os produtores já conheciam o poder de um recém nascido e o poder da água. Eles sabiam como obter uma resposta emocional que pudesse atrair os espectadores.

Na Grã-Bretanha, muitas vezes ouvi pessoas falando sobre um documentário da BBC, Birth reborn (O parto renascido), mesmo muito tempo depois de ter sido exibido. Algumas pessoas se lembram apenas das cenas do parto embaixo d'água, uma se-qüência de três minutos em programa de quarenta minutos.

Muitas pessoas apaixonadas pelo parto embaixo d'água têm surgido espontaneamente em todo o mundo, auxiliando na conscientização do poder da água. Poderíamos chamá-Ias de "con-fraria do parto na água."

 

 

A Confraria do parto na água

 

Tais pessoas acreditam que o parto embaixo d'água é um estágio na evolução da humanidade. Muitos deles deixaram suas carreiras e começaram uma vida nova devotada a uma causa que acreditam ter prioridade sobre tudo o mais. Eles estão preocupa-dos com a destruição contínua do planeta pelo homem. Incluídos nessa rede estão as mães, as mulheres sem filhos e os homens. Vários se tornaram viajantes atraídos por dois pólos: Moscou e Pithiviers.

Enquanto em Pithiviers o ponto de partida foi à tentativa de tornar o trabalho de parto mais fácil, evitando o uso de drogas, em Moscou foi o parto embaixo d'água. Originalmente, Igor Tcharkovsky era um instrutor de natação, que dava aulas de educação física. Desde o início dos anos 60 ele concentrou seu interesse nas habilidades do bebê humano dentro d'água. Ele com-preendeu que quanto mais novo é o bebê, melhor é sua adaptação à água. Ele aprendeu muito com sua filha, que nasceu pre-maturamente e, como uma criança recém-nascida, passou a maior parte de seu tempo na água. Em vez de dar ao bebê um suplemento de oxigênio, que pode ter efeitos colaterais negativos, pode ser mais sábio reduzir sua necessidade de oxigênio; um modo de fazer isso é entrar na água e eliminar a gravidade. Foi assim que Tcharkovsky se envolveu com o parto embaixo d'água.

Tcharkovsky também tem um interesse especial na relação entre os humanos e os golfinhos, e particularmente na relação entre os golfinhos, as mulheres grávidas e os bebês. Ele observou que as crianças podem estabelecer contato com os golfinhos imediatamente, sem qualquer preparação preliminar, como se conhecessem um ao outro há um longo tempo.

Os recém-nascidos fazem esse contato com mais facilidade, o que os adultos muitas vezes não compreendem. Tcharkovsky acredita que a presença do golfinho alivia instantânea e naturalmente o medo de ,ígua do bebê e da mãe, mesmo à noite. Ele lembra casos em ele estava treinando uma criança e os golfinhos interferiram educadamente levando-a a superfície.

rovavelmente o pequenino não estava se sentindo muito bem, e o golfinho recebeu o sinal de ajuda que nós não podemos entender. Revistas de vários países ocidentais registraram partos que fóram assistidos por uma parteira golfinho.

Tcharkovsky também está interessado na percepção extrasensorial- meios de comunicação que não podem ser explicados por métodos científicos no mundo ocidental. Ele acredita que nascer dentro d' água e cultivar a adaptação à água são modos de desenvolver os poderes de telepatia e clarividência. Num país onde o instinto religioso era negado, ele indaga sobre a dimensão espiritual do homem e seu desenvolvimento.

Muitos caminhos diferentes levam ao entusiasmo pelo parto na água. Existem mães que deram à luz dentro d'água. Existem pessoas que estão mais interessadas na adaptação do homem ao meio ambiente aquático. Este é o caso de Jacques Mayol, - autor de Homo deIphinus -, um mergulhador que pode descer mais de cem metros sem oxigênio. Mayol visitou Tcharkovsky em Moscou e trouxe alguns membros da TV japonesa a Pithiviers como parte de um programa sobre os homens e a água. Para outros, o ponto de partida é um interesse nos golfinhos. Na confraria do parto na água, alguns são terapeutas que praticam técnicas de renascimento ("estados de regressão" ou "mudanças dos níveis de consciência" desencadeados por diferentes tipos de respiração consciente. O processo é visto como um modo de ativar as zonas da parte primitiva do cérebro, nas quais estão gravadas experiências anteriores, tais como o próprio nascimento.) Outros são jornalistas, escritores ou produtores cujas vidas mudaram depois de entrar em contato com a prática do parto na água. Outros ainda são parteiros que não hesitaram em dar assistência a partos dentro d'água em seu país, na Europa, Estados Unidos, Nova Zelândia, Austrália ou na África do Sul. Até alguns médicos pertencem ao grupo.

Muitas pessoas estão cientes do poder da água durante o parto sem se tornarem obcecadas por este tipo de parto a ponto de afirmar que isso salvará a humanidade. J anet Balaskas, que dirige o Active Birth Centre (Centro de Nascimento Ativo), em Londres, me contou essa história. No fim de uma longa sessão de ioga, antes de as mulheres grávidas recuperarem seu estado normal de consciência, ela lhes perguntou: "Onde você mais gostaria de dar à luz?' "Na água, ou em algum lugar que tivesse água", foram as respostas usuais. Em geral, as mulheres sonham em dar à luz num ambiente natural. Nenhuma sonha com um hospital ou mesmo com um quarto. Vale lembrar que Freud interpretava os sonhos de água como se fossem nascimentos.

O fenômeno Tcharkovsky

Não vejo ligações entre o que eu chamo de fenômeno Leboyer (ou seja, os profundos efeitos de suas obras de arte sobre o público em geral) e o fenômeno Tcharkovsky.

Em ambos os casos existe água e existem recém-nascidos. De toda a numerosa obra de Leboyer, muitas pessoas se lembram apenas que em seu livro Birth without violence (Nascer sorrindo) e em seu primeiro filme ele deu um banho num recém-nascido. Ninguém sabe melhor que Leboycr que, acima de tudo, o recém-nascido precisa dos braços da mãe. Mas foi o artista Leboyer que deu banho no bebê. Leboyer, o artista deste século, terá grande influencia sobre a saúde e o modo de vida das futuras gera'ções; ele introduziu a água em todos os seus livros e filmes.

No livro Loving hands (Mãos amorosas), dá-se um banho na criança depois de uma massagem de Shantala. No fim do filme Loving hands, estamos numa praia olhando e ouvindo as ondas. No livro A sacralização do nascimento (Le sacre de Ia naissance) , o estágio do trabalho de parto que precede as últimas contrações é simbolizado pela fúria do oceano, que, ao invés de intimidar, estimula. As palavras são reforçadas pela famosa pintura de Hokusai, (Ondas de Kanagawa). No filme mudo Breathing (Respiração), as emoções da mulher em trabalho de parto são expressas através do olhar e do som da água.

O trabalho de Tcharkovsky tem pontos em comum com o trabalho de Leboyer, na medida em que é guiado principalmente pela intuição, fé, sentimentos, clarividência; está em ligação estreita com o desconhecido, com o mistério, talvez até com a lenda. E, como Leboyer, Tcharkovsky não comunica seu conhe-cimento via literatura médica ou científica. Ele terá uma influência indireta em nosso entendimento do fenômeno humano, mas aparentemente a maioria das pessoas o associa apenas com o parto embaixo d'água e com o nascimento entre golfinhos.

O fenômeno Tcharkovsky não pode ser dissociado da necessidade de lendas que todas as sociedades humanas têm, espe-cialmente sobre seres humanos aquáticos.

 

A água como símbolo

 

De onde vem o extraordinário poder da água? Niko Saito, um professor japonês que é apaixonado pela adaptação dos bebês à água, deu-me uma resposta simples num cartão postal depois de ter visitado Pithiviers:

"Para o homem, a água representa a afeição da mãe". Isso não é exclusividade da cultura japonesa ou da ocidental. A água sempre foi o símbolo da mãe em todos os lugares e em todas as épocas. A vida começou no oceano; no líquido amniótico reto-mamos a história da vida. A atração pela água durante o trabalho de parto e os sonhos de partos aquáticos não são novos.

Na antiga Grécia, Mrodite, a deusa do amor, nasceu da espuma das ondas. Em Chipre, a deusa do amor nasceu na praia de Paphos. De acordo com a tradição japonesa, as mulheres que moram em algumas aldeias pequenas à beira-mar davam à luz no mar. Gravuras sugerem que em algumas tribos africanas o lugar tradicional de dar à luz era perto de um rio. Algumas aborígenes da costa ocidental da Austrália primeiro brincam na água do mar e então dão à luz na praia. O parto embaixo d'água provavelmente era conhecido em culturas tão diversas como os índios do Panamá e, talvez, alguns maoris da Nova Zelândia.

Mas é principalmente nos domínios dos sonhos, da fantasia e da metáfora que o nascimento e a água são comumente  associados. As metáforas aquáticas podem ser adaptadas às dife-rentes fases do trabalho de parto: o primeiro estágio não invoca as mesmas imagens de água que a ejeção do feto, a fase das ondas violentas, agressivas e até amedrontadoras. De fato, todos os episódios da vida sexual são representados por metáforas de água - desde o lago romântico até as ondas rítmicas do orgasmo.

 

M Odent