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Drogas e a sociedade

 

IV

Do objeto em cena à encenação do laço social.

Para que possamos compreender como esta nova forma de laço social se dá e as novas patologias contemporâneas, utilizaremos o pensamento de Lacan (1972-77) em Conferências Italianas onde ele traz o que seria o início de uma elaboração que não chegou a concluir: o discurso do capitalista (LACAN apud BENTES & GOMES, 1998: p.21-30).

Lacan irá nos dizer que o discurso do capitalista opera uma torção da fração esquerda da fórmula do discurso do mestre (1) e que esta torção que demonstra o estatuto do gozo hoje. Se no discurso do mestre há uma relação de impossibilidade entre o sujeito e o objeto, no discurso do capitalista essa impossibilidade simplesmente desapareceu, conforme podemos depreender de sua escrita:

 

 

                      agente                    outro
                      __________             ____________

                     verdade            produto/perda

 

 

            

 

No discurso do capitalista, o significante-mestre (S1) está situado no lugar da verdade, abaixo do lugar do agente, ocupado pelo sujeito ($). No lugar da verdade, S1 assume o caráter de valor de dinheiro. Nesta época da globalização marcada pela hegemonia da especulação financeira – a cifra, o dinheiro, sustenta por si só a lógica do mercado. Situado abaixo do sujeito, ele manifesta a utopia universalizaste, imanente ao mercado, que ignora a diferença entre os modos de gozo (JUNIOR & LIMA, 1998).  Podemos perceber também como o objeto irá incidir sobre o sujeito. O objeto está colocado no lugar da perda, produzindo sujeitos que terão acesso a ele, um sujeito que implora por este objeto que lhe falta e que a ciência o permite alcançar.

Vale aqui destacar que o permitido não significa necessariamente o que seja possível. Há uma permissão através das novas tecnologias que consigamos ser felizes o quanto quiser, porém, há algo que é da ordem do impossível e que a cena publicitária não deixa aparecer. O segredo da permissão sem a possibilidade real jamais entra em cena. Nunca seremos tão felizes quanto os antidepressivos nos prometem nos tornar. Segundo o intelectual francês Guy Debord (1997), o espetáculo moderno exprime o que a sociedade pode fazer, mas nesta expressão o permitido opõe-se absolutamente ao possível.

O objeto na verdade aparece apenas no palco, ele não desce para a platéia ou então desaparece ao fechar das cortinas. Ele continua a ser real e por isso localiza-se fora do campo da realidade (MELMAN, 2003). Apesar disso, todos correm atrás dele incessantemente, produzindo com isso um sujeito-objeto como é o caso da relação do toxicômano com a droga, ou mesmo através de outros tipos de comportamentos como é o caso dos jovens que transam com várias pessoas na mesma noite buscando sempre uma transa ainda melhor – sem os devidos cuidados – levando muitos a contraírem doenças como a AIDS. Existe hoje uma espécie de cultura do sexo, onde falar das intimidades sexuais ganha um tom de transgressão e promete um gozar impossível de acontecer.

Como este objeto é sempre apresentado na forma de um espetáculo, é colocado pelos meios de comunicação de massa como uma possibilidade de gozo a mais, um mais-de-gozar, e para todos de forma massificada – todos podem gozar com ele – passa, então, a existir uma ‘utopia’ universalizante do gozo. Podemos perceber alguns exemplos de tal ‘utopia’ na reportagem do jornal O Globo apresentada no início deste capítulo. É muito grande o número de jovens da classe média que se utilizam de estimulantes para aumentar o pique nas academias de ginástica em busca do corpo ideal, assim como outros tipo de substâncias que funcionam como anabolizantes.

Vale ressaltar que o “corpo perfeito” espetacularizado pela mídia, se mostra para os sujeitos como algo associado não só a uma bela imagem, mas também a imagem de uma vida saudável e feliz. Basta passearmos pela cidade e olharmos para os outdoors, é um boom de imagens de ‘corpos sarados’ associados a produtos que também prometem uma vida feliz, longe dos mal-estares. Com isso, milhares de pessoas correm atrás daquela imagem congelada / planificada das propagandas em busca de uma promessa impossível de se realizar: uma vida livre de mal-estares.

Podemos perceber, então, a direção que o laço social irá tomar na atualidade. Um laço – se é que podemos chamar de laço – que se dá mediado por um objeto, neste caso a imagem da perfeição de corpo, que se apresenta como se pertencesse a realidade.  Em torno deste objeto que grupos irão se formar para alcançar tal objetivo de gozo. Na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, nada mais comum do que grupos de amigos que iniciam seus vínculos de amizades a partir da “malhação”. Segundo as cientistas sociais Maria Almeida e Kátia Tracy, os meios de comunicação de massa geraram novas formas de comunidade afetiva, ou seja, grupos que começam a imaginar e sentir coisas coletivamente.

No livro Noites Nômades (ALMEIDA & TRACY, 2003: p.123),elas irão falar como funciona esta nova forma de afetação dos jovens em torno da imagem do corpo que vai das academias de ginástica as boates, e arrisco a acrescentar os jovens de classe média que sobem as favelas em busca de drogas. Formam-se grupos de acordo com os seus modos de gozar e estes modos de gozar irão se apresentar de inúmeras formas no espaço urbano, como se fossem ilhas de gozo – no livro elas descrevem dois tipos de circuitos noturnos dos jovens: o mainstream e o underground.   
A resposta de um jovem as autoras marca de forma bastante clara esta nova modalidade de laço social que discorremos até aqui:

         Você tem que estar vestido adequadamente naquela boate pra ser aceito, pra sua imagem ser aceita naquele ambiente. Cê tem que estar inserido, por exemplo, no grupo de amigos e tal. E ser bonitinho, ter boa aparência. É o maior inferno pra menina se ela esqueceu o brinco em casa, sabe? Ou se a meia furou, sabe essas coisas? Quanto mais novo, mais inferno se torna pra uma pessoa, sabe? Tenho amigas minhas que o grau de insegurança delas é tão grande que elas perguntam às vezes até sete vezes por noite se elas tão bonitas, se o cabelo amassou, sabe? É aquela prisãozinha, sabe? (p.196).

É através da uma imagem obtida por uma determinada performance que será o indicador de satisfação e formador do laço social, ou seja, o laço social se dá de forma performática em torno do objeto de gozo que também é apresentado aos sujeitos de forma performática. Guy Debord (1997) nos diz que o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas por meio das imagens. Portanto, temos um laço frouxo, sem consistência, entre os sujeitos, ou melhor, entre o sujeito e o Outro.

Podemos identificar na última frase dita pelo jovem entrevistado – É aquela prisãozinha, sabe? – o estatuto destas relações que irão se estabelecer entre os sujeitos e os objetos no contemporâneo. Como que se constituem as novas configurações dos mal-estares e as patologias atuais que concernem a estes modos de existência, onde os objetos produzidos pelas novas tecnologias, assim como os sujeitos que são postos no lugar do objeto, se apresentam de forma espetacularizada no campo da realidade.

A partir do significante prisãozinha podemos refletir sobre este sujeito contemporâneo que se apresenta fusionado com o objeto de gozo, um sujeito-objeto capturado / aprisionado nessa relação objetal pela promessa que o objeto faltoso encontra-se no campo da realidade. Um sujeito que caça seu objeto no campo da realidade de forma compulsiva, mesmo sabendo que esta caçada pode o levar à morte.

 

Referências Bibliográficas

 

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(1) No discurso do mestre, a posição predominante ou dominante (no canto esquerdo superior) é preenchida por S1, o significante não-senso, o significante sem nexo ou razão, em outras palavras o significante-mestre. O mestre deve ser obedecido – não porque nos beneficiaremos com isso ou por alguma outra razão desse tipo – mas porque ele assim o diz. Não há razão para que ele tenha poder: ele simplesmente tem (FINK, 1998: p. 161).