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Planejamento familiar

 

"Planejamento familiar" que nada tern a ver com "Controle da natalidade", mas que muitos confundem com fins as vezes ideológicos e politicos e uma necessidade inadiável em nosso meio, em que pesem ainda discussões de ordem doutrinaria sobre o assunto.

Não temos o direito de estimular a natalidade onde ainda existe fome e miséria. O planejamento familiar e um imperativo de vida social, ate que se consiga a elevação e a homogeneização da riqueza económica e espiritual da coletividade.

Como Secretario de Higiene e Saúde da Municipalidade de São Paulo, visitando as zonas periféricas da nossa grande metr6pole, tenho sentido o grave problema de família pobres e numerosas, vivendo miseravelmente, sem assistência materno-infantil, com um alto coeficiente de mortalidade infantil e de prematuros. E 1ógico que nenhum governo, a não ser os totalitários, pode atuar de modo coercitivo, entrando na intimidade do casal e ordenando o numero de filhos que o mesmo deve ter.

O planejamento e coisa diferente, pretendendo fornecer aos interessados informações sobre os meios de que eles podem lançar mão para espaçar os filhos, dentro de numero que desejarem ou puderem ter, na ocasião oportuna. Devemos criar o sentido da "paternidade responsável", para evitarmos esta onda criminosa de abortos provocados, verdadeira epidemia que ocorre no Brasil e em outras partes do mundo. Em 1970,700.000 abortos foram praticados no Brasil. Destes, 20% foram hospitalizados, representando 420.000 leitos/dia, ocupados a razão de 3 dias por caso.

Médicos inescrupulosos e curiosos praticam esses abortos ilegais. Se o aborto, em ultima analise, visa uma gravidez indesejada, não seria mais lógico e mais inteligente evitar esta gravidez? Não seria muito mais interessante que aqueles 20% de leitos hospitalares, num país tão carente de vagas em hospitais, fossem ocupados com outros males evitáveis? A soluçao corajosa aí esta: 70.000 casos de poliomielite ou de varíola causariam, sem duvida, verdadeiro pandem6nio, mais isso representa, apenas 10% da incidência de aborto provocado.

Infelizmente, em to do o Brasil a assistência a mulher-mae e carente e defeituosa. E esta puericultura, realizada em tais moldes, acabara fatalmente no preparo de uma raça frágil e m6rbida que pagara o tributo a morte, no momento de sua eclosão ou que não conseguira vencer os primeiros obstáculos da vida. Depois, a mulher-mãe, sem recursos e sem animo, atravessa heroicamente, ao desamparo de qualquer conforto material e a revelia de qualquer socorro, as angustias da parturição dolorosa. Tudo isto, ela logo esquece, porque o filho nasceu.

De qualquer modo, a realidade nacional, com todo o esforço que o atual governo vem promovendo, mostra-nos ser o planejamento familiar uma necessidade real. Esta "explosão demográfica" nos alarma, sob certos aspectos. Somos um país-continente, com um grande vazio demográfico a preencher, talvez um dos maiores do mundo, mas e preciso que recuperemos este enorme território por uma população sadia, plenamente integrada na vida nacional. (...)