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Parte III psicología das toxicomanias

 

 

Tratamentos contra as drogas

 

II

O discurso científico como tentativa de solucionar o impossível.

Para pensarmos este desenvolvimento científico, para entendermos quais são suas formas na atualidade, precisamos ir além.

É necessário deixarmos claro que não existe uma ciência que se desenvolve separadamente de um homem e que este apenas sofre seus efeitos. Não nos deixemos cair em uma perspectiva durkheimiana (1) de sociedade, separando o indivíduo de seu socius.  Falamos aqui a partir de outra perspectiva: para compreendermos os fenômenos contemporâneos, é necessário levarmos em conta o fator cultural que eles estão inseridos: símbolos, formas de afetação, de relacionamento entre os sujeitos, ou mais radicalmente falando, como os sujeitos se inscrevem na linguagem, e que é esta que irá produzir o laço social e a cultura de forma geral.

Portanto, o homem está em todo momento sendo produzido e produzindo seu mundo, sua forma de estar na linguagem. Não somos vítimas de um mundo cruel, somos produtos e produtores de realidade e isto não exclui nossa dimensão singular de existência, aliás, é na clínica que iremos nos dar conta desta dimensão: como cada sujeito se inscreve na linguagem de forma diferente.

Partindo do que foi dito até então, podemos chegar mais próximo de uma compreensão dos fenômenos contemporâneos, ou melhor, quais as formas dos sujeitos se apresentarem, seus sintomas e desejos, incluindo aí a forma que o homem vem se relacionando com o saber científico na contemporaneidade.

Falar da ciência e sua relação com o a psicanálise não é uma discussão inédita entre os psicanalistas, tendo em vista que o próprio Freud partiu dela para invenção da psicanálise. Já Lacan (LACAN apud FINK, 1998: p.163) nos indicava nos quatro discursos a posição do discurso científico e sua relação com o discurso da histérica apontando que a histérica, assim como os cientistas,colocamo objeto a na posição de verdade. Não nos deteremos nesse ou naquele conceito lacaniano para falarmos da ciência, nem mesmo como Freud partiu dela e chegou à psicanálise. A questão que deve ser colocada neste trabalho é como a ciência e suas novas tecnologias se apresentam hoje em nossa cultura? Como a ciência irá se relacionar com o cotidiano dos sujeitos?

O discurso científico cada vez mais é o discurso daquele que já sabe o que fazer pelo sujeito, portanto, já sabe o que é melhor para ele. O sujeito é submetido, então, a palavra do cientista / especialista – neste caso podemos citar o médico como exemplo – que é da ordem da prescrição: faça isso ou faça aquilo! É um real biológico que está em jogo e não um sujeito do inconsciente. O especialista sabe o que falta – Temos corpos manipulados a tal ponto que o objeto parece ter saído de seus recônditos vindo a se materializar no exterior (VIEIRA, 2005: p. 9). Apesar de tal promessa surgida com o avanço da ciência, observaremos mais adiante que há uma busca permanente deste impossível de se resolver, que nada mais é que nossa dependência com relação à linguagem e um objeto (2) (LACAN, 1964) que é impossível de dizer, só se atinge o objeto através da linguagem(BERNARDES, 2003).  

Não devemos esquecer que Freud em Psicanálise e Psiquiatria (1916-17) já nos apontava tais efeitos, advindos dos conhecimentos científicos, sobre os sujeitos; como os médicos, neste caso os psiquiatras, através de sua forma de olhar para o humano não dão conta do conteúdo singular daquele sujeito que chega solicitando ajuda, tendo que se contentar com um diagnóstico e um prognóstico que o faz calar-se e não ter mais nada a dizer sobre seu sofrimento, já está tudo dito nos manuais de psiquiatria.

Freud, ainda diz que este tipo de investigação toca de forma superficial o que concerne ao conteúdo dito pelo sujeito, dando uma etiologia geral e remota. Portanto, não estaríamos falando nenhuma novidade se apontássemos tais fatos nos dias de hoje. Mas é bem verdade que algo acontece atualmente que difere dos tempos de Freud e é exatamente esta diferença que irá nos interessar.


1) O termo refere-se ao sociólogo francês Emile Durkheim que defendeu em sua principal obra, “Le suicide” (1969), a idéia que o indivíduo se encontra separado da sociedade que está inserido. Durkheim faz uma contraposição entre ego individual e ego social.

2) Objeto aqui como objeto a: O objeto a é alguma coisa da qual o sujeito, para se constituir, se separou como órgão. Isso vale como símbolo da falta, quer dizer, do falo, não como tal, mas como fazendo falta. É preciso então que seja um objeto – primeiramente, separável – e, em segundo lugar, tendo alguma relação com a falta.