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Tratamento contra as drogas

 

 

Toxicomanias

 

Um mundo sem mal-estares?


Resumo


         A toxicomania tem se afirmado como uma patologia do contemporâneo. Neste trabalho buscaremos refletir sobre um paradigma do laço existente entre os sujeitos hoje, o qual a toxicomania expressa de forma ostensiva. A luz da psicanálise, veremos como a civilização vem transformando-se a partir de uma nova conjugação entre consumo e cientificismo, produzindo novas patologias que se referem não mais a um questionamento dos sujeitos sobre aquilo que lhes falta, mas sim a uma busca incessante pelos objetos produzidos pela cultura, objetos estes que prometem suprimir qualquer espécie de mal-estar. Utilizarei como fio condutor deste trabalho o matema que Lacan chamou de discurso do capitalista, a partir de textos produzidos por psicanalistas contemporâneos; também utilizarei minha experiência com a toxicomania em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) para usuários de álcool e outras drogas, discutindo os embaraços que tais sujeitos nos colocam enquanto analistas.

 

Parte I

 

   Toxicomania, anorexia, vigoroxia (1), bulimia, mudança de sexo, implantes, anabolizantes, estimulantes, body buildings, sex shops, AIDS, Mac Donald’s....  Podemos pensar todos estes eventos citados como signos do contemporâneo, porém todos se dão a partir de Um (2) (SANTIAGO, 2001) imperativo: “goza, goza, goza”!

A viagem que trançaremos nestas linhas que seguem não será por terras longínquas e nem por épocas distantes. Não precisaremos nem nos deslocar de casa para observamos tais fenômenos, pois eles acontecem bem debaixo de nosso nariz. Basta olhar pela janela, ligar a televisão, ouvir os noticiários ou navegar pela internet. Talvez seja ainda mais fácil: apenas lembrar a última vez que precisou usar um estimulante para terminar um trabalho como este em plena madrugada ou a última vez que foi a uma festa da faculdade.

Estamos falando de acontecimentos que datam do final do século XX e início do século XXI, ou seja, fenômenos que a princípio nos causam certo estranhamento devido a velocidade que eles emergem, mas que devem ser pensados como produtos de um momento histórico e analisados de forma cuidadosa. Pensando tal cuidado é que vamos incluir a clínica psicanalítica como ferramenta fundamental neste processo. É através da psicanálise que iremos refletir como tais atravessamentos vão se dar e o que eles irão produzir na inscrição do sujeito na linguagem (3) (LACAN apud BERNARDES, 2003), ou seja, como o sujeito do enunciado irá nos apontar no setting clínico os significantes que o marca, registros de uma cultura.

Como exemplos, temos uma reportagem do jornal O Globo (Revista: 26 de junho de 2006. p.18-23)cujo título é “A vida com analgésico”. Nesta reportagem, psicanalistas apontam para a geração atual de jovens entre 15 a 25 anos que se utilizam de inúmeras drogas de forma excessiva para evitar qualquer espécie de mal-estar, seja ele advindo do esgotamento físico, de uma dor de dente ou de um descontentamento com a forma física. Nesta reportagem temos o caso de Ana que extraiu um siso com anestesia geral, de Marcelo que bebe energéticos quando deseja virar a noite estudando ou da nutricionista Daniela que já foi consumidora assumida de estimulantes para aumentar o pique na aula de ginástica.

Podemos considerar estes três casos como “normais” dentro de uma classe média cada vez mais medicalizada, aonde o discurso médico e sua fusão com as novas tecnologias científicas vão cada vez mais ocupar espaço nas experiências dos sujeitos: nada mais comum hoje, que um médico prescrever anfetaminas para uma paciente que se queixa estar acima do peso. Vale destacar que não estou falando em obesidade mórbida; basta cinco quilos a mais para muitas mulheres procurarem ajuda médica.

Podemos citar, também, dentro desta perspectiva, experiências ainda mais radicais do que a de Ana, Marcelo e Daniela. Já estas que citaremos não costumam ser tão corriqueiras, mas vem ganhando cada vez mais adeptos. Estamos falando dos casos onde mulheres e homens se submetem as inúmeras cirurgias plásticas ou a ingestão de anabolizantes em busca do corpo perfeito, temos também os sujeitos chamados de transexuais que optam por cirurgias bastante arriscadas em prol do desejo de se tornar mulher, se é que podemos falar em desejo. Freud, apesar de nos apontar a direção que a civilização poderia tomar com o discurso científico, não chegou a se deparar  com este modo particular dos sujeitos lidarem com seus corpos, frutos de um outro paradigma de consumo!  

De maneira alguma pretendo olhar para tais fenômenos através de um prisma moralizante como um velho homem que diz a seu neto ao ver um transexual passar: “Este mundo está perdido”! Nem mesmo cair em discursos que beiram a pregação religiosa alegando o fim dos dias.

Para pensarmos todos estes fenômenos que concernem à atualidade, e entendermos o que funda a existência do humano hoje, precisaremos nos deter não só nas implicações que economia global imprime na sociedade ocidental, mas também no que é de mais intrínseco na cultura atual e na vida de cada sujeito: o discurso científico e suas conseqüências.

Dos clones as cirurgias de mudança de sexo, passando pelas mulheres que decidem fazer inseminação artificial, o que possibilita tais fenômenos é a conseqüência do que muitos chamam de evolução científica. Notamos que a ciência hoje não só rege a vida dos homens como também pode reger a morte, ou melhor, como se morre ou mesmo se alguma parte do corpo pode continuar viva. Basta lembrarmos do que acontece em alguns países europeus que defendem a eutanásia (desligar os aparelhos que mantém a pessoa viva) ou os transplantes que acontecem nos hospitais onde parte do corpo de alguém já falecido é inserida em outro corpo vivo.

É pensando a presença do discurso científico em nossa sociedade e como este cientificismo vem ganhando cada vez mais espaço na vida dos sujeitos – e não é apenas o cientificismo o único responsável – que poderemos dar um passo adiante, chegando a seus sintomas e, principalmente, qual é a possibilidade de uma clínica psicanalítica com estes sujeitos.

1)(...) mais comum em homens, se caracteriza por uma preocupação excessiva em ficar forte a todo custo. Apesar dos portadores desses transtornos serem bastante musculosos, passam horas na academia malhando e ainda assim se consideram fracos, magros e até esqueléticos. Uma das observações psicológicas desses pacientes é que têm vergonha do próprio corpo, recorrendo assim aos exercícios excessivos e as fórmulas mágicas para acelerar o fortalecimento, como por exemplo, os esteróides anabolizantes (BALLONE, 2004). Não existe uma classificação específica para este transtorno em manuais como o CID.10 e por isso tais pacientes são diagnosticados com os critérios diagnósticos para F45.2 (OMS, 1998), ou seja, transtorno dismórfico corporal.

2) Este Um se refere ao gozo no Um se contrapondo a idéia de um gozo que passa pelo Outro. Não que o Outro não esteja lá, mas o sujeito recusa os semblantes ofertados pelo outro. Este Um se refere ao Um do Eros platônico, como um corpo único, completo por dois dorsos.

3) Para pensarmos o que chamamos de sintomas contemporâneos lançaremos mão, no terceiro capítulo, das falas dos sujeitos que se deram no dispositivo clínico psicanalítico através de minha experiência em um Centro de Atenção Psicossocial para usuários de álcool e outras drogas no ano de 2005, pois na perspectiva lacaniana é através da linguagem que os sintomas são estruturados: o sintoma se resolve inteiramente numa análise de linguagem, porque ele próprio é estruturado como uma linguagem, por ser linguagem cuja fala deve ser liberada.

Parte II