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Doação voluntária de sangue

 

Louvavel, sob todos os aspectos, a campanha iniciada pel a Associação Brasileira de Doadores Voluntarios de Sangue, campanha encampada pelos Ministerios da Saude e Previdencia Social e recentemente aprovada inclusive pel a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, no sentido de ver incentivada em nosso meio a doação de sangue por voluntarios sadios, em substituição ao chamado "doador remunerado", que vende a preços vis e condenaveis seu proprio sangue, muitas vezes veiculador de agentes infecciosos, tais com o virus da hepatite B, o espiroqueta da sifilis e os protozoarios da malaria e da doença de Chagas.

Ja espoliados por verminoses diversas e pela fome cronica, vitimas da propria sociedade onde vivem, acreditamos firmemente que, com o apoio do governo, das associaçoes medic as e dos hemoterapeutas conscientes, assistiremos ainda nestes proximos anos ao desaparecimento desses doadores, substituidos por elementos higidos, conscientes do gesto humanitario que estao realizando em prol de seus semelhantes.

Quando J.P. Soulier e Jean Bernard, em Paris, logo apos a II Guerra Mundiallideraram na França a grande carnpanha para desenvolver o  "Centro Nacional de Transfusao", coloquei-me, no Brasil, ao lado daqueles que desejariarn ver irradiado para  nosso Pais aquela rnesma atividade. Hoje, a França e outros paises da Europa sao autosuficientes ern sangue e seus derivados (albumina, fibrinogenio, fatores de coagulaçao, etc.).

Soulier, coronel medico, figura energica e dinamica que a tudo preside, atribuiu organi­zaçao modelar a benernerita instituiçao que dirige. Ern nosso meio, o Ministro Paulo de Almeida Machado deu infcio a criaçao de Centros Regionais de Hemoterapia, patriotica iniciativa que, com a ativa participaçao de Fran­cisco Antonicio, teve continuaçao no atual governo.

No Hospital das Clinicas de Sao Paulo, o Prof. Michel Jamra vem desenvolvendo meritorio trabalho para irnplantar este Centro, apoiado pelas nossas autoridades sanitarias e medicos da Divisao de Transfusao de Sangue do Hospital das Clinicas e, pela dedicaçao em tempo integral, de seu atual Diretor, o Dr. Yoshitaka Okamura.

Oxalá possa o ilustre colega ver coroado de sucesso esta bela iniciativa. A politica do sangue e hemoderivados caminha para uma soluçao satisfatoria, com a instalac;ao dos varios Centros Regionais de Hemoterapia. Felizrnente, governo e hemo­terapeutas uniram seus esforços contra os especuladores do sangue, deixando de usar os "doadores remunerados", geralmente os "escolhidos" dentro de urna população carente e marginalizada dos grandes centros urbanos.

Procurando, de modo ilusorio, reforçar seu baixo poder aquisitivo, esses nossos pobres irmaos sao vitimas, como ja referi, da sociedade em que vivemos. A mercantilizaçao do sangue deve ser frontalmente combatida, cabendo ao poder publico e aos hemoterapeutas regularizar e disciplinar as atividades. No Hospital das Clinicas de Sao Paulo, o Programa Nacional do Sangue e Hemoderivados - Pro-Sangue, contando com a competencia de varios especialistas, necessita ser irnplantado para servir a nossa população. E Necessario, porem, que se faça uma carnpanha bern orientada para que os doadores voluntarios procurem aquele grande hospital, corn a certeza de que o sangue por eles do ado vai ser util a seu sernelhante.

Felizmente, no Brasil, so agora encontra ressonancia o "Relatorio Casal", denunciando o que observara em 1961, no Brasil, o ilustre hemoterapeuta de Montpellier. Doadores voluntarios irao aos poucos substituindo os "doadores remunerados"; os hemocentros brasileiros, com prioridade para as grandes cidades irao cobrindo as necessidades do sangue para os nossos hospitais de ensino. Digno de aplauso vem sendo a conduta dos hemoterapeutas brasileiros, condenando o comercio e o trafico do sangue. São Paulo precisa dar urn exemplo a outros estados, irnplantando, desde logo, no Hospital das Clinicas, com o auxilio das autoridades govemamentais, o seu Centro de Hematologia e Hemoterapia, com estrutura capaz de incentivar a doaçao voluntaria do sangue.

O Brasil precisa urgentemente de derivados do sangue e, para isto, urge a formaçao de pessoal tecnico especializado, treinado em laboratorios de pesquisa e em hospitais de ensino. Em Recife, graças aos esforc;os desenvolvidos por Luiz Gonzaga dos Santos, com o apoio decisivo das autoridades locais ja existe, em pleno funcionamento, uma unidade modelo de Hemoterapia (HEMOPE), com atuaçao regional, ate que possam ser descentralizadas em subunidades, conforme o incremento das necessidades de serviços. o cadastro dos doadores permitira, também, coletar uma serie de dados clinicos, biologicos, lahoratoriais e demograficos, de extrema irnportancia como indicador de saude, nas areas representadas. (...)