Retorno da Sífilis

A sífilis e outras doenças venéreas retornam ao cenário médico e várias causas São apontadas para a explicação  desta triste ocorrencia.
Com o advento da penicilina, a incidencia da sífilis caiu rápida e progressivamente em todas as partes do mundo, inclusive no Brasil. Foram, então, fechados os postos de luta antivenérea e os casos de sífilis tornaram-se extremamente raros. A Liga de Combate a Sífilis, em São Paulo, registrou, em 1942,555 casos de sífilis primária e secundária e, em 1955, somente 7 casos. Indiscutivelmente, a queda impressionante da incidência da sífilis deveu-se ao emprego intensivo da penicilina, não só nesta treponematose, como também, de maneira abusiva, em outros processos, tornando-se, na época, verdadeira panacéia.

Nesses últimos anos, todavia, a administraçao da penicilina vem sendo progres-sivamente reduzida, pois seu espectro de atividade é bem definido. Além disso, apareceram outros antibióticos que desviaram a atenção  de médicos e leigos para outros agentes antibacterianos; reações alérgicas, algumas fatais, limitaram também, o uso daquele antibiótico.

A penicilina continua a liderar todos os medicamentos até hoje utilizados na terapêutica da sífilis. Daí a razão pela qual o Prof. Sampaio assinala, com muita razão, que os bismutos e os arseniacais no momento atual, constituem  somente um fato histórico na terapêutica da sífilis.
Mas além desse fator, isto é, o referente a limitação  no emprego da penicilina, a grande droga treponemicida, quais os outros elementos que condicionaram o retorno da sífilis, bem como o de outras doenças venéreas?

O Conselho Executivo da Organizaçao Mundial de Saúde, em Genebra, examinou o programa de luta contra as moléstias venéreas e, das informações enviadas ao referido Conselho, destaca-se o capítulo consagrado as "transformações .do meio", como fundamental para favorecer o retorno da sífilis ou, pelo menos, para diminuir a luta contra essa treponematose.

A população das cidades aumenta em ritmo duas vezes mais rápido que a população rural. A sífilis é, com efeito, doença principalmente urbana. Assim, o deslocamento de trabalhadores e de outros grupos populacionais para os grandes centros, obrigando-os a integrar-se permanente ou temporariamente em um novo meio ambiente contribui, também, para propagar a infecção luética. Por outro lado, a relação conhecida entre o consumo de álcool e os contágios venéreos São objetivo de atenção  especial, numa época de evidente prosperidade econômica, onde o número de jovens sexualmente ativos, não cessa de aumentar. Civis e militares, viajando por via terrestre, marítima e aérea, para todas as partes do mundo, contribuem para transformar as infecções venéreas em moléstias "internacionais".

Processa-se também, entre os jovens, infelizmente, verdadeira revolução em seus costumes, com maior liberdade cm suas relaç5es. Em certos países onde as casas de lenocínio fo-ram fechadas, a prostituição parece ter sido em grande parte substituída, como fonte de contaminação venérea, pela promiscuidade sexual clandestina ou dissimulada sob a forma de determinadas profissões.

Em 1964, em um Simpósio realizado nos Estados Unidos em homenagem a Rudolph H. Kampmeler, vários estudiosos desse problema chamaram a atenção das autoridades públicas para diversos aspectos do mesmo, destacando se, porém, o papel fundamental do "médico de consultório" na erradicação da sífilis. Com efeito, grande número de casos de sífilis é diagnosticado nos consultórios médicos particulares onde, colegas habilitados devem fazer o diagnóstico e o tratamento corretos; evitando desta maneira, a disseminação da treponematose.

Campanhas de educação sanitárias devem ser realizadas, visando o combate as doenças  venéreas, fazendo com que o grande público melhor se proteja contra as mesmas, temendo as cada vez mais, apesar de vivermos, hoje em dia, a grande era da terapêutica antimicrobiana específica.

Em muitos hospitais americanos, a sorologia da sífilis volta a ser ex ame rotineiro, com o fim de descobrir reagentes positivos e eventuais fontes de contágio.

Se cada médico tomar novamente consciência do problema e, se as autoridades públicas analisarem a questão com real objetividade e interesse, teremos a possibilidade de eliminar novamente a sífilis e outras doenças venéreas do cadastro das doenças infecciosas.