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Saúde mental no Brasil e na Argentina

 

Impressões a partir da visita aos serviços de saúde mental e da assistência social na cidade de Buenos Aires (Argentina) – fevereiro de 2008

 

Julio Cesar de Oliveira Nicodemos (1)

 

Introdução

O interesse em conhecer as instituições de saúde mental da cidade de Buenos Aires surgiu do meu encontro com dois residentes argentinos no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba na cidade de Niterói (RJ, Brasil), no ano de 2007. Ambos chegaram com o intuito de conhecer nossa rede de saúde através de um estágio que durou dois meses, tempo em que pudemos trocar muitas de nossas experiências no campo da saúde mental e da clínica.

Ouvia o tempo todo sobre as diferenças em tal campo entre Brasil e Argentina, e como o Brasil havia avançado no processo de Reforma Psiquiátrica, diferente de nossa vizinha Argentina.

Federico Beines e Julia Vallejo se admiraram com a direção de trabalho com cada paciente e a possibilidade de tratarmos fora das longas internações, através dos serviços substitutivos chamados CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Além disso, a inserção do discurso psicanalítico nas instituições e como nos orientávamos por ele. “Es la instalación y circulacion de este discurso en las instituiciones de la red de salud mental uno de los puntos que fueron cruciales para mi experiencia de rotación. Que se produce de um modo que encuentro absolutamente original em Niterói, a partir de uma conyuntura singular en el cominenzo de los movimentos reformadores” (Vallejo, 139).  


Nos perguntávamos o tempo todo em que ponto Brasil e Argentina se distanciaram nas suas propostas de tratamento dos loucos, me questionava como um país como Argentina, marcada por movimentos sociais tão fortes diante o regime ditatorial, pode hoje perder-se em suas propostas de Reforma Psiquiátrica?

Como em todo o país em desenvolvimento, a Argentina também sofre com suas mazelas sociais decorrentes de corrupções no governo, mas temos notícias dos grande movimentos como As Mães da Praça de Maio e as “paneladas” de 2001 durante a crise econômica do país. Um povo com uma cultura marcada pela política, além da grande influência filosófica e psicanalítica, advindas da Europa. Curioso notar que existem inúmeras escolas de formação analítica, assim como uma presença significativa da psicanálise e da filosofia no meio universitário.

Para entender um pouco mais o que se passava naquele país, precisava ver com meus próprios olhos, vivenciar um pouco daquele cotidiano, ouvir o que os trabalhadores da saúde mental tinham a dizer sobre os grandes asilos e o tratar dos loucos.

 

A Saúde Mental na Capital Argentina

 

                 Cheguei a Buenos Aires em fevereiro de 2008, fui recebido por Federico e Julia, ainda residentes de saúde mental. Fui convidado a um “psicotur” por algumas instituições psiquiátricas e outras da assistência social, estas últimas que merecem uma atenção especial devido as diferenças das primeiras.
No primeiro dia deste “tour” fui levado pelo nosso anfitrião a Empresal Social de Garay, instituição que tem uma particularidade importante diante dos grandes manicômios que ainda existem em Buenos Aires. É o único lugar na saúde que funciona como algo semelhante a nossa proposta de CAPS. Uma amiga brasileira (também psicóloga) e eu decidimos tomar um táxi até o local e em conversa com o conductor tive a surpresa deste nos contar um pouco sobre a história de seu irmão, um esquizofrênico que já passou por inúmeras internações. Este nos fala sobre o tratamento de seu irmão, a facilidade que tem para conseguir seus remédios pelo governo e as dificuldades de um tratamento psiquiátrico onde uma longa internação é a única opção diante das crises. Diz que as consultas são apenas com um psiquiatra e são espaçadas. Entre uma consulta e outra seu irmão fica em casa, sob seus cuidados. Conta que os hospitais psiquiátricos são assustadores e já ouviu falar da lei municipal de Reforma Psiquiátrica, mas que não tem notícias que isso funcione na cidade.

“Suerte!”, o taxista nos diz assim que chegamos, e vamos a Empresa Social. Fomos recebidos por Laura, terapeuta ocupacional e coordenadora da instituição. O lugar funciona num sobrado, há duas salas onde acontecem algumas oficinas e uma cozinha onde é realizada uma oficina de culinária, todas com o objetivo de geração de renda. O sobrado é alugado por uma ONG e os técnicos são em sua maioria funcionários públicos, deslocados dos hospícios com uma certa dificuldade.

Lá os usuários participam das oficinas onde o tratamento se dá a partir do trabalho. Estas têm como objetivo a produção de objetos que são comercializados, portanto, são oficinas profissionalizantes e é a partir disso que há um tratar destes sujeitos. Não se pode fazer de qualquer jeito, devem-se produzir objetos que tenham valor de fato no mercado. A partir disso, os usuários poderão, adiante, se inserir no mercado, construindo seus laços sociais rompidos pela psicose.

Soube que alguns já desenvolvem trabalhos fora da instituição e tem a Empresa como um lugar de referência, passando por lá para dar notícias aos técnicos. Discutindo com a equipe, percebi que há uma grande preocupação com as instituições de tratamento da cidade, contanto somente com alguns centros de saúde e o hospital psiquiátrico, sem que estes formem uma rede de fato. Se um adolescente é internado, demoram-se muitos meses para retornar.

No dia seguinte, fui informado que o dia seria “heavy metal” , pois conheceria três grandes hospitais da capital federal, todos eles marcados pelo grande número de leitos e pelas longas internações.

Começamos pelo Hospital Infanto-Juvenil Tobar Garcia, um prédio de 5 andares bastante quente em seu interior, com 60 leitos sendo divididos entre homens e mulheres, local onde nossos amigos realizam sua residência. Não tivemos acesso as enfermarias que se localizavam no último andar, mas pude observar grupos de crianças descendo as escadas com alguns técnicos, nenhuma criança se dirigiu a nós. Nossos amigos, nos convidaram para ir até a sala dos residentes, mas antes passamos por uma outra sala, onde haviam alguns técnicos. Naquele local, um tanto pequeno, soube que há pouco tempo funcionava uma enfermaria que atendia a 30 pacientes. Uma técnica se dirige a Federico dizendo: “Não tenha vergonha, mostre a eles”.

Em seguida fomos à sala onde os residentes de saúde mental se reúnem, uma sala pequena para o número de residentes do hospital (médicos e psicólogos). Tive a oportunidade de conversar com um deles, psicólogo formado pela Universidade de Buenos Aires, diz que está no início de sua residência e tem grande interesse pela psicanálise. Quando este me pergunta como é a residência no Brasil, falo um pouco do nosso trabalho nos CAPS. Ele diz que já ouviu falar e conclui dizendo: “Deve ser melhor”.

Existem muitas vagas para residência na cidade de Buenos Aires. A residência dura quatro anos e os residentes não possuem uma circulação entre os serviços  de saúde mental. Os psicólogos vêem na residência como uma possibilidade de experimentar a clínica com a psicose, tendo supervisões constantes com psicanalistas da cidade. Entretanto,  a psicanálise não é pensada como uma direção para os serviços de saúde mental. Saúde mental e psicanálise são tidas como campos opostos, onde não há a possibilidade da segunda poder orientar a primeira, sem que isso seja visto com grande estranhamento.

Quando nos dirigíamos para fora do prédio, Federico e Julia mostram pela janela, com certa preocupação, a construção das novas instalações do Tobar Garcia, nos fundos do hospital atual. Fiquei assustado com o tamanho da obra. Federico diz que apesar do tamanho das novas instalações, a idéia é que não se abram novos leitos.

Em seguida, há alguns metros de distância, chegamos ao Hospital Neuropsiquiatrico Moyano, um hospital para internação de mulheres que conta atualmente com cerca de 600 pacientes e um discurso bastante organicista sobre o tratamento psiquiátrico. Além da internação de pacientes agudas, o hospital conta com diversos pavilhões onde existem centenas de pacientes crônicos, cada pavilhão com nomes de psiquiatras clássicos como Esquirol, Pinel, Griessinger, dentre outros. Pude perceber também que há outras especialidades médicas mescladas a psiquiatria, característico de algumas instituições totais do nosso passado onde há vida era gerida em todos os seus aspectos dentro do asilo.

Nos dirigimos para o pátio interno do hospital, alguns olhares dos técnicos me deixavam apreensivos, não fomos recebidos por ninguém. O lugar era bastante amplo e arborizado. Muitas pacientes circulavam pela área verde. Das várias que cruzamos, somente uma delas nos dirigiu a palavra dizendo: “Hola! Buenos días!” Minutos depois recebo outra saudação e percebo que é a mesma paciente que ficava dando voltas e voltas no pátio, como que num movimento automatizado.

Em meio as árvores descobrimos um museu, local onde se realizavam pesquisas com os internos no século XIX. Não conseguimos entrar no museu pois estava fechado, mas nossos amigos descreveram um pouco do lugar dizendo que existem cérebros expostos, comum no auxílio de pesquisas psicológicas do meio do século realizadas pelos alemães. Aquele espaço também era usado para as cirurgias de lobotomia e aplicação de ECT.

Saímos de Moyano e bem perto dali estava nossa próxima parada, Hospital Borda, uma gigantesca construção com muitas janelas com grades. A instituição atualmente conta com aproximadamente 800 pacientes, todos homens. Existem pacientes agudos e crônicos.

Fomos recebidos por Marcela, terapeuta ocupacional do serviço 48 do hospital. Ao chegarmos nos pergunta com um sorriso: “Mas o que vocês estão fazendo aqui?! Meu Deus!” Seguimos Marcela até uma sala onde se deu nossa conversa. Sua simpatia e disponibilidade para nos apresentar seu trabalho e nos contar a situação atual da Reforma Psiquiátrica na cidade se misturava a uma expressão de um trabalho solitário que ela tenta realizar dentro do hospital, um trabalho que se dá num solo árido para emergir questionamentos sobre o cuidado com tais sujeitos.

A partir de nossa discussão, soube que assim como no Brasil, no país existem lugares bastante distintos em relação à saúde mental. Por exemplo, na Patagônia existem um trabalho importante neste campo, com a presença de hospitais dia e residências terapêuticas. Já Buenos Aires possui uma lei de Reforma (lei municipal 448) que nunca saiu do papel. Nos fala um pouco de sua preocupação com os grandes asilos e destaca uma preocupação ainda maior com Tobar Garcia, “Un manicomio de niños!”
Marcela em seguida nos leva a uma horta nos fundos do hospital, local onde realiza uma oficina com os pacientes tanto do Borda como algumas pacientes de Moyano que consegue levá-las ao trabalho com muitas dificuldades. A proposta do trabalho de Marcela se parecia muito com o da Empresa Social, uma construção dos laços daqueles sujeitos através do trabalho. Não era uma plantação com o objetivo primeiro de tratar os psicóticos, era um trabalho que deveria ser feito de verdade, para que os produtos fossem vendidos, onde tratar se dá como uma conseqüência disso.

Fiquei surpreso com um outro dado, o hospital conta com aproximadamente mil funcionários, dentre eles muitos psicanalistas e residentes de saúde mental. Porém, o questionamento do modo de tratamento dos psicóticos acontece somente por um grupo muito pequeno, sustentado por Marcela, que interroga as longas internações e a ruptura dos laços destes sujeitos devido aos efeitos de cronificação.

Após nossa circulação pelos hospitais psiquiátricos, nos dirigimos para a província de La Matanza, local bastante pobre e onde se localiza o Centro de Salud Mental Drº Mario Tisminetzky, que funciona de forma semelhante aos nossos ambulatórios.

Fomos recebidos pela Drª Maria Inês, que naquele momento era responsável por coordenar o serviço. Esta nos apresentou alguns técnicos do serviço e os espaços físicos, compostos por muitas salas de oficinas, grupos terapêuticos, consultórios e um grande auditório, onde acontecem aulas de psiquiatra com os alunos da universidade. Muitos psiquiatras da instituição realizam grupos terapêuticos, divididos pela sintomatologia dos pacientes, como, por exemplo, o grupo de pacientes com transtornos de humor. Drª Maria Inês também nos apresenta, com grande orgulho, uma grande sala dividida por uma parede de vidro onde se realizam as observações do comportamento de crianças. Segundo ela, muito utilizada na formação dos alunos que observam o comportamento enquanto as crianças brincam do outro lado. Soubemos também da existência de um outro hospital, que não chegamos a conhecer: “Open Door”. Cheguei a pensar, “que ótimo, um hospital de portas abertas!”. Soube depois que tal hospital se localiza fora cidade, num local isolado, onde os pacientes ficam internados por longos períodos em meio a um terreno extenso com muito verde. “No hay como salir del Open Door...” diz um psicólogo.

Federico não pôde nos acompanhar em nossa visita pela instituição, pois estava atendendo um jovem psicótico acompanhado de sua mãe. Esta se mostrava disposta a interná-lo, mesmo que a indicação fosse que o rapaz retornasse para casa.


(1) Psicólogo formado pela Universidade Federal Fluminense e residente de Saúde Mental na cidade de Niterói (RJ), Brasil.