Se o poder da água faz parte do senso comum e foi usado desde tempos imemoriais pelos artistas, é paradoxal que a água dificilmente seja usada de qualquer maneira na arte pornográfica. Quer se considere o desenho, a pintura, a escultura, filmes ou novelas, quando os órgãos genitais são mostrados a água não é mais empregada como um símbolo. Talvez neste caso não seja mais arte.
Talvez não seja erotismo também. Eros floresce no mistério, nos símbolos. A verdadeira arte erótica não é explícita, mas sugestiva. É também paradoxal que nenhum dos renomados pesquisadores da sexualidade humana tenha expressado um grande interesse pelo uso da água na estimulação sexual.
Henry Havelock Ellis, indiscutivelmente o primeiro sexólogo moderno, não trabalhou o tema "água" em seus sábios estudos publicados durante as primeiras três décadas deste século. Mesmo Ferenczi não estudou realmente o poder erótico da água; limitou-se a estudar as origens da vida sexual. Ele considerava o ato sexual uma regressão ao período pré-natal, à vida no líquido amniótico.
O ginecologista holandês Theodor Hendrik van de Velde ensinou a toda uma geração de casais a arte da copulação em seu livro Casamento Ideal (Ideal marriage), que foi traduzido em várias línguas e teve muitas edições. Ele ensinou a arte de beijar e acariciar. Num país que tem uma relação tão especial com o mar, poderíamos esperar que ele tivesse dado algum espaço em seu livro para a água.
Alfred Kinsey, que introduziu o método estatístico no estudo do comportamento sexual, costumava se encontrar com artistas e se interessava por muitas formas de arte. Sua morte pôs fim ao seu estudo sobre o erotismo na arte. Talvez ele estivesse a ponto de se conscientizar do poder da água.
O famoso Relatório Hite, que estuda o comportamento sexual da mulher americana, foi baseado em questionários muito longos, mas não havia nenhuma pergunta sobre o ambiente durante o ato sexual!
Mais surpreendente ainda é não encontrar referência alguma sobre a água nos conselhos dados pelos mestres modernos da terapia sexual, William Masters, Virginia Johnson e seus discípulos. A água não é mencionada nem mesmo quando se fala sobre as diferentes técnicas de estimulação.
É significativo que a maioria dos livros de prestígio - Resposta sexual humana (Human sexual response), Inadequação sexual humana (Human sexual inadequacy), de Masters e Johnson, A nova terapia sexual (The new sex therapy), de Helen Kaplannão mencione a importância do ambiente no ato sexual. A indiferença dos terapeutas sexuais aos fatores ambientais é comparável à atitude convencional dos obstetras. Somente uma inacreditável falta de compreensão das necessidades de uma mulher em trabalho de parto pode ter levado ao desenvolvimento de departamentos obstétricos cada vez maiores, sem nenhum esforço para tornar os partos em casa uma alternativa viável.
Mesmo Glenn Wilson, um terapeuta sexual que escreveu um estudo sobre as fantasias sexuais dos homens e das mulheres, não estava interessado na água. Entretanto, em sua lista das quinze fantasias sexuais mais poderosas, fazer amor num lugar romântico, tal como uma praia à noite, está em segundo lugar, perdendo apenas para fazer amor com a pessoa amada.
Percebi esses paradoxos depois de ter de bancar o terapeuta sexual em algumas ocasiões. No entanto, minha experiência neste campo é tão limitada que se resume a algumas anedotas.
Um dia recebi o telefonema de uma moça que queria marcar uma consulta, e viria com seu marido. No espaço de tempo de uma curta conversa por telefone ela me contou que era estéril, acrescentando que o principal problema era uma provável impotência de seu marido. Sugeri que o casal me visitasse no domingo seguinte, numa hora em que não teríamos de olhar para o relógio. No dia a moça chegou sozinha, pois seu marido tinha desistido de vir. Eu a levei à maternidade, pensando que um lugar cheio de mães e de bebês poderia ter um efeito positivo sobre ela. E como ela parecia demonstrar interesse pela ala da maternidade, fizemos um passeio pelas salas de parto, incluindo a piscina, no exato momento em que ela era enchida com a fascinante água azul. Esse foi o lugar onde começamos a conversar.
Entendi que ela tinha problemas com a ovulação, pois tinha SI nIlente um ou dois ciclos por ano. Ela me contou que seu marido intimamente não sentia nenhum interesse sexual por ela. De malIeira totalmente espontânea ocorreu-me que o casal poderia vir à piscina, tanto na água como perto dela, em uma noite em que nada estivesse acontecendo na maternidade, de modo que eles pudessem completar privacidade. Isso a deixou cheia de sonhos.
Alguns dias mais tarde ela me ligou e disse que ela gostou muito da sugestão, e que, desde que eles con-
versaram sobre estar juntos na água, a atividade sexual estava melhor. Algumas semanas depois ela me ligou novamente contando que havia ovulado. Passados alguns meses, ela estava grávida. No ano seguinte ela voltou à maternidade para dar à luz.
De modo semelhante, sugeri a jovens casais com dificuldades sexuais que passassem algumas semanas juntos numa praia tranqüila. Se eu tivesse seguido os mestres da terapia sexual, minha abordagem teria sido totalmente diferente. Por que não se menciona o papel da água na terapia sexual, quando o poder terapêutico da água já é admitido há séculos? A terapia sexual parece se interessar apenas por detalhes técnicos. Talvez a terapia sexual não seja uma verdadeira terapia, assim como a arte pornográfica não é realmente arte.