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A Assistência social e a saúde

 

Ainda em La Matanza, fui conhecer outros dois lugares, agora instituições da assistência social. Tomamos um hemis (táxi) até o Centro de Referência de La Matanza, já que não existem muitos ônibus naquela região. Fomos recebidos pelo coordenador Javier Nuñez que nos apresentou duas técnicas do serviço: a psicóloga Micaela Camurri e a assistente social Jorgelina Camiletti, todos bastante acolhedores e dispostos a trocar experiências. Percebi durante a conversa que tal instituição é bastante marcada pelo discurso político de reinserção social de forma que este primeiro não esconde a singularidade de cada sujeito que lhes é entregue para o cuidado.

Conversamos bastante sobre a política da assistência social da Grande Buenos Aires e percebi uma diferença significativa entre os campos da assistência social e saúde mental. Vale ressaltar que como no Brasil, Saúde Mental e Assistência Social são campos distintos e que não há conexões claras entre eles, apesar de avaliarmos como algo necessário para ambos.

O Centro de Referência possui uma política bastante parecida com os nossos CRAS e consegue funcionar em rede com outras instituições do mesmo campo, seu público é composto por crianças e adolescentes. Serve como porta de entrada, e há uma espécie de recepção, visando sempre a elaboração de um projeto para cada jovem que chega. Há oficinas visando a inserção social através da cultura e destaco uma em especial, sob os cuidados de Federico: a oficina de cinema.

Tive o privilégio de acompanhar Jorgelina em seu trabalho naquela tarde e fomos buscar, de hemis, um adolescente de 11 anos, morador de um conjunto habitacional bastante pobre de La Matanza. B. ,o adolescente , iria pela primeira vez a um Centro da assistência social que se localizava há poucos quilômetros de onde estávamos. Era o Centro de La Paloma.

Quando chegamos a La Paloma, pude perceber um espaço com uma circulação de pessoas muito parecida com os nossos CAPS. Havia muitos jovens no local, muitos brincavam na piscina, e fomos recebidos pelo coordenador da instituição.

Era uma casa com muitas salas para a realização de oficinas, um refeitório e uma padaria onde também aconteciam oficinas, além de uma fábrica de sacolas plásticas onde os jovens aprendem o trabalho. Grande parte do dinheiro que financia a instituição advém da igreja católica e segundo o coordenador, sem esta ajuda seria impossível que tudo aquilo funcionasse.

Seguimos com B. para que conhecesse toda La Paloma e pudemos participar da recepção do garoto junto do coordenador e de Jorgelina. Foi discutido com B. seus interesses, o que costumava fazer em casa e como seria possível sua entrada no serviço, ou seja, ali estava se construindo um projeto com ele, como nossos projetos terapêuticos. Jorgelina já havia discutido com o serviço sobre a situação familiar do jovem e com isso foi possível pensar como seria suas idas a instituição de acordo com seu projeto, bem como a combinação de uma conversa com a família. Pude presenciar a construção de uma rede entre o Centro de Referência de La Matanza e o Centro de La Paloma.

Despedida

Voltando para o Brasil, fico ainda com a imagem dos hospitais psiquiátricos que visitei e os outros trabalhos realizados por profissionais que tentam pensar um tratamento para os psicóticos que difere de um tratamento baseado no manicômio como única alternativa, assim como o belo trabalho realizado pela Assistência Social. Apesar do terreno árido que nossos hermanos têm pela frente, é possível perceber nas falas dos que nos receberam, principalmente dos nossos anfitriões residentes, que há alternativas possíveis, que ainda há o que se fazer.

Em cada conversa, seja nos cafés, nas praças ou mesmo nas ruas, observo um povo bastante atento à política e indignado com as desigualdades que lhes cercam. A saúde mental no meio disso tudo se mostra como um ponto de esquecimento diante de todo pensamento político desse povo. A questão que fica pra mim é: quando Brasil e Argentina tomaram caminhos diferentes em suas propostas de tratamento dos loucos, falo principalmente de Buenos Aires  como centro econômico do país?

 Andando pelas ruas da capital, percebi uma cidade bastante preservada em sua arquitetura, bem como o cuidado com seu lixo urbano – não se vê amontoados de sujeira nas calçadas como nas ruas do Rio de Janeiro. Junto disso, notei também que não circulam muitos loucos pelas ruas, a população de rua vem aumentando, mas ainda não se compara com a nossa. Diante disso, me pergunto o que nossos vizinhos têm feito com aquilo que eles entendem como resto, com aquilo que não tem valor diante do capital? Estão nos depósitos? 

 

Referência:

Vallejo, Julia: Yo estuve em Niterói, in:CLEPIOS 44 una revista de residentes de salud mental, Noviembre 2007 / Febrero 2008, nº3 – volumen XIII. Buenos Aires.