Dos mais importantes em Medicina Social o problema do incremento da "libido moriendi", traduzida pelos suicídios realizados ou pelas inúmeras tentativas de levá-los a efeito. Aumentando o número de autocídios, o assunto foge do domínio médico para se tornar problema de indiscutível relevância social.
Recentemente, o Prof. Napoleao L. Teixeira, da Faculdade de Medicina do Paraná, focalizou esta questão de grande atualidade, chamado para o mesmo a atenção dos sociólogos, psicólogos, psiquiatras, juristas e religiosos. A espiral dos suicídios e tentativas, a curva da chamada autoquiria, principalmente entre os jovens fisicamente sadios, exige que se pense um pouco mais sobre este grave problema, médico e social.
Por que se matam as criaturas humanas?
As causas São múltiplas e não podemos, em pequeno artigo de divulgação, relacionar os diversos fatores que condicionam a autoquiria - externos ou mesológicos e internos ou endógenos. Todo o suicida apresenta uma disposição psíquica anormal, mesmo quando o suicídio tenha sido planejado, elaborado e executado em plena lucidez.
Analisando os "motivos determinantes" do autocidio ou da uto-eliminação , o Prof. Napoleao Teixei a refere, entre outros o extrãordinário pap 1 da sugestão das crônicas policiais na sua p icogenese. E afirma categoricamente: se el não é geradora do suicídio, é desencadeador . Realmente, a imprensa sensacionalista, co cabeçalhos espalhafatosos contendo retratos, cartas e bilhetes dos suicidas, tu do envolto em literatura inútil e vazia, constitui para muitos indivíduos verdadeiro "mordente", verdadeiro fixador da idéia propricida. Um simples estímulo desencadeia o autocídio, num suicida potencial, portador de "libido moriendi".
Descrições muitas vezes mórbidas São oferecidas aos leitores através da imprensa. Esta "cega" inconsciência jornalística tem provocado, em determinados indivíduos, de personalidades psicopáticas, verdadeira onde de autocídios.
Nilton Sales em 1943, descreveu em sua tese a história d vários casos de suicídios, analisando as cartas deixadas pelos suicidas, dentre elas urna m que seu autor se mostra partidário do suicídio total da humanidade. Vejamos alguns trechos da mesma: "O mundo se torna cada vez ma s insuportável. Deixemos o mundo. Mas, leve os também os macacos, pois se trata de animal que, segundo Darwin, costuma degenerar m homem se os deixás-semos, haveria ainda possibilidade de o mundo se encher, novamente de gente".
No Brasil, os formicidas sobrelevam em muitos os outros autocidas. Talvez por culpa dos reclamos n s quais se exaltam as suas propriedades fulminantes, referidas diariamente na crónica policial.
O autocídio se constitui em grave problema médico-social, dos m is complexos em medicina social, razão pela qual devemos de todos os modos conjugar nos os esforços no sentido de sua profilaxia.
Sugere o Prof. Napoleão Teixeira, entre nós, a aplicaçao efetiva de um Código de Ética jomalística que propicie as atividades desta subimprensa, orientando-os para os seus altos destinos.
Mas não é só a subimprensa a causa indireta do incremento da autoquiria. A ava-lanche de suicídios em sido de tal monta nos países altamente civilizados que se imp6em estudos mais aprofundados sobre o problema, principalmente no campo de ação da Medicina Social. É preciso, pois, aplicar cada vez mais os conhecimentos médicos, biológicos e sociológicos em benefício das condiç5es estáticas e dinâmicas do organismo social. A medicina refere com razão os Profs. Hilário Veiga de Carvalho, Bruno e Segre em sua recente obra "Medicina Social" (1964), pode ir muito longe, além da peregrinação diagnóstica. É preciso conjugá-la com as Ciências Sociais, dando ao médico a informação sociológica com o seu papel no seio dos agregados humanos, de diverso matiz.
Neste, como em outros terrenos da Medicina Social, há ainda urna longa rota a percorrer. No Brasil, nada se faz em torno desse grave problema de patologia social. Os desajustados, os que vivem em "dificuldade so-cial", precisam encontrar alguém que os ampare no mais amplo sentido - bio, psíquico e social.
Nós, médicos, precisamos sair da órbita restrita de nossas atividades puramente curativas, para empenharmos nossos esforços na solução de vários problemas sociais, problemas dos mais complexos e dos mais intrincados da vida social. Façamos tudo, seguindo os ensinamentos de Hilário Veiga de Carvalho e seu s ilustres colaboradores - para que o ser humano seja menos torturado, menos injustiçado e menos malsão. Enfim, seja sempre mais feliz.