Voltar á parte II

IV Laço social

 

 

Abuso de drogas

 

III

Podemos ainda dizer: Um por todos e todos por um?

 

Para compreendermos de forma mais consistente o discurso da ciência no contemporâneo, para pensarmos como este tipo de discurso irá colonizar os cotidianos dos sujeitos, será preciso entender todo o contexto em que ele se conecta, ou seja, suas conjugações com o capitalismo e como ele acontece a partir do paradigma de mercado global e sua divulgação pelos meios de comunicação de massa.

Estamos falando aqui de um sujeito que está imerso em uma cultura diferente da situada por Freud em 1929, onde o laço social estava dado, onde este laço entre os sujeitos se constituía a partir da abdicação de um quantum de libido para a convivência com os outros. Nesta sociedade descrita por Freud, chamada de sociedade civilizada ou moderna por alguns outros autores, visava-se à contenção de uma energia sexual e era a partir daí que Freud passou a apontar a principal fonte de desprazer para os humanos: a relação com os outros e que esta seria a base de toda neurose. Podemos dizer que a sociedade descrita por Freud, então, era uma sociedade que tinha como seu paradigma a neurose, uma sociedade onde o lugar social de homens e mulheres era definido por valores culturais rígidos, assim como de toda cena familiar.

Neste mesmo Freud, ele nos aponta para algumas soluções encontradas por tais sujeitos civilizados para o alívio destes mal-estares produzidos por esta cultura como, por exemplo, à utilização de substâncias químicas descobertas pela ciência e que esta seria a forma mais eficaz do apaziguamento desta tensão. Apesar de tal apontamento, não poderíamos falar em toxicomanias (1) (RÉGIS apud SANTIAGO, 2001), na concepção que temos hoje, em Freud. Visto que a substância química em si não define a doença como tal, não há uma substancialidade própria da substância química que definirá um sujeito como toxicômano.

As novas patologias serão definidas não pelo uso de determinado objeto e sim pela relação que o sujeito terá com esse ou aquele objeto, neste caso a substância química. Além disso, teremos todo um funcionamento social que irá definir a relação entre os sujeitos e estes com os objetos produzidos pela cultura. O que marcará de forma radical a sociedade descrita por Freud e a sociedade atual, assim como as patologias surgidas em ambas as sociedades.

Na cultura atual, nada mais comum que ligarmos a televisão e nos depararmos com alguma campanha publicitária tentando nos vender alguma fórmula mágica de emagrecimento ou mesmo algum tipo de estimulante importado para que possamos “ficar mais ligado”. Por todos os lugares da cidade, dentro ou fora de nossas casas, estamos sendo a todos os momentos bombardeados pela mídia nos dizendo o que comprar, sempre com uma eterna promessa de felicidade. Há uma promessa em torno de tais produtos que garante uma felicidade ideal, sem precisarmos passar pelo Outro, o objeto em si já basta para que sejamos felizes.

Se antes de maio de 68, constatávamos com facilidade um sujeito que lutava junto aos outros em busca dos ideais da civilização, como o movimento hippie ou os movimentos de esquerda que lutavam pelo fim das ditaduras militares em toda a América do Sul, observamos que a partir do final da década de 70, com a mundialização da economia, efeito do neoliberalismo, houve um desaparecimento destes ideais. Aqui no Brasil, a partir da metade da década de 70, com a crise da esquerda e o surgimento dos novos movimentos sociais (movimento feminista, movimento negro, movimento gay, etc.) podemos perceber que cada vez mais os grupos que possuíam ideais comuns se fragmentaram, transformando-se em grupos menores, com lutas mais específicas, referidas sempre ao bem-estar de seus integrantes, ou seja, lutas que beneficiassem seus iguais.

Com a fragmentação da esquerda, passando pelos novos movimentos sociais e mais tarde as lutas de moradores de uma determinada localidade, podemos observar como as lutas coletivas cada vez mais se tornaram identitárias e sectárias, chegando aos dias de hoje onde temos lutas não mais por ideais comuns, mas sim pela conquista individual de objetos idealizados. Uma luta que acontece de forma solitária. Segundo o psicanalista Roland Portillo (2005), o objeto a, objeto de satisfação de gozo se encontra, hoje, sobre o Ideal. O matema aponta o predomínio do gozo pulsional sobre os ideais da civilização: a/I.

Se na sociedade descrita por Freud em O Mal-estar na Civilização haveria uma repressão social exercida sobre o gozo do sujeito e que esta seria condição para a civilização, no contemporâneo temos a promessa de que o sujeito pode gozar o quanto quiser, basta consumir os objetos desenvolvidos pelas novas tecnologias científicas e que estão no mercado, tingidos pela espetacularização da mídia. Portanto, temos na cultura contemporânea, sujeitos que se interessam por aquilo que pode nutrir seu próprio gozo. Não apresentam nenhum interesse em estabelecer laços com o Outro (2) (MELMAN, 2002: p. 53). Temos a decadência do ideal e um individualismo que exclui o Outro. Em última instância assistimos, na contemporaneidade, o estabelecimento do império do Um do real do gozo sobre o outro simbólico das regulações próprias ao laço social.

A partir do que foi dito até então, podemos pensar de forma mais clara como o discurso científico irá se conjugar com a cultura atual, de forma que o discurso cientifico ao qual nos referimos não pode ser pensado separadamente deste processo que apontamos mas sim como sendo produtor e produzido por tais transformações culturais.

Nesta altura podemos nos perguntar, então, como a ciência irá se inserir neste processo onde o sujeito possui um laço frágil com o Outro? A ciência como já citamos no início deste trabalho, irá cada vez mais produzir seus objetos com uma promessa de solucionar a insatisfação fundamental que é a nossa dependência com relação a linguagem, esse impossível da relação sexual. Como se o objeto a estivesse entre nós . E vamos nós atrás deste objeto! Seja no supermercado, nas farmácias, nas boates, nas “bocas de fumo” ou até mesmo no outro, que já há algum tempo está coisificado. Uma busca de felicidade egoísta, sem o Outro.

A busca incessante por estes objetos produzidos pelas novas tecnologias científicas e sua espetacularização pelos meios de comunicação de massa, irá nos apontar para estes novos rumos que a civilização tomou. Se é que podemos chamar conceitualmente, lançando mão de Freud, de civilização. A partir daí poderemos pensar todo um regime de afetabilidade entre os sujeitos, como se dá o laço social entre eles, assim como as novas formas de padecimento como no caso das toxicomanias. Uma forma de padecimento que não está endereçada a um Outro e que se dá no próprio corpo.

1) Foi Emmanuel Régis em sua obra Précis de psychiatrie (1885, Paris, 1906) que utilizou o termo toxicomania pela primeira vez pautado em um dispositivo teórico da psiquiatria ao qual muito se difere dos caminhos seguidos pela psicanálise para abordar tal questão.

2) Outro aqui como um lugar habitado por grandes textos ou mesmo pela figura de Deus. Mas se Lacan chamou esse lugar de Outro foi para salientar que na origem há uma organização linguageira , da qual o sujeito recebe sua própria mensagem, mas sem saber o que se quer dele, nesse lugar e o que se espera dele. É por isso que os grandes textos, que evoquei há pouco, também são defesas contra a vacuidade desse lugar Outro, desse lugar linguageiro, a partir do qual a mensagem do sujeito se forma, sem saber o que lhe faz dizer.